- Êpa, essa viagem foi muito rápida! - Tô com muito calor! Essa roupa laranja é um inferno. - C viu? Quase morreu. Foi um grande estouro. - Os portões da escolha foi aberto. Saiu um monte de gente de uma vez. Encavalou. - Frita pastel e coxinha Rute. - Vô leva esse pilantra no pau! Zé subiu no andaime. Maria chegou na casa de Andreia para cuidar do Pedrinho. Raimundo acabou desistindo de faltar ao trabalho. Laura faltou e comprou um atestado na praça 7. Ninguém aqui é vítima. Ninguém aqui sou eu.

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terça-feira, 5 de maio de 2015

Feio é arrastar e nem perceber

Maurinho

Começo dizendo que esse texto não tem como objetivo "cagar regra" ou impor uma visão radical sobre o tema abordado, e tem como objetivo apenas fazer uma breve reflexão sobre um assunto que considero muito pertinente. Decidi escrever sobre algo que tem estado presente cada vez mais no meu dia a dia, o RAP nacional, o qual considero, antes de qualquer crítica musical, uma forma de fazer política, aliás a música no geral pode ser entendida assim. Contudo, de todos os estilos musicais talvez o rap seja a forma mais explícita de ser fazer política, porque assim como o funk ele é a voz de lugares e pessoas pouco frequentes em colunas sociais, mas muito presentes em dados estatísticos, pessoas e lugares que são problemas de carnaval a carnaval.
Hoje meu interesse pelo rap não se dá por moda, mas por me ver em muitas letras, principalmente quando estas se referem a autoestima e aos desafios enfrentados pelo negro,  sempre entre o sucesso e a lama, e comigo não é diferente. Me fascina em muitos cantores de rap o fato de escrever sobre problemas sociais em suas letras de uma forma que cientista social algum escreveria em um artigo, haja visto que gostam de favelado mais quenutela.
Por entender todo o peso e história do rap nacional uma coisa vem me incomodando, e é justamente essa ascensão do rap em proporções midiáticas. Eu até achava legal ver o Emicida na globo, e embora essa sua postura tenha sido muito criticada por muitos fãs de rap eu achava justo que um cara que já mordeucachorro por comida, e que provavelmente não deve ter tido bicicletaou video game, querer o mundo assim como o tal cidadão kane.
Mas há algumas semanas atrás eu comecei a enxergar essa questão por um outro prisma, a partir de um fato que sinceramente me incomodou muito. Quando assisti ao show do Criolo em Paris, um show muito bem produzido no que diz respeito a figurino e palco, tomado por uma plateia majoritariamente branca e elitizada e sem qualquer interesse em analisar friamente o que era cantado ali. Percebe-se que o publico era composto em sua maioria por brasileiros que moravam na França, muito diferentes “das 10 mil pessoas em uma favela na quermesse do campão” cantada pelo rapper em Sucrilhos, música essa que é um tapa na cara exatamente daquela galera que estava ali curtindo o espetáculo. Me incomodou ver uma moça curtindo a "vibe" em uma musica que dizia "As criançada aqui tão de HK" sem fazer qualquer tipo de reflexão sobre aquilo. Será que ela entendeu que a criançada tá de HK na mão? HK arma, sabe qual é? É duro imaginar que essas mensagens estão sendo jogadas no vácuo, para uma galera que “acha que ta bom, que tá umafesta”, mas e o menino no farol? Ahh esse se humilha e detesta.
Mas talvez mais duro seja ver a parcela de culpa muito significativa do próprio rapper, no caso o Criolo, que notoriamente é conivente com aquilo à medida que faz de suas músicas um produto de consumo da classe média, público que ele dedica sua obra a criticar. Quando digo que o rap que o Criolo faz é um produto com público alvo, me baseio na sua nova estética musical, arranjos bonitos, arrastados, audíveis a ouvidos mais cultos, e talvez por esse motivo não seja tão difícil ignorar que “AR15 e mato e os moleques tão de fuzil”. Mais difícil é ignorar que Deus precisa andar deblindado nas periferias paulistanas através de uma voz seca, calejada, rancorosa que não traz consigo nenhuma preparação com gargarejo ou exercícios vocais, só a raiva de cantar a desgraça que vive. 
Tudo isso me remeteu a um caso que aconteceu comigo quando uma colega de trabalho, filha de uma médica, uma coxinha ao extremo, daquelas que solta perolas do tipo "Meu cachorro é mais chique que muita gente", e que foi a um show do Criolo e voltou dizendo que precisava mudar seus conceitos. Porém, os conceitos de que ela falava não se referiam a uma visão mais humana e menos egoísta sobre problemas sociais e sim aos seus conceitos em relação a estilos musicais, porque a partir daquele show ela percebeu que o rap é bom e gostoso de ouvir, agradável até. Essa nova cara do rap presta um deserviço aos demais grupos de rap ao ponto que acabam sendo marginalizados e perdendo para essas pessoas sua legitimidade, porque o novo Criolo é tido como referência do que é rap e o Facção Central associado à musica de bandido. O Criolo doido agora é "Criolê" e não parcelou toda aquela gente indigesta no cartão, acabou fazendo deles um belo investimento à curto prazo.  Entendo que o rap faz muito mais que areligião e o cassetete usado em vão, mas ele precisa ser entendido, discutido, criticado, e nunca ter sua essência ignorada por vaidade.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Somos todos um só: você, a FIFA, a UPP e a miséria


