- Êpa, essa viagem foi muito rápida! - Tô com muito calor! Essa roupa laranja é um inferno. - C viu? Quase morreu. Foi um grande estouro. - Os portões da escolha foi aberto. Saiu um monte de gente de uma vez. Encavalou. - Frita pastel e coxinha Rute. - Vô leva esse pilantra no pau! Zé subiu no andaime. Maria chegou na casa de Andreia para cuidar do Pedrinho. Raimundo acabou desistindo de faltar ao trabalho. Laura faltou e comprou um atestado na praça 7. Ninguém aqui é vítima. Ninguém aqui sou eu.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O AMOR TEM COR?[1]

                                                                                                               


Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.  Bell Hooks


                                                                     
Um pouco antes de passar pelo processo de transição capilar, [contei sobre isso aqui: http://blogterceiroopiniao.blogspot.com.br/2014/06/se-o-cabelo-e-meu-deixa-eu-cachear.html] passei por um período no qual eu buscava ler estudos e blogs que tratassem de assuntos sobre a questão da consciência identitária da mulher negra e sua relação com o cabelo. Acontece que em uma dessas buscas acabei me deparando com uma temática que me intrigou muito e da qual eu nunca havia me questionado: “o mercado matrimonial da mulher negra e a decorrente solidão afetivo-sexual”[2].

Li diversos relatos de mulheres negras, de diferentes classes e capital cultural, e todas traziam uma narrativa muito parecida no que concerne aos relacionamentos afetivos. A narrativa dessas mulheres me fez perceber que muitas das situações vividas por elas eram parecidas com as minhas. Foi um choque me deparar com isso. Eu não sabia (e ainda não sei) como lidar com aquilo (isso). Por um lado, eu estranhava o porquê de nunca ter me questionado sobre isso, por outro, passei a reviver em memória toda minha vida afetiva com outro olhar, um olhar menos iludido e menos naturalizado. E fazer isso foi e ainda é muito doloroso pra mim, porque de repente passei a perceber que diversas situações vividas e não-vividas talvez estivessem relacionadas com a cor da minha pele.

Tenho 27 anos e nunca namorei. Nunca havia passado pela minha cabeça que ser uma mulher negra pudesse ser um fator relevante para justificar essa minha condição, mas hoje penso que o fato de eu ser uma ‘garota estranha’ (essa era uma das minhas justificativas), talvez não seja o único fator determinante na dificuldade de manter um relacionamento afetivo.

Minha vida amorosa é marcada por uma infinidade de amores platônicos, sempre marcados por expectativas dentro de uma lógica onde nada é realmente impossível enquanto nada é possível. Meu primeiro amor do jardim de infância já era um prenúncio do que seria minha [não] vida afetiva. No primeiro dia de aula eu me apaixonei por um menino da sala, morria de amores pelo tal Rodolfo, mas ele gostava e vivia atrás de outras duas meninas da turma, gêmeas, branquinhas, bonitinhas do cabelo perfeito. A adolescência foi terrível, durante todo o meu período escolar eu nunca fiquei com alguém da minha escola. A verdade é que nunca me senti bonita e muito menos desejada por nenhum dos meninos da escola. Alisava meu cabelo numa tentativa frustrada de me encaixar em um padrão de beleza feminina, mas mesmo assim eu não era a garota “escolhida”. Eu era a amiga, o “brother”, servia de ponte entre minhas amigas e seus pretendentes, era o cupido que agilizava os encontros, e só. Eu, sendo magra, tímida e tida por alguns como ‘cdf’, não me enquadrava nem no perverso esteriótipo da negra sexual. Eu era quase que invisível.[3]

A minha vida acadêmica não foi muito diferente disso, cursei Direito em uma Faculdade particular, no período da tarde. Se eu não era objeto de desejo de garotos adolescentes em uma escola pública, imagina num ambiente como esse? E assim foi sendo construída [?] minha vida afetiva [?] durante todos esses anos. A solidão sempre foi algo presente.

Há pouco mais de um ano passei a usar o meu cabelo natural, está sendo uma mudança não apenas externa, tenho repensado muito sobre minha auto-estima e identidade. Estou num processo árduo de tomada de consciência de mim mesma e da maneira como me relaciono com as pessoas. De modo geral, posso dizer que a resposta tem sido positiva em relação a minha imagem, me sinto mais bonita e recebo mais elogios. Já não me sinto tão invisível ao desejo masculino. Mas ainda assim continuo sem vislumbrar qualquer perspectiva de um relacionamento duradouro. Quando conheço alguém é impossível não pensar nas implicações e dificuldades de um relacionamento inter-racial, impossível não cogitar a ideia de que provavelmente não serei preferência na escolha de um cara que queira um ‘relacionamento sério’.

É evidente que essa dificuldade afetiva não se restringe apenas ao âmbito racial, ela se mistura a questão de classe, ambas questões estão intimamente imbricadas[4]. Nos ambientes que costumo frequentar não encontro muitas pessoas negras, principalmente mulheres negras.[5] Sei do meu lugar ‘privilegiado’, sou advogada, estou terminando minha segunda graduação e apesar de não ter um sentimento de pertencimento de classe com a classe média, estou ciente de que compartilho com ela, em certa medida, um capital cultural. Compartilho inclusive um ideal de homem para me relacionar, confesso que nunca tive o homem negro como objeto de desejo, e o inverso também é verdadeiro, geralmente homens negros tem preferência por mulheres brancas[6].

Você pode estar se questionando: “ah, mas isso é questão de gosto, de preferências, não tem nada a ver com a cor da pele.” Bourdieu, um sociólogo francês, diz em seus estudos que a ideologia mais bem sucedida é aquela que não precisa de palavras, ela se dissemina de maneira opaca e invisível. Desde a infância, através do aprendizado, cada um de nós é formado de maneiras diversas e imperceptíveis. Somos ensinados, desde a infância mais remota, a formar julgamentos sobre o mundo que nos cerca, nossas noções de belo, feio, perigoso, do que devemos gostar e do que não devemos gostar. Além da escola, a televisão, os amigos, as pessoas com quem nos relacionamos, enfim, tudo o que nos cerca contribui para nossa formação pessoal, para a formação do que chamamos de nosso “gosto”.

