- Êpa, essa viagem foi muito rápida! - Tô com muito calor! Essa roupa laranja é um inferno. - C viu? Quase morreu. Foi um grande estouro. - Os portões da escolha foi aberto. Saiu um monte de gente de uma vez. Encavalou. - Frita pastel e coxinha Rute. - Vô leva esse pilantra no pau! Zé subiu no andaime. Maria chegou na casa de Andreia para cuidar do Pedrinho. Raimundo acabou desistindo de faltar ao trabalho. Laura faltou e comprou um atestado na praça 7. Ninguém aqui é vítima. Ninguém aqui sou eu.

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terça-feira, 14 de abril de 2015

Sobre outros Eduardos ou Pelo poder da gente do lugar

Tiago

Hoje eu gostaria de usar esse espaço para falar do Eduardo, o menino de 10 anos que foi assassinado no Rio de Janeiro há alguns dias. Digo gostaria por que na verdade eu acho que não devo. Por isso vou tentar não falar exatamente dele, ou por ele. Ultimamente tenho tido muita dificuldade para falar dos outros, sobre os outros e, principalmente, sobre estes outros, sobre estes Eduardos. Quem sou eu para falar do Eduardo, da dor que sente sua mãe, sua família? Da dor que sente seus amigos que, aliás, continuam vivendo no mesmo lugar, só que agora sem o Eduardo, que partiu junto com toda família para outro lugar.
Quando penso nisso, penso que talvez aquele lugar já não seja mais o mesmo, e que por isso já não seja mais tão lugar assim, principalmente para aqueles que conheceram o Eduardo. Penso que talvez aquele lugar tenha mudado, e que agora seja outro. Mas disso, só pode dizer quem vive por lá. Só quem continua passando por aquele beco sabe e sente como aquele lugar foi e como ele é agora, depois que o Eduardo partiu. Ele deve fazer uma falta que eu daqui só posso imaginar, afinal, eu não conheci o Eduardo, e nem moro no lugar.
Nas últimas conversas com meus bons amigos, temos falado que nesse momento talvez o melhor não seja falar do Eduardo, desse Eduardo. Menos ainda falar por ele, pela mãe, pelos amigos ou pela gente dele. Temos pensado que talvez (nesse momento) não seja esse o “nosso” papel. (“Nós”: essa gente que fala, escreve e tenta explicar as coisas no jornal, nos livros, na universidade, ou no Terceiro, por exemplo). Nesse momento, entendo que mais importante é falar de quem matou o Eduardo. Não que devamos deixar de falar, de denunciar, de sentir sua morte. Não é isso que eu estou dizendo. Mas acho que não devemos falar apenas dele.
O que quero é propor uma reflexão sobre a violência que é falar por e sobre alguém. E assim dizer que, se temos que falar sobre alguém, que falemos menos dos Eduardos de Jesus, e mais dos Eduardos Bittencourts, Albuquerques, Neves, Paes, Cunhas, Vieiras, etc. Daqueles que provocam mortes sem sujar suas mãos. Daqueles Eduardos cujos pais e avôs dão nomes às nossas principais ruas, escolas, avenidas e grandes empresas. Dos que moram em outros bairros, que andam em outros carros, que trabalham em escritórios, tribunais, universidades, hospitais, dos que falam na televisão. Dos Eduardos que falam sobre “os outros” como se tudo soubessem sobre “eles”, como se tudo soubessem sobre o lugar dos outros mais que eles próprios. Proponho falarmos mais dos Eduardos que falam do Brasil todo como se ele todo fosse seu lugar. Proponho falar não dos que morrem em becos, mas dos que morrem no hospital Albert Einstein, dos que são enterrados na terra pátria em que nasceram e cresceram, sepultados entre homenagens, granitos e flores.
Lembremos que os pais do Eduardo assassinado no morro do Alemão não quiseram enterrá-lo naquela cidade. Levaram o menino para a cidade de Corrente, no Piauí. Escolheram enterrar o filho num lugar de onde se sentem parte, talvez onde se sintam queridos, acolhidos, importantes. Talvez o lugar de onde partiram, um dia, para tentar uma vida melhor na cidade maravilhosa. Porém, a julgar pelas palavras de Teresinha, mãe de Eduardo, que trabalhava de doméstica no Rio de Janeiro, acho que eles notaram que a maravilha era uma cidade, e que na cidade não cabe “todo mundo”, não pode ser um lugar para todo mundo.