Tiago



No país do futebol, em tempos de Copa no país da Copa, é dolorosamente difícil ser do contra, sobretudo contra a Copa. Não é fácil não querer ir a algum lugar para assistir ao jogo do Brasil, não querer torcer pelo Brasil e, pior ainda, afirmar não torcer pelo Brasil. E aí, onde é que você assistiu ao jogo? E a Savassi, tá um festão lá, né...tem passado por lá? O que, você torceu para o Chile, como assim!?

Sinceramente, nem foi para o Chile que torci, mas contra o Brasil, contra o que significa este Brasil, contra o que significa uma festa na Savassi neste momento, contra o que esta festa celebra, e a favor daquilo que é preciso esquecer para se celebrar por lá neste momento, principalmente por lá. (Na verdade, a Savassi em si, e em qualquer época do ano, é a própria celebração de diversos motivos que me fazem ser contra a Copa – como a desigualdade, a condição necessária de sua existência. A Copa apenas potencializa essa representação nefasta, aliás, a Copa lhe cai muito bem).

Mas o fato é que depois de tudo que li, vi, e assisti nos últimos anos não dá para torcer. Não sei vocês, mas para mim não dá para participar. E olha – e quem me conhece sabe – eu gosto de futebol.

A questão é que isto não é só futebol. Como eu já disse, de futebol eu gosto, e muito. Mas esta Copa é mais que isso, e não é preciso muito esforço para notar. As propagandas e toda a avalanche publicitária mostram claramente o que de fato ela é: um negócio. Aliás, um negócio extremamente lucrativo. Mas qual problema há em lucrar? Afinal, o mundo é assim, você pode pensar. Para mim, há vários, sobretudo se pensarmos na mentalidade que sustenta a ideia do lucro: o pressuposto de que tudo é capital, ou seja, uma riqueza que serve para produzir mais riqueza. Se a coisa não serve a isso ela não tem valor, seja um objeto, um evento esportivo, um trabalho, um direito etc. Porém, e para falar somente contra um tipo específico de lucro, os lucros exorbitantes como os que a FIFA, os empreiteiros e anunciantes ganharão com a Copa, dirijo minha reflexão (e minha ojeriza) para a relação direta – insofismável e que fica ainda mais clara nestes casos – entre riqueza e miséria, entre concentração de renda e produção da indignidade, entre concentração do poder econômico e fragilização da democracia, de direitos, da liberdade de expressão, da diversidade, do dissenso, do direito de pensar diferente. Todos os anunciantes, esse clima, todo o aparato policial repressor é para nos fazer – e nos obrigar –crer que somos todos um só, que a Copa é do Mundo, de todo mundo, que sua realização é a festa de todos os brasileiros, a festa da nação.

Não acho. E sabemos – você e eu – ela não é. Existem festas que não merecem comemoração.

Eventos como a Copa do Mundo, organizados da forma como são organizados, são máquinas de produzir miséria. Seu efeito é concentrar ainda mais a renda, a capacidade de decisão e de influência nas mãos de algumas poucas pessoas. Em outras palavras, seu efeito é concentrar ainda mais a oportunidade de acesso a diversos recursos, materiais ou simbólicos; aumentar a distância e a diferença social e espacial entre as pessoas; é minar a capacidade de autonomia, diminuindo ainda mais o poder de alguns sujeitos de influenciar decisões sobre a vida pública. Alguém soube de alguma obra que deixou de ser feita por que durante a consulta à comunidade afetada a mesma decidiu por sua não realização? A realização da Copa é um golpe na construção da democracia e uma afronta covarde ao combate à desigualdade social.

É este o ponto. Não é de futebol, é disto que não gosto, é com isto que não compactuo, é com isto que decidi não contribuir. Estas coisas estão juntas, interligadas, unidas, inter-relacionadas, uma é a condição necessária da outra: o processo que produz yellow blocks é exatamente o mesmo processo que produz Ocupações. Não é só uma festa, não é só um jogo, não são apenas duas – e inocentes – cores.