Forma-se nosso habitus, ou seja, uma certa forma de relacionar com o mundo, com as pessoas, e com as coisas. Um jeito de mexer, de agir, de classificar, de avaliar o mundo, de fazer escolhas quase que sem pensar, naturalmente. O gosto se manifesta nesse sentido, como um senso de distinção. É assim na construção de uma estética da mulher ideal para se ter um relacionamento[7]: mulher branca para o casamento, a mulata para o sexo e a negra para o trabalho.

Conversando com uma amiga sobre nossa dificuldade de relacionamento fixos, em certo momento ela me disse “eu sei que por mais que eu estude, crie minha independência, dificilmente vou me casar, tenho consciência de que nunca serei suficientemente boa como uma mulher branca nessas mesmas condições.” Foi com muita tristeza que ouvi essas palavras, porque no final das contas parece que é isso mesmo, passei anos da minha vida tentando entender o que havia de errado comigo, questionando como que outras garotas nem tão bonitas e nem tão interessantes tinham tanta facilidade em se relacionar.

O amor tem cor? Sim, o amor tem cor, uma vez que, sistematicamente as mulheres negras são preteridas por homens negros e brancos na escolha de parceiras para um relacionamento afetivo. É preciso dar visibilidade a essas questões, somente assim podemos iniciar um processo de modificação de práticas tão naturalizadas em nosso cotidiano.

Empoderamento afetivo, auto-estima e representatividade são importantes instrumentos para lidar com a solidão afetiva, seriam talvez uma forma de transformar a solidão e a dor em liberdade... [ou quem sabe em amor?]


Caroline Louise 
e-mail: carolinelouise3@gmail.com







  


 [1]  De acordo com o Censo 2010, 52,89% das mulheres negras estão solteiras, 24,88% estão casadas e 2,60% divorciadas. O mesmo Censo aponta que as mulheres negras são as que menos se casam e as mais propensas ao “celibato definitivo”.

[2] Dentre os estudos que trata a questão afetivo-sexual da mulher negra destaco a dissertação de mestrado de Claudete Alves “A solidão da mulher negra- sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro na cidade de São Paulo”; e a tese de Ana Pacheco “Branca para casar, mulata para f..., negra para trabalhar: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia”

[3] “Nunca namorei no colégio, e pra mim isso era normal”: https://www.youtube.com/watch?v=VQVbXk39iKE

[4]  É comum nos relatos das mulheres negras o fato de que muitas, para conseguir um relacionamento fixo acabam se relacionando com parceiros de grau de escolaridade menor que o delas.

[5] Os negros que encontro nos lugares em que freqüento, geralmente são empregados. Não é difícil me encontrar em situações acadêmicas, restaurantes e até festas em que sou a única negra. É assustador.

[6] Alguns estudos, e até mesmo algumas mulheres apontam que o homem negro de melhor condição social prefere a mulher branca. O trabalho da Claudete Alves, mostra que é incorreta essa afirmação, uma vez que, sua pesquisa demonstrou que o homem negro tem preferência pela mulher branca independente de qual seja sua classe social.

[7] Existe também o machismo que estabelece as “mulheres pra casar”, sendo a mulher branca também vitima dessa prática. Porém, no caso da mulher negra, seu corpo é apenas um objeto, não há divisões desse tipo, mulher negra não é mulher para casar.








  












terça-feira, 14 de abril de 2015

Sobre outros Eduardos ou Pelo poder da gente do lugar

Tiago

Hoje eu gostaria de usar esse espaço para falar do Eduardo, o menino de 10 anos que foi assassinado no Rio de Janeiro há alguns dias. Digo gostaria por que na verdade eu acho que não devo. Por isso vou tentar não falar exatamente dele, ou por ele. Ultimamente tenho tido muita dificuldade para falar dos outros, sobre os outros e, principalmente, sobre estes outros, sobre estes Eduardos. Quem sou eu para falar do Eduardo, da dor que sente sua mãe, sua família? Da dor que sente seus amigos que, aliás, continuam vivendo no mesmo lugar, só que agora sem o Eduardo, que partiu junto com toda família para outro lugar.
Quando penso nisso, penso que talvez aquele lugar já não seja mais o mesmo, e que por isso já não seja mais tão lugar assim, principalmente para aqueles que conheceram o Eduardo. Penso que talvez aquele lugar tenha mudado, e que agora seja outro. Mas disso, só pode dizer quem vive por lá. Só quem continua passando por aquele beco sabe e sente como aquele lugar foi e como ele é agora, depois que o Eduardo partiu. Ele deve fazer uma falta que eu daqui só posso imaginar, afinal, eu não conheci o Eduardo, e nem moro no lugar.
Nas últimas conversas com meus bons amigos, temos falado que nesse momento talvez o melhor não seja falar do Eduardo, desse Eduardo. Menos ainda falar por ele, pela mãe, pelos amigos ou pela gente dele. Temos pensado que talvez (nesse momento) não seja esse o “nosso” papel. (“Nós”: essa gente que fala, escreve e tenta explicar as coisas no jornal, nos livros, na universidade, ou no Terceiro, por exemplo). Nesse momento, entendo que mais importante é falar de quem matou o Eduardo. Não que devamos deixar de falar, de denunciar, de sentir sua morte. Não é isso que eu estou dizendo. Mas acho que não devemos falar apenas dele.
O que quero é propor uma reflexão sobre a violência que é falar por e sobre alguém. E assim dizer que, se temos que falar sobre alguém, que falemos menos dos Eduardos de Jesus, e mais dos Eduardos Bittencourts, Albuquerques, Neves, Paes, Cunhas, Vieiras, etc. Daqueles que provocam mortes sem sujar suas mãos. Daqueles Eduardos cujos pais e avôs dão nomes às nossas principais ruas, escolas, avenidas e grandes empresas. Dos que moram em outros bairros, que andam em outros carros, que trabalham em escritórios, tribunais, universidades, hospitais, dos que falam na televisão. Dos Eduardos que falam sobre “os outros” como se tudo soubessem sobre “eles”, como se tudo soubessem sobre o lugar dos outros mais que eles próprios. Proponho falarmos mais dos Eduardos que falam do Brasil todo como se ele todo fosse seu lugar. Proponho falar não dos que morrem em becos, mas dos que morrem no hospital Albert Einstein, dos que são enterrados na terra pátria em que nasceram e cresceram, sepultados entre homenagens, granitos e flores.
Lembremos que os pais do Eduardo assassinado no morro do Alemão não quiseram enterrá-lo naquela cidade. Levaram o menino para a cidade de Corrente, no Piauí. Escolheram enterrar o filho num lugar de onde se sentem parte, talvez onde se sintam queridos, acolhidos, importantes. Talvez o lugar de onde partiram, um dia, para tentar uma vida melhor na cidade maravilhosa. Porém, a julgar pelas palavras de Teresinha, mãe de Eduardo, que trabalhava de doméstica no Rio de Janeiro, acho que eles notaram que a maravilha era uma cidade, e que na cidade não cabe “todo mundo”, não pode ser um lugar para todo mundo.