 “Eu quero tirar o meu filho daqui, quero enterrar no Piauí. Vou levar o corpo do meu filho para o Piauí. Vou voltar [ao Rio] porque eu quero justiça e depois eu vou embora para lá. Não quero ficar nesse lugar maldito eu vou sair daqui”, afirmou. (G1- http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/04/mae-de-menino-de-10-anos-morto-no-alemao-diz-que-vai-deixar-o-rio.html)

Não deve ter sido fácil aumentar ainda mais o número de burocracias que a morte de um parente nos impõe, adiar as cerimônias de despedida do filho, tudo isso para que o menino ficasse num lugar que realmente o merecesse, um lugar que fosse digno de sua lembrança. Penso que mesmo do meio de todo esse sofrimento eles nos ensinaram muita coisa, coisas que a gente até já sabe, mas que não se lembra sempre.
Ao nos dizerem que o Rio de Janeiro não serve para eles (essa cidade que se diz a grande representante do país, que quer ser todos os lugares, como se tudo que se vivesse lá fosse o mesmo que se sente e se vive em todos os outros lugares do país), Terezinha e José Maria nos ensinam que não existe Brasil, pátria, nação, existe lugar. E esse é de cada um, de cada gente. Parece que, para eles, aquela cidade não se tornou um lugar, eles não encontraram um lugar naquela cidade.
Não sei se me fiz entender bem, mas o quero dizer é que precisamos falar mais dos Eduardos que falam sobre a Cidade, nos perguntando e perguntando para ele por que ele se acha no direito de falar pela Cidade, como se toda ela fosse seu lugar? Quando a gente sabe muito bem que lugar é uma coisa da gente, é uma coisa de quem conhece, de quem vive lá. E sendo a cidade tão grande, do tamanhão que dizem ser, como é que pode alguém poder falar por toda a cidade? Como pode alguém falar sobre esse tanto de lugar em que nunca viveu? Sobre um tanto de Eduardo que nunca conheceu?
Temos que questionar, por exemplo, que Direito tem o Eduardo “Especialista em Segurança” de definir qual a melhor “política de segurança” para um lugar que ele nunca viveu. Você deixaria alguém que não mora na sua casa, sem te consultar, decidir qual a melhor forma de protegê-la, de proteger a sua família? Penso que isso não é possível. Se ele não sabe do que a sua família sente medo, se não sabe o que você considera uma ameaça, e do que sua família quer se proteger, como ele pode decidir do que você e como você deve proteger? Se esse “especialista” acha que pode ajudar, ele deve começar levando a sério o que as pessoas da sua casa têm a dizer, e tem de oferecer sua ajuda a partir das escolhas que sua família fizer, e não decidir o que sua família deve escolher.
Agora transfira essa reflexão para sua rua, para o seu bairro, para o morro do Alemão, ou para o Aglomerado da Serra. Como uma “política de segurança”, “de moradia”, de “pavimentação”, de “revitalização” pode ser implantada naquele lugar sem que os moradores do lugar sejam ouvidos – e levados a sério? Do que as pessoas do lugar querem se proteger? O que as pessoas do lugar consideram perigoso? O que consideram uma ameaça à convivência naquele lugar? De que forma eles querem se proteger? De que jeito elas querem morar naquele lugar? O que elas querem arrumar, consertar, construir naquele lugar? Com que materiais, com quais pessoas, de que forma as pessoas do lugar querem construir aquele lugar? Tenho a impressão que a família e as pessoas que vivem no lugar onde Eduardo viveu e morreu não tem sido muito ouvidas sobre o que querem para o seu lugar.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Por uma Virada