E aqui, você sabe disso! Isso, você mesmo, é para você que eu escrevo.

Porém, se quer se fazer de desentendido e, apesar de saber disso tudo, prefere unir-se à turma do “já que vai ter Copa, não me resta senão torcer pela seleção”; ou ainda, se é daqueles que não gosta de futebol, mas a desculpa de que a festa é boa justifica sua ida à Savassi, vão aí algumas dicas para que sua consciência não pese – tanto:

1.     Esqueça a indignação com que no ano passado você, na mesa do Maleta, falava do assassinato do Amarildo. Afinal, o aumento da repressão policial nas favelas e periferias, cujas UPPS cariocas são a melhor representação, são uma necessidade deste tipo de evento em que você festeja.
2.     Esqueça o apoio que, de casa, das ruas ou do Facebook, você ofereceu às manifestações de junho do ano passado, muitas vezes comprando brigas e discussões complicadas com seus familiares apenas para explicar-lhes que manifestar é um direito, hoje cassado por ações como a estratégia do cerco, praticada pela Polícia Militar de Minas Gerais sob o argumento de que as manifestações não podem atrapalhar a (sua) festa – a da Savassi.
3.     Para vestir verde e amarelo, esqueça quanto medo lhe causou a fase Coxinha das manifestações de junho do ano passado. Evite se lembrar que, nesta fase, você que desde o início foi para as ruas quase deixou de ir por receio de estar engrossando um coro parecido com o das vésperas de 1° de abril de 1964.
4.     Pare de ler sobre Ocupações. Acredito que não seja muito aconchegante relembrar que as diversas obras de infraestrutura realizadas para a Copa promoveram o deslocamento e o desalojamento compulsório de milhares de pessoas. Não tire os olhos da TV, algumas destas pessoas podem estar catando latinhas ao seu lado, acredito que vê-las pode lhe causar algum desconforto. Dica: guardadores de carro – negros principalmente – podem te remeter à lembranças semelhantes. Evite-os, procure um estacionamento.
5.     Não olhe para a TV durante o “Show do intervalo”, já que você pode se deparar com Ronaldo, agora como comentarista, e daí se dar conta de que foi ele quem disse “que não se faz Copa do Mundo com hospitais”. Talvez assim, não o vendo, seja mais difícil se lembrar de que no dia que ouviu esta frase, não sei se no maleta ou fumando maconha na casa de um amigo, depois de chamá-lo de babaca, você disse ou pensou: “que não se faça então a maldita Copa, ora”. Dica para este dia: pensar que, já que tá tendo, e já que estou aqui mesmo, vamos festejar, o segundo tempo vem aí! Haja coração!
6.     Esqueça o acesso de raiva de que você era tomado(a) quando lia alguma notícia sobre estrangeiros que, aproveitando o ensejo, planejavam vir ao Brasil em busca de turismo sexual. Dica: ao final dos jogos de sábado, desligue a TV rapidamente, pois alguma promoção do programa Caldeirão do Hulk pode sutilmente remeter a este assunto perverso.
7.     Se você teve a sorte, digo, a oportunidade, de conseguir comprar ingresso para assistir a algum jogo no Mineirão, quando estiver dentro do estádio evite pensamentos do tipo “nossa, como algo tão grande pode ser construído”. Há o risco de que, após este tipo de reflexão, a imagem de haitianos, presidiários, e outros tipos (negros) de subempregados venha à sua retina, azedando o tropeiro que é lhe servido pela senhora (negra) que recebe, no máximo, o dobro do valor do seu ingresso. Dica: para não se constranger evite comer no estádio.

Portanto, fique tranquilo. Chame os amigos, assista ao jogo, vá ao campo, vá para a Savassi. Afinal, é só mais um jogo do Brasil. Tire sua selfe, compartilhe-a no Facebook e, no dia seguinte, leia a Nova Democracia, o Pragmatismo Político, a Revista Fórum ou a Caros Amigos, o Sakamoto ou a Eliane Brum com a plena sensação, convicção e certeza de que aquilo tudo de que falam estas pessoas e jornais não tem absolutamente nada a ver contigo. Você não faz parte daquilo. Aliás, se faz, é só um pouquinho, e que mal há gostar de futebol ou de festa!? Todo futebol é futebol, toda festa é festa, apenas, e nada mais que isso.