 “Eu quero tirar o meu filho daqui, quero enterrar no Piauí. Vou levar o corpo do meu filho para o Piauí. Vou voltar [ao Rio] porque eu quero justiça e depois eu vou embora para lá. Não quero ficar nesse lugar maldito eu vou sair daqui”, afirmou. (G1- http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/04/mae-de-menino-de-10-anos-morto-no-alemao-diz-que-vai-deixar-o-rio.html)

Não deve ter sido fácil aumentar ainda mais o número de burocracias que a morte de um parente nos impõe, adiar as cerimônias de despedida do filho, tudo isso para que o menino ficasse num lugar que realmente o merecesse, um lugar que fosse digno de sua lembrança. Penso que mesmo do meio de todo esse sofrimento eles nos ensinaram muita coisa, coisas que a gente até já sabe, mas que não se lembra sempre.
Ao nos dizerem que o Rio de Janeiro não serve para eles (essa cidade que se diz a grande representante do país, que quer ser todos os lugares, como se tudo que se vivesse lá fosse o mesmo que se sente e se vive em todos os outros lugares do país), Terezinha e José Maria nos ensinam que não existe Brasil, pátria, nação, existe lugar. E esse é de cada um, de cada gente. Parece que, para eles, aquela cidade não se tornou um lugar, eles não encontraram um lugar naquela cidade.
Não sei se me fiz entender bem, mas o quero dizer é que precisamos falar mais dos Eduardos que falam sobre a Cidade, nos perguntando e perguntando para ele por que ele se acha no direito de falar pela Cidade, como se toda ela fosse seu lugar? Quando a gente sabe muito bem que lugar é uma coisa da gente, é uma coisa de quem conhece, de quem vive lá. E sendo a cidade tão grande, do tamanhão que dizem ser, como é que pode alguém poder falar por toda a cidade? Como pode alguém falar sobre esse tanto de lugar em que nunca viveu? Sobre um tanto de Eduardo que nunca conheceu?
Temos que questionar, por exemplo, que Direito tem o Eduardo “Especialista em Segurança” de definir qual a melhor “política de segurança” para um lugar que ele nunca viveu. Você deixaria alguém que não mora na sua casa, sem te consultar, decidir qual a melhor forma de protegê-la, de proteger a sua família? Penso que isso não é possível. Se ele não sabe do que a sua família sente medo, se não sabe o que você considera uma ameaça, e do que sua família quer se proteger, como ele pode decidir do que você e como você deve proteger? Se esse “especialista” acha que pode ajudar, ele deve começar levando a sério o que as pessoas da sua casa têm a dizer, e tem de oferecer sua ajuda a partir das escolhas que sua família fizer, e não decidir o que sua família deve escolher.
Agora transfira essa reflexão para sua rua, para o seu bairro, para o morro do Alemão, ou para o Aglomerado da Serra. Como uma “política de segurança”, “de moradia”, de “pavimentação”, de “revitalização” pode ser implantada naquele lugar sem que os moradores do lugar sejam ouvidos – e levados a sério? Do que as pessoas do lugar querem se proteger? O que as pessoas do lugar consideram perigoso? O que consideram uma ameaça à convivência naquele lugar? De que forma eles querem se proteger? De que jeito elas querem morar naquele lugar? O que elas querem arrumar, consertar, construir naquele lugar? Com que materiais, com quais pessoas, de que forma as pessoas do lugar querem construir aquele lugar? Tenho a impressão que a família e as pessoas que vivem no lugar onde Eduardo viveu e morreu não tem sido muito ouvidas sobre o que querem para o seu lugar.

terça-feira, 7 de abril de 2015

A CUMBIA PSICODÉLICA PERUANA


A CUMBIA PSICODÉLICA PERUANA

                                                                                                        Por Ric



                                                                                                                                

Trilha sonora do apartamento 201 do bloco 6 da MOP II (residência estudantil da UFMG), “The Roots of Chicha – Psychedelic cumbias from Peru” é um álbum-coletânea, compilado em 2007, destinado a divulgar um estilo de música muito contagiante, surgido na década de 60: a cumbia psicodélica peruana.

Muito mais conhecido nos outros países da nossa América, a Cumbia parece ter surgido na Colômbia, incorporando influencias bastante diversas. 
Especificamente sobre a cumbia psicodélica, uma coisa interessante que notamos - ao reproduzir o álbum em diversos contextos em nossa república aqui na moradia - foi a sensação recorrente de “soar bem aos ouvidos” de nossos visitantes. As pessoas, em geral, percebem ao mesmo tempo a novidade e a semelhança com algo que não conseguem identificar exatamente. Por isso gostaria de divulgar esse álbum como uma sugestão para que possamos expandir nosso repertório musical sulamericano. Por meio da cultura nos tornamos mais outros e menos nós mesmos, e vice-versa. Temos mais semelhanças com nossos hermanos andinos do que estamos acostumados a imaginar. Saludos!