Tiago

Neste último fim de semana, como bom belo horizontino estudante da UFMG, eu estive na segunda virada cultural da cidade. Não fui à primeira virada, ocorrida no ano passado, e estava curioso para conhecer o evento, copiado da cidade de São Paulo.
Noite de sábado, centrão cheio, movimentado, o clima estava bom. Gentes de muitos (não de todos) lugares caminhando por aí, a esmo ou na direção de alguma atração previamente selecionada. Ocupada, lotada, ao sabor da cerveja, do vinho ou da catuaba, a cidade desmarcava encontros, inventava desencontros. Estava viva, boa.
A programação da virada era extensa, variada, contava com artes de quase todas as formas. Teatro, música, cinema, exposições, enfim, Cultura – de forma geral, com C maiúsculo mesmo. No âmbito musical, sambistas, roqueiros, amantes da MPB, do rap, e de Tom Zé foram considerados.
            Não fui a muitos lugares. Esperando dar uma olhada no Toquinho, passei com alguns amigos no parque municipal. Decepção. Um dos lugares mais importantes da cidade de Belo Horizonte tinha o tráfego controlado naquela noite, a entrada era possível apenas por duas portarias, e todos os que ali queriam entrar eram submetidos à revista dos seguranças. Lá dentro, nada de vendedores ambulantes, apenas cervejas e comidas autorizadas – assim como as pessoas.
Estive no Rap, debaixo do viaduto Santa Tereza; fui ao show do Tom Zé, na avenida guaicurus; no ótimo Samba da Meia Noite; na Noite Cubana da praça sete; e já de madrugada voltei ao parque, haveria show de “Todos os Caetanos do mundo”. Não conhecia a banda, nem seu público. A banda era boa, porém, nenhuma novidade, os caetanos contemplados eram os mesmos de sempre.
            Caminhando por estes lugares tive a mesma impressão que tenho do carnaval belo-horizontino e de boa parte dos eventos que ocorrem na região central de Belo Horizonte, de que “a Virada” também é majoritariamente branca. Feita (pela e) para a classe média da cidade. Sua programação recebe principalmente atrações “Culturais”.
Admito que minha crítica não é exatamente aprofundada. Como já disse, eu não estive em todos os lugares, não estou por dentro dos melindres que envolvem a produção destes eventos, e por isso mesmo quero registrar que ouvi de uma amiga que a virada deste ano abriu espaços a apresentações de grupos independentes. Para ela, nesse sentido há um notável avanço em relação ao ano passado. O que gostei de ouvir. Entretanto, mesmo não tendo ido ao evento do ano passado, não temo dizer que o movimento foi insuficiente.
            Sua programação segue pautada por uma ideia de alta cultura, o que pode ser visto na escolha dos shows, sem nenhum grupo de Pagode, Axé ou Funk. Assim como nos lugares escolhidos para receber alguns eventos, Palácio das Artes, Praça da Liberdade, Academia Mineira de Letras, Sesc Paladium, Parque Municipal.
Além disso, brinca-se pouco com a cidade. Penso que um evento desse porte é uma ótima oportunidade para diminuir distâncias, desconstruir estereótipos, arriscar outros usos de seus espaços e equipamentos. Por que não retirar os carros do grande centro, alocar atrações também em áreas da cidade consideradas distantes, valorizando seus moradores e promovendo a circulação, a possibilidades de novas experiências, novos encontros. Metrô e ônibus gratuitos poderiam promover o acesso à uma virada (verdadeiramente) cultural e (efetivamente) Da Cidade.
Outra possibilidade seria aproveitar eventos que já ocorrem normalmente na cidade e integra-lo ao circuito da virada, como o Baile Funk das quadras da Vilarinho, que poderia ter uma edição gratuita no fim de semana da virada. Ônibus gratuitos partiriam de vários lugares, atendendo os que estivessem dispostos a conhecê-lo. De outro modo, por que não colocar ônibus gratuitos no sentido contrário, promovendo o acesso ao circuito cultural da praça da liberdade (outra cultura com C maiúsculo), partindo sobretudo dos lugares mais distantes.

