- Êpa, essa viagem foi muito rápida! - Tô com muito calor! Essa roupa laranja é um inferno. - C viu? Quase morreu. Foi um grande estouro. - Os portões da escolha foi aberto. Saiu um monte de gente de uma vez. Encavalou. - Frita pastel e coxinha Rute. - Vô leva esse pilantra no pau! Zé subiu no andaime. Maria chegou na casa de Andreia para cuidar do Pedrinho. Raimundo acabou desistindo de faltar ao trabalho. Laura faltou e comprou um atestado na praça 7. Ninguém aqui é vítima. Ninguém aqui sou eu.

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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Macumbeiro, eu?

Charles

Uai professor, você também é macumbeiro?

            Fico cada vez mais espantado com as consequências que a falta de conhecimento pode causar. Mas quando se trata de “religiões” afrodescendentes no Brasil, isso toma uma proporção inacreditável. O último evento de intolerância religiosa que tomou grande proporção na mídia nacional aconteceu no dia 16/06/2015, no Rio de Janeiro, contra uma menina de apenas 11 anos, ela foi ferida por uma pedra na cabeça ao deixar um culto de candomblé na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Segundo testemunhas, a menina foi atacada por evangélicos e foi vítima de intolerância religiosa. Com a pedrada, a jovem chegou a desmaiar e perder momentaneamente a memória. Os autores da pedrada, que seriam dois homens, conseguiram fugir. Pouco antes da agressão, eles teriam xingado e provocado os adeptos do Candomblé que estavam com a menina.
            Não quero discutir aqui o preconceito religioso por si só, que apesar de ser estúpido é muito comum em nossa sociedade. Para discutir preconceito religioso no Brasil, e ser justo, penso que eu deveria citar exemplos dos preconceitos que sofrem todos os seguimentos religiosos no Brasil. Não é esse o meu objetivo.
            Quero falar de algo que percebo em minha prática religiosa. Após me tornar adepto do candomblé, percebi que ser candomblecista no Brasil não é tarefa fácil. Não temos a liberdade de falar sobre esse assunto abertamente com todas as pessoas, pois muitos têm receio. Tudo que envolve a religião dos negros tem que ser “disfarçado” ou “escondido” Os trajes necessários, os “colares” de proteção, os cantos/rezas, etc. Percebo que o que faz parte das religiões afrodescendentes é estigmatizado, parece carregar uma mácula, ou que possui ligação com o nefasto.
            A maioria das pessoas possui opinião formada sobre o Candomblé ou a Umbanda, sobre o que ouviram dizer, ou sobre o que leram. A maioria dessas opiniões é negativa, tem associação com alguma coisa ligada ao mal, “coisa” esta que as pessoas também não sabem explicar.
         A conclusão é óbvia, a população brasileira, em sua grande maioria, não conhece o Candomblé, não sabe bem ao certo sobre seus significados, sua origem, como chegou ao Brasil, de onde veio, etc. Muito em parte pela preponderância do cristianismo, base de religiões monoteístas, arraigado em nossa cultura desde a colonização, mas também pela mídia, que não traz esse assunto a tona. A escola também possui um papel fundamental para reforçar esse desconhecimento, uma vez que ignora essa temática, que faz parte da nossa cultura e da formação social desse país. Para tanto, foi necessária a criação de uma lei: a Lei 11.645/08 determina que nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. Esse desconhecimento gera o preconceito, a exclusão e a intolerância.
            Um dos fatos que evidencia a falta de conhecimento sobre as religiões afro em nossa sociedade, e que incomoda seus adeptos, é a forma generalizada de se dirigir aos praticantes destas religiões: Macumbeiros.
            Comumente, a primeira definição de Macumba que se encontra nos dicionários é: antigo instrumento musical de percussão, espécie de reco-reco, de origem africana, e Macumbeiro é o tocador desse instrumento. Popularmente, a palavra macumba é utilizada para designar genericamente os cultos sincréticos afro-brasileiros derivados de práticas religiosas e divindades dos povos africanos trazidos ao Brasil como escravos, os povos bantos e os iorubanos, como o Candomblé e a Umbanda. Entretanto, ainda que macumba seja confundida com o Candomblé e a Umbanda, os praticantes e seguidores dessas religiões recusam o uso da palavra para designá-las.