Faixas:

1. Sonido Amazonico - Los Mirlos
2. Linda Nena - Juaneco Y Su Combo
3. Carinito - Los Hijos del sol
4. A Patricia - Los Destellos
5. Sacalo Sacalo - Los Diablos Rojos
6. Ya Se Ha Muerto mi Abuelo - Juaneco Y Su Combo
7. El Milagro Verde - Los Mirlos
8. Para Elisa - Los Destellos
9. Linda Munequita - Los Hijos Del Sol
10. Muchachita del Oriente - Los Mirlos
11. Para Elisa - Los Destellos
12. Vacilando Con Ayahuesca - Juaneco Y Su Combo
13. El Guapo - Los Diablos Rojos
14. Mi Morena Rebelde - Eusebio y Su Banjo
15. Si Me Quieres - Los Hijos Del Sol
16. Me Robaron Mi Runa Mula - Juaneco Y Su Combo
17. La Danza de Los Mirlos - Los Mirlos

terça-feira, 31 de março de 2015

Se somos diferentes em nossas belezas, somos semelhantes em nossas desgraças.

João Paulo

Como bom aprendiz de antropólogo, devo começar este texto com um alerta: estou em Cabo Verde, na África, a menos de um mês e tudo que disser deve ser levado ao tribunal das consciências. Explico o porquê disso: os antropólogos são, geralmente, observadores e a boa Antropologia nos ensina que para observar bem é preciso ter cautela, para que não sejamos levianos com as pessoas ao ponto de querermos saber mais sobre elas do que elas próprias. Mais um ponto que interessa: procurarei simplesmente fazer uma comparação muito grosseira de algumas questões observadas aqui e que acho que também ocorrem no Brasil.

Como sou brasileiro, latino-americano, pardo e filho de mãe solteira, e estou em Cabo Verde, isso me assegura que ao menos estou partindo de algum lugar. Mesmo que fale a partir de um lugar estreito e muito limitado acho que é preciso tentar ouvir o que as pessoas têm a dizer, quando falam sobre uma experiência concreta. Elas dizem algo de mais valor do que as pessoas que falam sobre experiências, lugares e pessoas com quem nunca tiveram ao menos um mínimo de contato, qualquer que seja esse. Já cantava Marcos Vale: “Falar do morro morando de frente pro mar, não vai fazer ninguém melhorar!!

Bem, chega de explicações!!! Estou a quase trinta dias na cidade de Praia, Ilha de Santigo, Capital de Cabo Verde, numa moradia estudantil que abriga cerca de 90 estudantes de idades variadas. A moradia fica perto da Assembleia Nacional, das embaixadas da Rússia, China e próxima da enorme mansão do embaixador brasileiro. As crianças e adolescentes são originários das 9 ilhas habitadas que compõem o país, inclusive da ilha do Fogo, que recentemente foi arrasada pela erupção do Vulcão.

O pessoal daqui adora brasileiro. Adora mesmo. As refeições são servidas no refeitório da moradia. Quem prepara a comida de todos são cozinheiras daqui, pessoas que vivem com bastante dificuldade e que lembram bem os trabalhadores assalariados do Brasil. São contratados de uma empresa brasileira que administra o restaurante popular e que há três meses não paga os salários de seus funcionários. Conversei com algumas dessas pessoas e elas nos contaram que os funcionários que reclamaram foram todos demitidos.

Como vocês sabem, além de fazer planos para conquistar o mundo, eu sou funcionário do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) e vejo todos os dias os trabalhadores da cidade de Belo Horizonte reclamarem sobre os problemas enfrentados nas relações trabalhistas. Importante lembrar que este mesmo órgão fiscaliza o trabalho escravo no Brasil. Sinceramente, chegar aqui e me deparar com um maldito explorador  exportando bandidagem não me surpreende. É que no Brasil, a lei trabalhista está completamente desajustada da realidade. Não sei se algum dia ela o foi, mas o que vemos na prática é que os trabalhadores se encontram hoje, completamente sujeitos à rapinagem de capitalistas sedentos. Duvida? Quer prova empírica, concreta? Fique comigo uma semana no Ministério do Trabalho e você terá as provas que procura. Além disso, trabalhamos numa repartição sucateada, sem recursos e atendendo um volume cada vez maior de descontentes. O descaso com a estrutura do Ministério do Trabalho é o reflexo do descaso de nossos governantes, petistas diga-se de passagem, com a agenda dos trabalhadores brasileiros.

O mercado de trabalho não é o mesmo mercado de quando a CLT foi criada. Os mecanismos de  exploração da força de trabalho ficaram mais eficientes, e a lei continua a mesma que foi criada no governo de Getúlio Vargas... A atuação do Ministério do Trabalho é limitada pelo seu sucateamento, e no âmbito da Justiça do Trabalho a situação não é melhor para o trabalhador. Há um enorme volume de processos, a procura pelo serviço é cada vez maior e a Justiça está sempre a querer que o empregado faça o famoso Acordo, isto é, a tal da Conciliação com o patrão, e não raro o empregado sai perdendo nesses acordos. Qualquer um que entenda o mínino de legislação trabalhista sabe que esses acordos servem somente para desafogar a Justiça e quem sai perdendo, em dinheiro e dignidade, é o trabalhador.  O funcionário começa a não receber, como está ocorrendo aqui com os cabo-verdianos contratados pela empresa brasileira, e quando vão recorrer à Justiça para requerer seu direito, geralmente logo na primeira audiência o patrão, instruído por seu advogado, diz que não tem o dinheiro, que está quebrado, aí o juiz geralmente propõe um acordo e divide a dívida em muitas vezes. O funcionário, que já está a mais de três meses sem receber acaba aceitando, e não raro, acaba ficando sem nada porque é comum que o patrão não respeite nem mesmo este acordo. Converso com muitos trabalhadores que ficam sem o salário, sem o FGTS, sem o pagamento do INSS e sem o dinheiro do tal acordo. Isso é praticamente um processo de acumulação primitiva do capital, e não estou exagerando pessoal, haja vista a quantidade de trabalho escravo que ainda existe no Brasil. Me alonguei um pouco porque este cenário e os assaltos constantes que sofrem a nossa fraca legislação trabalhista, que são alvos constantes de projetos de lei obscuros que procuram flexibilizar algo já tão fragilizado formam o terreno ideal para a ploriferação de “verdadeiros vampiros” que vivem de sugar a energia e o trabalho de pessoas humildes, enquanto mandam seus filhos para serem educados na Europa.