            Acho a virada uma excelente ideia. Torço para que seja valorizada e que continue a existir. Afinal, para uma cidade que há pouco tempo lutava pelo direito de usar a praça da estação, um evento como este é fantástico. Contudo, para uma Virada efetivamente Da Cidade, muito mais gente ainda precisa ser convidada pra essa festa.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Somos todos um só: você, a FIFA, a UPP e a miséria


Tiago



No país do futebol, em tempos de Copa no país da Copa, é dolorosamente difícil ser do contra, sobretudo contra a Copa. Não é fácil não querer ir a algum lugar para assistir ao jogo do Brasil, não querer torcer pelo Brasil e, pior ainda, afirmar não torcer pelo Brasil. E aí, onde é que você assistiu ao jogo? E a Savassi, tá um festão lá, né...tem passado por lá? O que, você torceu para o Chile, como assim!?

Sinceramente, nem foi para o Chile que torci, mas contra o Brasil, contra o que significa este Brasil, contra o que significa uma festa na Savassi neste momento, contra o que esta festa celebra, e a favor daquilo que é preciso esquecer para se celebrar por lá neste momento, principalmente por lá. (Na verdade, a Savassi em si, e em qualquer época do ano, é a própria celebração de diversos motivos que me fazem ser contra a Copa – como a desigualdade, a condição necessária de sua existência. A Copa apenas potencializa essa representação nefasta, aliás, a Copa lhe cai muito bem).

Mas o fato é que depois de tudo que li, vi, e assisti nos últimos anos não dá para torcer. Não sei vocês, mas para mim não dá para participar. E olha – e quem me conhece sabe – eu gosto de futebol.

A questão é que isto não é só futebol. Como eu já disse, de futebol eu gosto, e muito. Mas esta Copa é mais que isso, e não é preciso muito esforço para notar. As propagandas e toda a avalanche publicitária mostram claramente o que de fato ela é: um negócio. Aliás, um negócio extremamente lucrativo. Mas qual problema há em lucrar? Afinal, o mundo é assim, você pode pensar. Para mim, há vários, sobretudo se pensarmos na mentalidade que sustenta a ideia do lucro: o pressuposto de que tudo é capital, ou seja, uma riqueza que serve para produzir mais riqueza. Se a coisa não serve a isso ela não tem valor, seja um objeto, um evento esportivo, um trabalho, um direito etc. Porém, e para falar somente contra um tipo específico de lucro, os lucros exorbitantes como os que a FIFA, os empreiteiros e anunciantes ganharão com a Copa, dirijo minha reflexão (e minha ojeriza) para a relação direta – insofismável e que fica ainda mais clara nestes casos – entre riqueza e miséria, entre concentração de renda e produção da indignidade, entre concentração do poder econômico e fragilização da democracia, de direitos, da liberdade de expressão, da diversidade, do dissenso, do direito de pensar diferente. Todos os anunciantes, esse clima, todo o aparato policial repressor é para nos fazer – e nos obrigar –crer que somos todos um só, que a Copa é do Mundo, de todo mundo, que sua realização é a festa de todos os brasileiros, a festa da nação.

Não acho. E sabemos – você e eu – ela não é. Existem festas que não merecem comemoração.