            A forma como a palavra macumba é utilizada, remete a uma generalização esdrúxula dos cultos afros, o que se concretiza em um verdadeiro absurdo, posto que existem variações diversas entre estes cultos. Para os praticantes desses cultos, isso é um grande desrespeito. Confundir o Candomblé com a Umbanda, por exemplo, é um erro grave devido à origem e as práticas de cada segmento. O próprio Candomblé não é uma religião única, ela possui significativas variações.
            Para que haja uma boa compreensão sobre o Candomblé precisamos nos remeter aos motivos e origens da transição forçada dos negros africanos para a América. A razão da vinda dos negros para o território brasileiro é sabida, mas para se ter uma noção correta do estabelecimento e das características das religiões afro no Brasil é muito importante entender de onde vieram esses negros, pois o continente africano é enorme e diverso e sua cultura varia de região para região.
            O tráfico negreiro provocou um dos maiores deslocamentos populacionais da história da humanidade. Esse deslocamento ficou conhecido como diáspora africana. Uma pesquisa recente coordenada pelo professor David Eltis, da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, mostra que, entre os séculos XVI e XIX, mais de 12,5 milhões de africanos foram escravizados e exportados para a América, para a Europa e algumas ilhas do oceano Atlântico. Desses, apenas cerca de 10,7 milhões chegaram vivos ao fim da travessia.
            Tudo começou no século XV, quando os portugueses abriram o caminho para a exploração da costa da África subsaariana, depois de cruzarem o Cabo Bojador, em 1434. Ao longo dos anos seguintes, os navegadores lusitanos avançaram cada vez mais rumo ao sul, até atingirem, na década de 1470, a baía de Biafra, na região dos atuais Nigéria e Camarões. Com o estabelecimento do rendoso tráfico de pessoas escravizadas, o principal polo de exportação de mão-de-obra escrava era a África Ocidental, região que englobava todo o território compreendido entre os atuais Senegal e Camarões. Essa área era responsável por quase 60% das exportações e, nela, a região da Senegâmbia representava a principal fonte de venda de africanos cativos. Ao mesmo tempo, a região congo-angolana despontava como o segundo grande celeiro de escravos no continente. 
            A maior parte dos escravos africanos que desembarcaram no Brasil veio da região ocidental da África. Essa região foi o berço das religiões afrodescendentes que hoje encontramos no Brasil. Devido à diáspora desses povos para várias regiões do continente americano, sua cultura se tornou parte dos países onde foram escravizados, transformando e formando a sociedade de países como o Haiti, Cuba e Brasil.
            Muitos acham que a estrutura do candomblé brasileiro é igual ao que existiu na África. Que os ritos, a forma de organização são exatamente iguais as que os africanos praticavam em seu território de origem. Isso é um grande erro. Obviamente os fundamentos religiosos são preservados, como a língua dos iorubas. Mas muito se adaptou a realidade brasileira. Os africanos que foram trazidos forçadamente para o Brasil, vieram de vários reinos, muitas vezes inimigos entre si. Cada um desses reinos possuíam características religiosas diferentes, posto que, segundo a crença do povo ioruba cada divindade governava um reino. Logo todos os que moravam em determinada comunidade eram vinculados àquela divindade.
            Os deuses dos escravos que vieram para o Brasil são os Orixás. Apenas  alguns deles são cultuados no nosso país: Essú, Ògun, Osossì, Osanyin, Obalúaye, Òsúmàré, Nàná Buruku, Sàngó, Oya, Oba, Ewa, Osun, Yemanjá, Logun Ede, Oságuian e Osàlufan. A palavra Candomblé possui dois significados: Candomblé seria uma modificação fonética de “Candonbé”, um tipo de atabaque usado pelos negros de Angola; ou ainda, viria de “Candonbidé”, que quer dizer “ato de louvar, pedir por alguém ou por alguma coisa”. A palavra Candomblé define, no Brasil, o que chamamos de culto afro-brasileiro, ou seja: “Uma Cultura Africana em Solo Brasileiro”. No Brasil o Candomblé possui significativas diferenças devido à região de origem dos escravos que aqui chegaram. Por esse motivo a palavra Candomblé também é usada para definir o modelo de cada tribo ou região africana, conforme alguns exemplos seguir:


            Os grupos que falavam a língua ioruba - entre eles os de Oyó, Abeokutá, Ijexá, Ebá e Benin - constituíram uma forma de culto denominada de Candomblé da Nação Ketu. Ketu era uma cidade igual as demais, mas no Brasil passou a designar o culto de Candomblé da Nação Ketu ou Alaketu.
            A palavra “Nação” entra aí não para definir uma nação política, pois Nação Jeje não existia em termos políticos. O que é chamado de Nação Jeje é o Candomblé formado pelos povos vindos da região do Dahomé e formado pelos povos Mahin.
            Os Candomblés da Nação Angola e Congo foram desenvolvidos no Brasil com a chegada desses africanos vindos de Angola e Congo.
            O Candomblé na África é predominantemente patriarcal. No Brasil esta religião tornou-se matriarcal, com várias mães de santo na frente do conhecimento. Foi através do pulso forte destas mães que se constituiu o Candomblé brasileiro, preservando tradições africanas. A história mostra que nas primeiras casas de candomblé no Brasil, homens eram proibidos de entrar no xiré (roda de dança para os orixás).
            Ao fundarem as primeiras casas de candomblé na cidade da Bahia, os negros descendentes dos iorubanos, além de cultuarem a sua divindade, acolheram negros de outros reinos, permitindo a esses que cultuassem a sua divindade, ou seja, a divindade do seu reino naquela casa. Uma das grandes riquezas culturais que se configurou no Candomblé brasileiro é exatamente essa “mistura”, onde várias divindades, de diferentes reinos são cultuadas em um mesmo lugar, na mesma casa, formando a família de santo. Uma casa de candomblé é na verdade uma forma de reconstrução da África no Brasil, onde cada reino é cultuado, através de seus deuses. Esse princípio de acolhimento era muito comum entre os negros escravos. Eles sabiam a importância de se ajudarem, unirem-se para remediar a situação penosa da escravidão. A religião se tornou a forma mais forte de manter viva sua cultura, sua visão de mundo, seus cantos, e assim conseguiram amenizar os infortúnios de sua nova condição humana.
            Nesse pequeno recorte já se pode perceber a diversidade do candomblé no Brasil, devido à variedade de negros que aqui chegaram de inúmeras regiões, com costumes diferentes, crenças diversas, etc. Em território brasileiro, estes povos souberam se adaptar sem perder suas características. Mesmo com a imposição do catolicismo. Na época da escravidão no Brasil, os escravos africanos criaram uma maneira criativa e inteligente de enganar os seus senhores. Invocavam os seus deuses africanos sob a forma dos santos católicos: Oxóssi na forma de São Sebastião, Ogum como São Jorge, Oxalá como Jesus Cristo, Ibejis como Cosme e Damião, Iansã como Santa Bárbara, os fios de contas como Nossa Senhora do Rosário, entre outros.
            A grande preciosidade desse encontro de culturas é a permanência das tradições africanas como aqui chegaram. Em uma casa de candomblé os rituais são levados a sério. Candomblé é coisa séria, a tradição deve se mantida com rigorosidade. A língua falada ainda é o Ioruba nas casas de Ketu. Nas casas do candomblé de Angola, existe uma forte tentativa de resgatar a língua dos povos bantos que em parte se perderam. A oralidade é fundamental para se manter e repassar os ritos para as novas gerações. Existem estudiosos de antigos reinos na África que vêm ao Brasil para verificarem como se realizavam determinados rituais e costumes que se perderam na comunidade de origem.
            Devido a essas inúmeras diversificações, torna-se essencial o conhecimento das religiões afrodescendentes para que haja o respeito e a tolerância. Desvincular a imagem do candomblé e da Umbanda de uma perspectiva negativa é fundamental para que floresça o respeito, não só religioso, mas antes de qualquer coisa, cultural. Eu acredito que não haja melhor instituição do que a escola para se estruturar esse conhecimento em nosso meio social. A intolerância religiosa permanece e cresce no nosso país, destaco aqui especialmente o preconceito às religiões de matriz africana. Encontramos em nossos livros didáticos a história da Igreja Católica, a Reforma Protestante, os nefastos tribunais de inquisição, mas quase nada acerca das religiões afrodescendentes. É necessário discutir na escola a deliberada intensão da Igreja Católica de eliminar a crenças dos africanos que foram escravizados no Brasil, e não só destes, mas dos judeus, que foram perseguidos no período colonial em que houve inquisição em nosso país, e ainda o massacre contra os modos de vida dos índios . E aprofundar essa discussão, promovendo um conhecimento verdadeiro e consolidado. As pessoas precisam saber a bela história de criação do mundo contada pelo Candomblé. Necessitam perceber que Lúcifer pertence à crença cristã e que este ser não possui a menor ligação com nossa religião. Que a origem da associação do Orixá Exu com o “diabo” tem origem nos cristãos, que entenderam que a forma de culto dos africanos tem associação com o mal exatamente para desqualificá-la, para violentar seu praticantes. A escola precisa se fazer presente para difundir esse conhecimento, reduzindo o preconceito por meio do acesso aos saberes acerca das religiões afrodescendentes.
               A sociedade brasileira é diversa, miscigenada, e o negro que aqui se estabeleceu contribuiu para a formação social em vários aspectos. Negar isso, ou excluir esse fato é negar a nossa formação original, nos transformando em copiadores/repetidores contumazes de uma cultura imposta pelos colonizadores europeus, negando nossas raízes e nossa identidade.