Lembra até um personagem machadiano, não acham? Já leram o conto “Teoria do Medalhão”? Em boa parte de sua obra, Machado de Assis retrata muito bem essa nossa elite parasitária, que nunca trabalhou e que sempre viveu de rendas. Antes haviam os escravos, hoje também. Antes eles os acoitavam com chicotes, hoje eles não pagam seus salários, direito básico e elementar do trabalhador. E é curioso pensar em Machado, porque será que é só um detalhe ele ter sido mulato, epilético, auto-didata e pobre e essa mesma elite de hoje estar tão presente em sua obra? Há os que dizem que Machado não se posicionava politicamente. Esses, ou não o leram, ou não o entenderam.  Se fomos subalternos, ainda o somos em grande medida. Darcy Ribeiro nos diz que é preciso inventar o Brasil que nós queremos. Não sei Darcy, se vamos ter força pra isso. É que nossa Elite é aquela elite tacanha de ontem, que ainda tem muito poder e que não deixa o barco navegar. Querem manter as coisas como estão, ou seja, manter as cabeças sob controle, pois dá bastante lucro.

Quando chegamos aqui em Cabo Verde fomos muito bem recebidos. As pessoas nos reconheceram como brasileiros e nos miravam com um sorriso muito aberto. A todo momento que se descobre que sou brasileiro, ganho um sorriso aberto e uma atitude de extrema benevolência. Roberto Carlos, Calipso, Calcinha Preta, Gabriel Pensador e a Paula Fernandes (ainda bem que ninguém conhece a Sherazade por aqui) são muito populares, e o Ronaldinho Gaúcho também é bastante lembrado.

Praia, a capital do país, ostenta carrões importados que eu nunca tinha visto. São muitos carros importados. A diferença com o Brasil e o choque que a gente toma aqui é que quem dirige esses carrões são os negros. À diferença do Brasil, onde temos raros exemplos de um médico negro, uma professora universitária negra, um empresário negro, um apresentador de televisão negro, uma juíza negra ou um promotor negro, aqui todas as pessoas que são visíveis, se é que me entendem, são negrxs.

Uma coisa curiosa de Praia é que os serviços públicos são sempre pagos. Esta moradia em que estou é paga. O liceu é pago, a universidade é paga, o aborto também. Este último, pelo que ouvi, se tornou legal ainda na década de oitenta como medida de controle de natalidade, e “pegou”, mas se você quiser abortar pode recorrer ao serviço somente até o terceiro mês e precisa desembolsar um valor bastante alto.

Pelo que se ouve por aqui, os filhos dos políticos sempre vão estudar fora do país, e as pessoas estão sempre a denunciar a índole inescrupulosa de seus governantes, tal qual fazemos aí. Neste momento estão asfaltando as principais ruas do bairro onde estou e em muitas destas ruas encontramos o asfalto liso ao lado de vias que sequer possuem passeios. É a cidade para os carros, como aí, no Brasil.

O país precisa importar quase tudo que consume e até agora eu vi pouquíssimas pessoas criticando o consumo. Pelo contrário, muitas pessoas criticam a figura do cabo-verdiano como um povo que gosta bastante de aparecer. De qualquer forma, isso é uma questão interna e acho realmente que não devo me meter. Mas que isso parece com o Brasil, parece.

Ontem ouvi uma história de um cabo-verdiano. Ele me contava que Cabo Verde foi, no passado, um entreposto comercial de escravos. Os portugueses os traziam pra cá para “acultura-los”, palavra dele, antes de vendê-los, no continente americano. Depois que aprendiam o português e deixavam de ser “selvagens”, palavra também dele, estavam prontos enquanto mercadoria.

É preciso que todos consigamos perceber como os mecanismos de exclusão se encontram articulados.. Ainda é muito comum ouvir as pessoas refletindo sobre desigualdade a partir de chaves meritocráticas, sem sequer problematizar essa ideia. Em um video publicado recentemente na internet, sobre uma discussão numa sala de aula na USP, que virou palco de um debate sobre cotas, podemos ver bem a que tipo de comportamento e a que tipo de pessoa estou me referindo.

Ainda são muitos os que argumentam aberta e publicamente que as cotas raciais são um atraso para o Brasil. Essas pessoas, ou ao menos parte delas (e um exemplo é o cara desse vídeo que é contra as cotas) costuma contra-argumetar que estas instauram um processo de racialização da política e provocam uma divisão interna num país em que todos são iguais. Mas será mesmo que somos todos iguais? Muitos são os que acreditam e comungam da falácia da meritocracia, sem considerar que as pessoas estão partindo de lugares distintos. O Brasil está longe de ter reparado sua dívida histórica com xs negrxs. Nesse vídeo, o cara que se diz contra as cotas leva o debate exatamente pra esse ponto, afirmando que “a USP é aberta e que é so estudar que entra”.