Eventos como a Copa do Mundo, organizados da forma como são organizados, são máquinas de produzir miséria. Seu efeito é concentrar ainda mais a renda, a capacidade de decisão e de influência nas mãos de algumas poucas pessoas. Em outras palavras, seu efeito é concentrar ainda mais a oportunidade de acesso a diversos recursos, materiais ou simbólicos; aumentar a distância e a diferença social e espacial entre as pessoas; é minar a capacidade de autonomia, diminuindo ainda mais o poder de alguns sujeitos de influenciar decisões sobre a vida pública. Alguém soube de alguma obra que deixou de ser feita por que durante a consulta à comunidade afetada a mesma decidiu por sua não realização? A realização da Copa é um golpe na construção da democracia e uma afronta covarde ao combate à desigualdade social.

É este o ponto. Não é de futebol, é disto que não gosto, é com isto que não compactuo, é com isto que decidi não contribuir. Estas coisas estão juntas, interligadas, unidas, inter-relacionadas, uma é a condição necessária da outra: o processo que produz yellow blocks é exatamente o mesmo processo que produz Ocupações. Não é só uma festa, não é só um jogo, não são apenas duas – e inocentes – cores.

E aqui, você sabe disso! Isso, você mesmo, é para você que eu escrevo.

Porém, se quer se fazer de desentendido e, apesar de saber disso tudo, prefere unir-se à turma do “já que vai ter Copa, não me resta senão torcer pela seleção”; ou ainda, se é daqueles que não gosta de futebol, mas a desculpa de que a festa é boa justifica sua ida à Savassi, vão aí algumas dicas para que sua consciência não pese – tanto:

1.     Esqueça a indignação com que no ano passado você, na mesa do Maleta, falava do assassinato do Amarildo. Afinal, o aumento da repressão policial nas favelas e periferias, cujas UPPS cariocas são a melhor representação, são uma necessidade deste tipo de evento em que você festeja.
2.     Esqueça o apoio que, de casa, das ruas ou do Facebook, você ofereceu às manifestações de junho do ano passado, muitas vezes comprando brigas e discussões complicadas com seus familiares apenas para explicar-lhes que manifestar é um direito, hoje cassado por ações como a estratégia do cerco, praticada pela Polícia Militar de Minas Gerais sob o argumento de que as manifestações não podem atrapalhar a (sua) festa – a da Savassi.
3.     Para vestir verde e amarelo, esqueça quanto medo lhe causou a fase Coxinha das manifestações de junho do ano passado. Evite se lembrar que, nesta fase, você que desde o início foi para as ruas quase deixou de ir por receio de estar engrossando um coro parecido com o das vésperas de 1° de abril de 1964.
4.     Pare de ler sobre Ocupações. Acredito que não seja muito aconchegante relembrar que as diversas obras de infraestrutura realizadas para a Copa promoveram o deslocamento e o desalojamento compulsório de milhares de pessoas. Não tire os olhos da TV, algumas destas pessoas podem estar catando latinhas ao seu lado, acredito que vê-las pode lhe causar algum desconforto. Dica: guardadores de carro – negros principalmente – podem te remeter à lembranças semelhantes. Evite-os, procure um estacionamento.
5.     Não olhe para a TV durante o “Show do intervalo”, já que você pode se deparar com Ronaldo, agora como comentarista, e daí se dar conta de que foi ele quem disse “que não se faz Copa do Mundo com hospitais”. Talvez assim, não o vendo, seja mais difícil se lembrar de que no dia que ouviu esta frase, não sei se no maleta ou fumando maconha na casa de um amigo, depois de chamá-lo de babaca, você disse ou pensou: “que não se faça então a maldita Copa, ora”. Dica para este dia: pensar que, já que tá tendo, e já que estou aqui mesmo, vamos festejar, o segundo tempo vem aí! Haja coração!
6.     Esqueça o acesso de raiva de que você era tomado(a) quando lia alguma notícia sobre estrangeiros que, aproveitando o ensejo, planejavam vir ao Brasil em busca de turismo sexual. Dica: ao final dos jogos de sábado, desligue a TV rapidamente, pois alguma promoção do programa Caldeirão do Hulk pode sutilmente remeter a este assunto perverso.
7.     Se você teve a sorte, digo, a oportunidade, de conseguir comprar ingresso para assistir a algum jogo no Mineirão, quando estiver dentro do estádio evite pensamentos do tipo “nossa, como algo tão grande pode ser construído”. Há o risco de que, após este tipo de reflexão, a imagem de haitianos, presidiários, e outros tipos (negros) de subempregados venha à sua retina, azedando o tropeiro que é lhe servido pela senhora (negra) que recebe, no máximo, o dobro do valor do seu ingresso. Dica: para não se constranger evite comer no estádio.