terça-feira, 28 de abril de 2015

DESENHANDO OS FEMINISMOS

Mayara Mattos



Vou aproveitar o gancho do texto da Carol (http://blogterceiroopiniao.blogspot.com.br/2015/04/oamor-tem-cor-1-muitas-mulheres-negras.html) para continuar falando com as mulheres. Nas últimas semanas as notícias mais lidas e que entraram nos círculos de debates (principalmente via facebook) foram casos que envolviam violências de gênero[1].

No dia internacional da mulher (detalhe: tinha acabado de voltar do DiversaS: Feminismo, Arte e Resistência, evento de muita sororidade e força, organizado por mulheres maravilhosas), entrei numa discussãoem que um homem cis* hetero branco e de classe média alta defendia em uma postagem no Facebook que não há necessidade das mulheres se vitimizarem para alcançar seus objetivos. O post é de uma mulher branca segurando um cartaz em que ela se posiciona contra o feminismo[2]. Descobri depois que existem alguns canais de mulheres que se dizem contra o movimento e ridicularizam mulheres emancipadoras[3]. Isso não me assustou muito, pois compartilho das proposições de Paulo Freire que defendem que enquanto a educação não for realmente libertária, a tendência do oprimido é uma dia querer se tornar o opressor. Além de que, sugiro que essa resistência que algumas mulheres possuem em relação aos movimentos feministas talvez aconteça devido ao alinhamento de muitas de nós a posições delimitadamente de esquerda, o que contraria aquelas em suas posturas neo-liberais, em que a preocupação maior gira em torno de uma maior inserção da mulher no mercado de trabalho, ou seja, a uma emancipação quase exclusivamente econômica. 

Decidi escrever esse texto no intuito de esclarecer porque os feminismos (sim, no plural, pois não existe uma pauta com uma direção para o movimento e a luta é interseccional), são fundamentais nas desconstruções de processos naturalizados, como o que a Carol explicita no texto da semana passada, além de serem preponderantes na luta que visa o empoderamento feminino e contra o "cistema" sexista. Talvez, com esse tipo de reflexão fique mais fácil entender essas questões que são tão caras as feministas e muitas vezes ridicularizadas não só pelos machos alfa como também por mulheres que dizem não compartilhar da luta.

A postagem em questão não é um caso isolado, comentários que direcionam os movimentos feministas para a lógica da vitimização são constantes (passei por uma situação, poucos dias antes, envolvendo uma agressão a uma mulher que também foi desclassificada por um homem cis, afirmando não ter ocorrido machismo no caso em questão), isso ocorre até mesmo entre os revolucionários de esquerda[4] e com muito mais frequência do que se imagina. Cansei de ouvir todos os tipos de chacotas e insultos ao me posicionar como feminista, seja no sentido de desmerecer o movimento ou como simples alegoria de uma mulher que quer estar na posição de um homem, inclusive acionando o termo feminazi, que pretende alinhar às feministas a posições de intolerâncias quanto aos homens (Desculpem por não querer me submeter e ser benevolente com seu machismo, ops… nenhuma desculpa). Muitos desses comentários esboçavam um completo desconhecimento a respeito dos movimentos feministas e das diversas pautas em proposição. Assuntos de "mulheres" tendem, realmente, a serem invisibilizados, os espaços de discussão são minimizados e relegados a futilidades, e é assim que muita gente generaliza o feminismo. Os machismos diários estão nos detalhes[5].

Quando digo que a luta é interseccional, penso exatamente nas categorias que se cruzam, desenvolvendo uma postura mais voltada a questões de gênero, classe ou raça, a depender da trajetória que cada sujeitx foi traçando. É muita inocência achar que pelo fato de alguns setores da esquerda defenderem a dissolução de todos sistemas de privilégios, esses discursos serão completamente absorvidos por todas as pessoas de modo semelhante. Somente uma mulher (cis ou trans) sabe as dores que o machismo e a misoginia imputam diariamente, quem sofre as mais variadas formas de violências, nesses processos, são corpos femininos. E se levarmos em consideração o intercruzamento das categorias identitárias, os corpos de mulheres negras/indígenas e pobres estão muito mais vulneráveis aos interpostos do patriarcado. 