Qual é a lógica desse raciocínio? Exatamente a que reforça o preconceito e naturaliza a exclusão dos negros que há séculos vem mantendo um apartheid social que elimina milhares de jovens negros todos os anos no Brasil. Vemos o quão esse raciocício é pequeno e mesquinho porque ele sustenta a tese de que, por exemplo, o concurso de Juíz é aberto a todos, e que só não temos juízes negros simplesmente pelo fato de que a negrada é malandra e não gosta de estudar. - Ah, não tem médico negro? Mas o vestibular é aberto a todos. Então só não entra quem não quer. Eita branquelada estudiosa essa brasileira viu!!!! Santa hipocrisia! Nossa elite e nossa classe média são extremamente Hipócritas.

Sim, as estruturas de exclusão e produção de DEsigualdade se perpetuam e se sofisticam. Se tornam mais emaranhadas no tecido social e se articulam com discursos nacionalistas, machistas, racistas e fascistas. Foram apropriadas pelas elites locais na época dos processos de independência e estão fortes como nunca. Para mim, as diferenças entre um bandeirante e um ruralista são muito poucas, e dizem mais respeito à forma do que propriamente ao conteúdo de suas ações. Enquanto o bandeirante penetrou nas “terras virgens” (e os milhões de indígenas que aqui viviam?), o ruralista avança sobre a amazônia cometendo práticas tão genocidas quanto os primeiros.

Aqui também, portanto, a gente vê isso acontecer. A desigualdade social também é gritante e as mazelas estão muito próximas das nossas. O resultado é bem semelhante. Crime e insegurança em alta, ricos e pobres separados por muros e vidros blindados, salários muito baixos para uma grande parte da população e processos de higienização dos espaços urbanos (exclusão das pessoas consideradas indesejáveis).

A Record é um canal aberto aqui em Cabo Verde e as novelas brasileiras fazem um grande sucesso. No momento os cabo-verdianos se deliciam com Amor à Vida, produzida pelas organizações Globo. Quando vou sair, principalmente à noite, as pessoas fazem muitos alertas. Dizem sempre pra ir de táxi e falam do perigo das ruas.

A onda de medo, que vai sendo inculcada nas pessoas, vai gerando bastante lucro, já que sabemos que a segurança é um grande filão de mercado. Quando se sai na rua, ou mesmo quando discutimos isso com a professora de Sociologia Urbana que está concluindo doutorado na UERJ exatamente sobre esse medo, vemos que a coisa não é o que parece. Ela diz que há uma supervalizaração desse medo e que os números com quais ela está lidando mostram que a violência não tem realmente aumentado como andam dizendo por aqui.

Os números mostram (e eu que não vou caçar esses números) que no Brasil as empresas de segurança privada estão milionárias e com os lucros subindo. Afinal de contas, não dá pra deixar a família desprotegida não é mesmo? E a defesa do patrimônio? Hoje, definitivamente, não podemos ficar desprotegidos! Surpreendente o quanto o Brasil se assemelha nas desgraças com esse país aqui!!!!

Tenho pensado muito no quanto nosso país não olha pra África.  Pensei daqui o quanto desaprendi na escola, por exemplo, muito mais sobre os fortes do que sobre os fracos. E estes, meus caros, estes certamente são os mais interessantes. Como sabemos, todo poder vai sempre encontrar algum tipo de resistência, e a daqui é maravilhosa, como a nossa também o é, mas de forma diferente, pois sabemos ser diferentes em nossa beleza.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Sem avanços e com direito a retrocesso

   Mayara

"A tarefa de uma política democrática não é eliminar as paixões ou relegá-las à esfera privada para possibilitar um consenso racional, mas mobilizar essas paixões e colocá-las em cena segundo dispositivos agonísticos que favorecerão a respeito do pluralismo. Em lugar de representar um perigo para a democracia, o enfrentamento agonístico na verdade é sua própria condição de existência."  Chantal Mouffe.


Depois de um dia exausto de expressão da democracia, os eleitores devem ter se sentido desobrigados politicamente pelo menos até o dia 26 de Outubro, quando ocorrerá o segundo turno de uma eleição bizarra (não que as outras tenham sido menos absurdas, mas é que essa me chocou um pouco mais).

Para esclarecer, nunca saí de casa para votar, não acredito no sistema político da forma que ele opera, e penso política de modo muito mais abrangente do que simplesmente votar. Principalmente porque essa lógica do menos pior me irrita tremendamente, a governamentabilidade e seus reflexos não me asseguram qualquer confiança em escolher alguém, nem mesmo a Luciana Genro.

É fato que o perigo da direita nos ronda temerosamente, e isso também me assusta, mas me faz perceber porque a democracia é um sistema ultrapassado e falho. Aécio não deveria ser opção nem em Cláudio, no entanto ele desponta como grande possibilidade de mudança para o país (nos meus termos, leia-se regressão). Os argumentos pelos quais alguns defendem essa postura me chocam, seja simplesmente por quererem um país sem os petralhas, ou por achar que o PSDB sempre foi melhor opção, o que me horroriza nisso é o completo esvaziamento político dos motivos pelos quais as pessoas escolhem um candidato. Ou se pautam na simpatia, como se política fosse um relacionamento em que você investe naquele que mais tem afinidade, ou tratam a corrida eleitoral como uma corrida de cavalos, e apostam em quem está ganhando. Esquece-se que existem pessoas que são diretamente influenciadas pelas demandas políticas dos candidatos. Que o digam os grupos historicamente subalternizados (índios, negros, mulheres, etc.), sofrendo na pele o reflexo de uma política feita na base da intolerância argumentativa.