Portanto, fique tranquilo. Chame os amigos, assista ao jogo, vá ao campo, vá para a Savassi. Afinal, é só mais um jogo do Brasil. Tire sua selfe, compartilhe-a no Facebook e, no dia seguinte, leia a Nova Democracia, o Pragmatismo Político, a Revista Fórum ou a Caros Amigos, o Sakamoto ou a Eliane Brum com a plena sensação, convicção e certeza de que aquilo tudo de que falam estas pessoas e jornais não tem absolutamente nada a ver contigo. Você não faz parte daquilo. Aliás, se faz, é só um pouquinho, e que mal há gostar de futebol ou de festa!? Todo futebol é futebol, toda festa é festa, apenas, e nada mais que isso.

Não sei vocês, eu vou continuar manifestando na rua, na chuva ou na fazenda; torcendo pelo Chile, para a Colômbia, para a Argentina ou para qualquer coisa que atrapalhe a celebração deles e a de vocês, que desta festa participam. Desse um só, eu não quero fazer parte.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Histórias, ruídos e silêncios da Ditadura

 Tiago - tiagohn@gmail.com

 Algumas coisas eu não escuto. Se muito, ouço algum ruído, e só. Murmuro miúdo, lamento sem razão. Outras sim, ouço quase sempre. Histórias diferentes, e até boas, mas dos mesmos sujeitos, sobre os mesmos sujeitos.
Desde pequeno escuto que foi verdade que naquele 1° de abril de 1964 João Goulart foi retirado do governo pelos Militares. Homens maus! Pensando assim, ali pela 7° ou 8° série eu saia das aulas de História, e matutava, “deve ser por que eles têm armas, por isso podem entrar na sala do presidente e dizer: agora o poder é meu”. Daí proibiram músicas, censuraram filmes, novelas, jornais, peças de teatro, fizeram o Chico se mudar para a Itália, exilaram o Gil, o Caetano, mataram e torturaram comunistas, aquelas pessoas consideradas subversivas. Em minha cabeça eu imaginava que devia ser um perigo sair na rua naquela época. Os militares eram muito maus!
Alguns anos depois reparei que vez ou outra os professores usavam o nome Ditadura civil-militar para falar desse momento da História do Brasil. Mas não explicavam, falavam apenas que muita gente apoiou o golpe que derrubou João Goulart em 64, e que o nome civil se referia a esse apoio da sociedade civil. Hummm... já não era mais um bando de homens fardados que queriam o poder e tinham medo dos comunistas! Desconfiado, pensei que deveria haver mais história naquela história. Mas ainda não entendia o apoio àquele governo tão ruim. Sobretudo se era ruim, por que apoiar? É que eu ainda não sabia: o ruim não é ruim pra todos. E achava aquilo tudo muito estranho. Não entrava na minha cabeça essa história de apoiar um governo que não nos permite escolher ou falar mal do presidente, que não te deixa assistir Roque Santeiro ou ouvir Chico Buarque, um governo que tortura e mata aqueles que lutam por uma sociedade mais justa.
Não, a Ditadura não foi só isso, hoje sei! Mas parece que foi. Ou (para ser mais justo) parece que foi principalmente isso. Como se me dissessem, “teve mais coisa, mas isso é o mais importante, o mais legal de saber”. Como adoro as músicas do Chico, e acho a história dos militantes interessante, emocionante e bonita, então nunca achei ruim...até agora.
50 anos após o Golpe, e quase 30 anos depois da redemocratização, aproveito o momento histórico para observar jornais, televisão, seminários, revistas e outros eventos nos cartazes espalhados pela universidade. Olhando superficialmente, vejo que quando o assunto é a Ditadura essa é a história oficial: censura ao teatro, à música e ao cinema; tortura contra estudantes e outros militantes da época; o papel dos intelectuais e da esquerda; o fechamento de instituições; biografias de nomes importantes que lutaram contra o regime. É disso que mais se fala, são estes os assuntos com maior visibilidade.