É por isso que me irrita profundamente o fato de homens se sentirem no direito de afirmar se uma mulher sofreu ou não machismo, e pensando por essas identidades múltiplas, o que faz um homem ou uma mulher branca achar que ele/ela sabe exatamente o que uma mulher negra e/ou pobre quer e/ou precisa ou como ela deveria viver? Pra quem nunca sofreu racismo, machismo, homofobia (lembrando que isso pode acontecer tudo junto) nem qualquer outro tipo de segregação/opressão, nunca vai saber o que é estar na posição do oprimido, mesmo quem adere aos movimentos e se dizem progressistas ainda não podem se colocar nesse lugar, a fala do negro/da mulher/e qualquer grupo em situação de desigualdade deve ser sempre respeitada. Homens brancos tendem a querer pautar qualquer discussão como se fossem sempre especialistas, pois acostumaram a serem legitimados e autorizados em se posicionar com muita facilidade no lugar dos "outros".

Iniciei esse texto expondo os recentes casos de violência de gênero, as quais poderíamos incluir (infelizmente) uma longa lista, inclusive o caso hediondo de agressão sofrida por Verônica Bolina[6], trans torturada e exposta a grande humilhação por agentes estatais. Fatos menos chocantes, mas não menos violentos, como o caso de um professor de direito da PUC[7] que afirmou em sala de aula que "leis e mulheres foram feitas pra serem violadas" também demonstram a enorme defasagem que a falta de discussão em termos colocados pelos feminismos pode causar.

Machismo, lesbofobia, transfobia, sexismo… tudo isso mata. Feminismo empodera mulheres, constrói relações mais horizontais, discute e tenta proporcionar uma dinâmica de vida que contemple as especificidades femininas, respeitando a diversidade e desconstruindo normatizações que só servem aos interesses do Estado patriarcal. Por isso, convido quem não conhece ou não leu o suficiente a respeito, que se informe a partir dos textos sugeridos (ou por meio de outros também) e se abram para espaços mais inclusivos de discussão e autonomia. Que aprendam a dividir privilégios, não monopolizando suas categorias apenas para interesses que o satisfaçam, que se juntem às mulheres, não para falar sobre elas, mas para construir com elas, respeitando seus lugares de falas e atentando a possíveis opressões que podem ocorrer nas diferentes relações cotidianas.

Assim, "seguiremos em luta até que todas sejamos livres!"  


* O alinhamento cis envolve um sentimento interno de congruência entre seu corpo(morfologia) e seu gênero, dentro de uma lógica onde o conjunto de performances é percebido como coerente. Em suma, é a pessoa que foi designada “homem” ou “mulher”, se sente bem com isso e é percebida e tratada socialmente (medicamente, juridicamente, politicamente) como tal.





terça-feira, 24 de junho de 2014

Se o cabelo é meu, deixa eu cachear, deixa eu...

Caroline Louise



Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida...”Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo

O modo de me relacionar com as pessoas e comigo mesma sempre esteve de alguma maneira ligado à forma como eu enxergava e desejava que o meu cabelo fosse. Alisei o cabelo pela primeira vez aos 7 anos e minha mãe conta que fiquei tão feliz que até disse que aquele era o dia mais feliz da minha vida, desde então nunca mais parei de alisá-lo e sempre queria que ficasse o mais liso possível. Curiosamente foi também mais ou menos nessa época que no jardim de infância disse a uma coleguinha que ela não poderia brincar comigo porque ela era preta. Lembro exatamente da carinha dela e das trancinhas que ela usava no cabelo crespo. O ocorrido não foi uma inocente maldade infantil, eu provavelmente estava reproduzindo algo que havia vivenciado em outro lugar, e ali na escola talvez tenha me sentido superior a ela por ser “mais clarinha” e não ter o cabelo tão crespo. E mais do que isso, não havia identificação, não conseguia ver naquela menina negra do cabelo crespo alguém igual a mim; eu me via diferente e melhor do que ela.