Enfim, a reflexão não é suscitada, não se possui um posicionamento crítico quanto a outros possíveis modos de fazer e atuar politicamente, ou pelo menos quanto às propostas dos candidatos em pauta, o que se tem é muita paixão em jogo. Veste-se a camisa de um candidato como se fosse futebol, falta diálogo para mostrar que política se faz com argumentos e discussões. No entanto, continuamos reproduzindo a ideia de que futebol, religião e política não se discute. MENTIRA, esses assuntos devem entrar sim nas agendas de discussão, e não só nas eleições, mas principalmente num cotidiano cheio de motivos para isso. Se fosse assim, perceberíamos realmente de quem é a culpa quando esperamos por horas um busão que passa lotado, quando as áreas de aglomerado urbano se destacam na paisagem, quando gente morre diariamente na fila do SUS, os exemplos podem ser infinitos…

Assim, a constatação do provérbio se fortalece por muita gente achar que uma essência ronda o seu ser, o que não permite que elas mudem de opinião. Afinal, opinião cada um tem a sua e ponto final. É como se não fosse possível trocar experiências, como se numa discussão não fosse plausível considerar os argumentos dos outros como uma forma de repensar e refletir suas próprias ideias. O problema não diz respeito a emitir opinião, prática que se consolidou muito bem na era midiática, haja vista a ferramenta dos comentários disponível em qualquer portal da internet. O que quero apontar é um estranho particularismo ao possuir um determinado ponto de vista sobre um assunto. As pessoas tendem a não querer dialogar sobre assuntos "polêmicos", pois se assustam com a possibilidade de mudarem de ideia, ou de simplesmente terem que repensar suas convicções. Ninguém quer assumir seu potencial racista, homofóbico ou classista, quando uma discussão toma esses rumos as pessoas são incapazes de escutar argumentos que demonstrem como suas atitudes e discursos seguem por essa lógica. Preferem se esconder em posturas ignorantes e não dialógicas ou por trás de frases desoladoras como: "até tenho amigos gays" (podem ser negros também).

Essa apatia política compensada no direito democrático ao voto é a responsável por uma realidade sem expectativa de mudanças reais, pois independentemente de quem ganhar nessas eleições (os bossais do congresso tão aí para consolidar isso), sei exatamente quem perderá. Não desconsidero que com Aécio as coisas serão muito piores, é o que a direita faz de melhor: fuder a vida dos pobres em nome do bem da nação. No entanto, essa situação de confinamento político deveria, no mínimo, ensejar uma discussão política de como as atuais possibilidades de exercer a cidadania são enclausuradoras, sobre como não é mais viável continuar defendendo um sistema político baseado em diretrizes coloniais.

Por outro lado, se alguns defendem que o PT, representado presidencialmente pela Dilma, é a melhor opção, quando não há outra opção, eu prefiro continuar atuando politicamente de outras maneiras. Não suporto a ideia de defender um governo genocida, o pior para as populações indígenas desde a redemocratização, sendo as comunidades e povos tradicionais os mais afetados com os projetos desenvolvimentistas petistas. Sem contar a política de extermínio da juventude negra que se consolida diariamente e a repressão e o estado de sítio criados durante a copa. Ou seja, esse governo insiste em reproduzir os ideais neo-liberiais, e não sou obrigada a compactuar com isso. 

Acredito em micropolítica (atuações pontuais em determinados espaços de convivência e luta coletiva) e empoderamento popular e vou continuar atuando politicamente por essas esferas de poder. Defender o menos pior não é opção pra mim, isso na verdade é derrotismo. Essa macro política que não exprime a realidade local de comunidades que não podem ser vistas sob a lógica de potenciais trabalhadores/consumidores, como os petistas em sua maioria defendem sua guinada política, não me representa. O que quero dizer é que não acho justo apoiar uma pessoa e/ou partido que não contempla minha luta (nem de longe) simplesmente porque o outro lado (e sei disso) é ainda mais obscuro e problemático. É como se colocassem uma arma na minha cabeça e eu tivesse que escolher entre ser estuprada ou morta (a correlação é pesada, mas satisfaz meus sentimentos nesse momento). Vou defender sempre uma terceira via, não me reduzo às imposições desse sistema, e se eles dizem que só existem duas opções, eu digo que lutarei nas ruas, e diariamente tomarei posturas para que nenhum dos dois governe.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Variações sobre o tempo: do o uso que ele faz de nós


João Henrique

Em O tempo, de Salvador Dali, temos uma representação de como o tempo é flácido, líquido, moldável: horas e minutos diluídos no próprio tempo. Os relógios escorregam em meio a uma paisagem sombria, desértica. Até mesmo no meio do nada o tempo se vai. O tempo se vai a todo momento. Tempo para trabalhar, para estudar, para namorar, para casar, para cuidar dos filhos, para escrever, pra isso para aquilo. Tempo pra tudo (ou tempo para nada), mas junto às voltas do tempo esfacela-se o ser. Não somos mais do que trabalhadores do tempo. Nos sujeitamos a ele e ele, por sua vez, nos impõe cada vez mais ação com cada vez menos voltas dos ponteiros.
Nos dias atuais, dos usos que o tempo faz de nós, falta-nos tempo para ser. É inconcebível um momento em que se pare para ser o que se é, pois somos o que fazemos; e fazer se insere na lógica do tempo. Compomos uma engrenagem cujo os trabalhadores e os instrumentos de trabalho somos nós mesmo e a cada feito que se vai na esteira de produção, vai também uma parte de nós. O tempo nos dita o que produzir e o mesmo tempo nos “desproduz”. O não fazer existe para os que não são. É patológico (o tempo nos ensina) o não fazer algo. Como pode você, tão jovem, não trabalhar? Como pode dormir até tarde? Como pode ficar assistindo filme? Não tem algo para fazer? Não tem nada para fazer? Como se o tempo fosse universal e o próprio tempo ditasse o uso que fazemos dele. 
De tudo você me diz: “mas há como resistir a isso”. “Nos divertimos. Saímos para beber como os amigos. Tiramos férias, etc”. Não quero ser pessimista. Há sim como resistir, mas penso que não estamos fazendo do modo correto. Contudo, também não sei dizer qual é o modo correto. Embora eu saiba, ou melhor, eu aposte, na ideia de que a fuga do tempo está nos encontros genuínos consigo mesmo e com o outro. Mas, até isso o tempo nos roubou. Outro dia, nesse tempo, saí com uns amigos e de repente um amigo, não muito interessado no assunto do grupo, vira pra mim e diz: “pega seu celular aí, vamos conversar”. Esse tempo nos tirou os encontros genuínos. “Pega o computador aí, vai trabalhar”. “Pega o livro aí, vai estudar”. “Pega a ferramenta aí, vai fazer”. “Pega, vai, pega”. O que não pode é ficar sem. Você é o que faz! Mas, sobre isso, sobre o que você faz, o que isso tem feito de você? Viciado em trabalho. Pai ausente. Estudante que não se enturma. Funcionário estressado. Mãe que não dá carinho. Que tipo de sujeito tem sido produzido pelo uso que você faz do seu tempo? Que tipo de uso tem permitido que o tempo faça de você?