Se sopro no texto um leve tom de crítica, quero evitar contudo ser mal compreendido. Acho tudo isso muito importante, e fico muito feliz quando descubro que o país já gastou mais de 2 bilhões com o pagamento de indenizações à algumas vítimas da tortura, do exílio, da aposentadoria compulsória e às famílias de desaparecidos. É preciso gastar ainda muito mais. Não consigo imaginar valor suficiente para indenizar Dulci Pandolfi pela tortura recebida, não há dinheiro que pague a indignidade a qual foi submetida, admiro-a simplesmente por conseguir viver depois do que passou.
            Porém, ando pensando numa outra História. Uma História que (hoje) sei que existe, que dá pra fazer, e que implica noutros heróis, em outras vítimas, em outra consciência, em outras reparações. Uma história do golpe que não aponte apenas homenzinhos maus fardados de verde, mas que os aponte, claro. Espero por uma História do Golpe que fale também de uma sociedade violenta, de uma classe reacionária que se beneficia de um sistema capitalista que não é - e nunca foi - incompatível com o autoritarismo. Uma História que fale de nosso compromisso com o passado, e de nossa responsabilidade com o presente. Espero por uma História do golpe que me permita perguntar: e o Amarildo, e o Robson Melão, o Rafael Braga Viera, e o jovem negro acorrentado no Rio de Janeiro, e meus avós, a favela da Maré, a Serra, e a “cidade” de Ribeirão das Neves, e os quase 30% que vivem na ralé em todo país, todos estes não são também vítimas da Ditadura? Se as condições em que vivem estas pessoas foram geradas ou agravadas durante a ditadura, por que elas não são consideradas vítimas da ditadura? Teria sido a Ditadura apenas um evento político, cultural, e responsável por causar apenas sofrimentos individuais, pontuais? Não foi! E não me venham com essa de vítimas indiretas!
            E se com a mesma frequência com que nos lembra da tortura, das músicas e dos filmes censurados (o que é muito importante, repito!), nossa História também nos lembrasse que o Golpe de 64 possivelmente impediu um processo que aumentaria as oportunidades das camadas mais pobres da sociedade brasileira? E se relembrássemos que o governo de Jango chegou a falar em Reforma Agrária? E se nossa Memória discutisse com mais tenacidade o apoio da Classe Média ao golpe? (Queria adjetivá-la de classe média branca, mas a questão racial também não tem muito espaço na História da Ditadura) Quais projetos de sociedade se enfrentaram naquele momento histórico? Qual projeto venceu, e quem perdeu com a vitória desse projeto que resultou no "Milagre Econômico"? E se nossos documentários mais vistos nos lembrassem que os ricos nunca foram tão ricos e os pobres nunca foram tão pobres em nossa história recente quanto no período do “Milagre Econômico”? Se foi um milagre, este Deus foi bom pra quem? Quem chorou sangue para que esse milagre acontecesse? E quem bebeu do sangue, quem mais engordou com ele? Alguém sabe que os níveis de migração aumentaram escandalosamente nesta época, fazendo o número de favelas em São Paulo mais que triplicar durante a década de 70? Até pesquisar para escrever este texto eu também não sabia. Destas Histórias, destas pessoas, dessa gente do povo povo na verdade, muito pouco eu escuto.