Passei mais de 20 anos acreditando que minha vida seria mais fácil se meu cabelo fosse liso, sempre imaginei que a vida poderia ser diferente por causa disso, eu seria mais feliz, mais amada, mais desejada, seria bonita, e principalmente, seria livre! A verdade é que nunca me enxerguei como negra, não era uma negação consciente e explícita, era muito mais perverso do que isso, porque eu não fazia parte do “padrão” hegemônico e também não aceitava minha verdadeira condição, e vivia nessa fronteira, nesse lugar nenhum que só me trouxe esvaziamento e angústia.

Desde 2012 que venho desejando diminuir o uso da química, mas não levava a idéia a diante e tinha também a minha formatura no curso de Direito, e, claro, meu cabelo deveria estar o mais comprido e liso possível para a data. Me formei, e no stress de recém-formada tinha receio de que o cabelo natural pudesse ser uma dificuldade a mais no exercício da profissão, e com isso ia construído vários argumentos que me impediam de iniciar a famosa transição capilar.

Ao completar 26 anos iniciei um processo de (des)construção, me vi quase que obrigada a condição de encarar a mim mesma e minha identidade seja ela qual fosse. Muito se fala da crise dos 30 anos, mas a minha começou mesmo foi aos 26. E como qualquer crise, essa não se deu da noite pro dia, foi construída e recalcada durante longos anos nos quais por falta de coragem, eu nunca ousei encarar e assumir as conseqüências do que eu poderia me tornar ao experimentar ser o que realmente sou. Era chegado o tempo de travessia, movimento necessário para que não acomodasse à margem de mim mesma.

Só agora, aos 26 anos, me dei conta de que sou negra e da responsabilidade política que isso me traz. Cheguei a um ponto em que a vida havia tomado um rumo que não era meu, nada fazia sentido e não sabia o que fazer. Eu precisava mudar, e para que isso ocorresse de modo profundo deveria se dar naquilo que me era mais caro e que mais me incomodava: meu cabelo.

Não cortei o cabelo inicialmente, mas passei a usá-lo cacheado, o que era difícil não somente pelo processo mas porque depois de tanta química o cabelo já não sabia a sua constituição natural, e também porque não estava acostumada a sair de casa daquele jeito. Antes de sair ficava me olhando no espelho e tentando me convencer de que eu estava bonita. Foram uns três meses saindo de casa me achando horrorosa, todos os olhares em minha direção me fazia pensar que eram olhares de reprovação e a minha vontade era voltar pra casa correndo ou me fazer de invisível ali mesmo no meio da rua. Mas mesmo com esses sentimentos eu estava disposta a ir até o final na minha decisão, aquilo era não só necessário na reconstrução da minha identidade e auto-estima como também uma necessidade política.

No dia em que resolvi cortar de vez a parte lisa do cabelo e deixá-lo todo natural acho que foi o meu maior ato de coragem na vida, estava dando adeus ao cabelo alisado e me entregando ao desconhecido. Um desconhecido que me era assustador, não queria usar o cabelo black e nunca havia usado o cabelo tão curto, mas era necessário passar por isso. Nesse dia, cheguei em casa e fiquei horas me olhando no espelho e tentando entender quem era aquela pessoa ali refletida. Havia em mim uma sensação nunca antes experimentada, era eu mas não era eu, era como se pela primeira vez eu me visse verdadeiramente, sem projeções e sem o desejo de ser diferente, queria apenas ser aquilo que eu era e me aceitar assim.

Desde então tem sido um esforço diário de aceitação e de descoberta. Apesar dos elogios, ainda me sinto insegura em relação à minha imagem, mas não é uma insegurança com desejo de mudança, é uma insegurança de quem está aprendendo algo novo e precisa de um tempo para assimilar as coisas. Ainda tenho momentos em que me acho horrorosa, mas duram cada vez menos, assim como cada dia mais me importo menos com os olhares na rua. Acho bacana quando meninas me param para perguntar sobre o meu cabelo e de como fiz a transição, sinto que meu objetivo político está fazendo efeito.

A vida ainda não tomou o rumo que eu quero, não me sinto tão dona de mim o quanto gostaria, mas (a vida) ficou mais leve quando passei a buscar por um “eu” que estava perdido e sufocado pelo medo e por padrões que nós são impostos socialmente. “O que a vida quer da gente é coragem”, e isso me soa como um mantra desde que decidi mudar o meu cabelo e a mim mesma. É um caminho sem volta, não sei se continuarei caminhando por ele, mas sei que não voltarei a ser o que era antes.

Se o caminho é meu, deixa eu caminhar, deixa eu

Se o cabelo é meu, deixa eu cachear.



Caroline Louise 
e-mail: carolinelouise3@gmail.com