Das roças que me habitam, lembro-me de quando a tardezinha, todos se assentavam à beira da fogueira (sem celular, sem internet, sem trabalho) para contar histórias e cantarolar. Éramos nós fazendo uso do tempo. Perdemos o bom senso. E a crítica diante da liquidez dos relógios, não fazemos mais. Os nós que nos ligavam não existem mais, cederam lugar às tecnologias, à produção, ao dinheiro... enfim, fizemos do tempo, que se vai em meio ao nada, o nosso próprio tempo. Fundimo-nos aos relógios que se esvaia no deserto. E, não satisfeitos, desejamos mais tempo para gastar do modo como temos feito. Não é tempo que queremos. É preciso entender que há tempo, o suficiente para ser. O que precisamos é usá-lo em nosso favor. Não falta-nos tempo! Se queremos tempo é para lidar com os nossos excessos.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Por uma Virada

Tiago

Neste último fim de semana, como bom belo horizontino estudante da UFMG, eu estive na segunda virada cultural da cidade. Não fui à primeira virada, ocorrida no ano passado, e estava curioso para conhecer o evento, copiado da cidade de São Paulo.
Noite de sábado, centrão cheio, movimentado, o clima estava bom. Gentes de muitos (não de todos) lugares caminhando por aí, a esmo ou na direção de alguma atração previamente selecionada. Ocupada, lotada, ao sabor da cerveja, do vinho ou da catuaba, a cidade desmarcava encontros, inventava desencontros. Estava viva, boa.
A programação da virada era extensa, variada, contava com artes de quase todas as formas. Teatro, música, cinema, exposições, enfim, Cultura – de forma geral, com C maiúsculo mesmo. No âmbito musical, sambistas, roqueiros, amantes da MPB, do rap, e de Tom Zé foram considerados.
            Não fui a muitos lugares. Esperando dar uma olhada no Toquinho, passei com alguns amigos no parque municipal. Decepção. Um dos lugares mais importantes da cidade de Belo Horizonte tinha o tráfego controlado naquela noite, a entrada era possível apenas por duas portarias, e todos os que ali queriam entrar eram submetidos à revista dos seguranças. Lá dentro, nada de vendedores ambulantes, apenas cervejas e comidas autorizadas – assim como as pessoas.
Estive no Rap, debaixo do viaduto Santa Tereza; fui ao show do Tom Zé, na avenida guaicurus; no ótimo Samba da Meia Noite; na Noite Cubana da praça sete; e já de madrugada voltei ao parque, haveria show de “Todos os Caetanos do mundo”. Não conhecia a banda, nem seu público. A banda era boa, porém, nenhuma novidade, os caetanos contemplados eram os mesmos de sempre.
            Caminhando por estes lugares tive a mesma impressão que tenho do carnaval belo-horizontino e de boa parte dos eventos que ocorrem na região central de Belo Horizonte, de que “a Virada” também é majoritariamente branca. Feita (pela e) para a classe média da cidade. Sua programação recebe principalmente atrações “Culturais”.
Admito que minha crítica não é exatamente aprofundada. Como já disse, eu não estive em todos os lugares, não estou por dentro dos melindres que envolvem a produção destes eventos, e por isso mesmo quero registrar que ouvi de uma amiga que a virada deste ano abriu espaços a apresentações de grupos independentes. Para ela, nesse sentido há um notável avanço em relação ao ano passado. O que gostei de ouvir. Entretanto, mesmo não tendo ido ao evento do ano passado, não temo dizer que o movimento foi insuficiente.
            Sua programação segue pautada por uma ideia de alta cultura, o que pode ser visto na escolha dos shows, sem nenhum grupo de Pagode, Axé ou Funk. Assim como nos lugares escolhidos para receber alguns eventos, Palácio das Artes, Praça da Liberdade, Academia Mineira de Letras, Sesc Paladium, Parque Municipal.
Além disso, brinca-se pouco com a cidade. Penso que um evento desse porte é uma ótima oportunidade para diminuir distâncias, desconstruir estereótipos, arriscar outros usos de seus espaços e equipamentos. Por que não retirar os carros do grande centro, alocar atrações também em áreas da cidade consideradas distantes, valorizando seus moradores e promovendo a circulação, a possibilidades de novas experiências, novos encontros. Metrô e ônibus gratuitos poderiam promover o acesso à uma virada (verdadeiramente) cultural e (efetivamente) Da Cidade.
Outra possibilidade seria aproveitar eventos que já ocorrem normalmente na cidade e integra-lo ao circuito da virada, como o Baile Funk das quadras da Vilarinho, que poderia ter uma edição gratuita no fim de semana da virada. Ônibus gratuitos partiriam de vários lugares, atendendo os que estivessem dispostos a conhecê-lo. De outro modo, por que não colocar ônibus gratuitos no sentido contrário, promovendo o acesso ao circuito cultural da praça da liberdade (outra cultura com C maiúsculo), partindo sobretudo dos lugares mais distantes.

            Acho a virada uma excelente ideia. Torço para que seja valorizada e que continue a existir. Afinal, para uma cidade que há pouco tempo lutava pelo direito de usar a praça da estação, um evento como este é fantástico. Contudo, para uma Virada efetivamente Da Cidade, muito mais gente ainda precisa ser convidada pra essa festa.