Não sei vocês, eu vou continuar manifestando na rua, na chuva ou na fazenda; torcendo pelo Chile, para a Colômbia, para a Argentina ou para qualquer coisa que atrapalhe a celebração deles e a de vocês, que desta festa participam. Desse um só, eu não quero fazer parte.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Histórias, ruídos e silêncios da Ditadura

 Tiago - tiagohn@gmail.com

 Algumas coisas eu não escuto. Se muito, ouço algum ruído, e só. Murmuro miúdo, lamento sem razão. Outras sim, ouço quase sempre. Histórias diferentes, e até boas, mas dos mesmos sujeitos, sobre os mesmos sujeitos.
Desde pequeno escuto que foi verdade que naquele 1° de abril de 1964 João Goulart foi retirado do governo pelos Militares. Homens maus! Pensando assim, ali pela 7° ou 8° série eu saia das aulas de História, e matutava, “deve ser por que eles têm armas, por isso podem entrar na sala do presidente e dizer: agora o poder é meu”. Daí proibiram músicas, censuraram filmes, novelas, jornais, peças de teatro, fizeram o Chico se mudar para a Itália, exilaram o Gil, o Caetano, mataram e torturaram comunistas, aquelas pessoas consideradas subversivas. Em minha cabeça eu imaginava que devia ser um perigo sair na rua naquela época. Os militares eram muito maus!
Alguns anos depois reparei que vez ou outra os professores usavam o nome Ditadura civil-militar para falar desse momento da História do Brasil. Mas não explicavam, falavam apenas que muita gente apoiou o golpe que derrubou João Goulart em 64, e que o nome civil se referia a esse apoio da sociedade civil. Hummm... já não era mais um bando de homens fardados que queriam o poder e tinham medo dos comunistas! Desconfiado, pensei que deveria haver mais história naquela história. Mas ainda não entendia o apoio àquele governo tão ruim. Sobretudo se era ruim, por que apoiar? É que eu ainda não sabia: o ruim não é ruim pra todos. E achava aquilo tudo muito estranho. Não entrava na minha cabeça essa história de apoiar um governo que não nos permite escolher ou falar mal do presidente, que não te deixa assistir Roque Santeiro ou ouvir Chico Buarque, um governo que tortura e mata aqueles que lutam por uma sociedade mais justa.
Não, a Ditadura não foi só isso, hoje sei! Mas parece que foi. Ou (para ser mais justo) parece que foi principalmente isso. Como se me dissessem, “teve mais coisa, mas isso é o mais importante, o mais legal de saber”. Como adoro as músicas do Chico, e acho a história dos militantes interessante, emocionante e bonita, então nunca achei ruim...até agora.
50 anos após o Golpe, e quase 30 anos depois da redemocratização, aproveito o momento histórico para observar jornais, televisão, seminários, revistas e outros eventos nos cartazes espalhados pela universidade. Olhando superficialmente, vejo que quando o assunto é a Ditadura essa é a história oficial: censura ao teatro, à música e ao cinema; tortura contra estudantes e outros militantes da época; o papel dos intelectuais e da esquerda; o fechamento de instituições; biografias de nomes importantes que lutaram contra o regime. É disso que mais se fala, são estes os assuntos com maior visibilidade.
Se sopro no texto um leve tom de crítica, quero evitar contudo ser mal compreendido. Acho tudo isso muito importante, e fico muito feliz quando descubro que o país já gastou mais de 2 bilhões com o pagamento de indenizações à algumas vítimas da tortura, do exílio, da aposentadoria compulsória e às famílias de desaparecidos. É preciso gastar ainda muito mais. Não consigo imaginar valor suficiente para indenizar Dulci Pandolfi pela tortura recebida, não há dinheiro que pague a indignidade a qual foi submetida, admiro-a simplesmente por conseguir viver depois do que passou.
            Porém, ando pensando numa outra História. Uma História que (hoje) sei que existe, que dá pra fazer, e que implica noutros heróis, em outras vítimas, em outra consciência, em outras reparações. Uma história do golpe que não aponte apenas homenzinhos maus fardados de verde, mas que os aponte, claro. Espero por uma História do Golpe que fale também de uma sociedade violenta, de uma classe reacionária que se beneficia de um sistema capitalista que não é - e nunca foi - incompatível com o autoritarismo. Uma História que fale de nosso compromisso com o passado, e de nossa responsabilidade com o presente. Espero por uma História do golpe que me permita perguntar: e o Amarildo, e o Robson Melão, o Rafael Braga Viera, e o jovem negro acorrentado no Rio de Janeiro, e meus avós, a favela da Maré, a Serra, e a “cidade” de Ribeirão das Neves, e os quase 30% que vivem na ralé em todo país, todos estes não são também vítimas da Ditadura? Se as condições em que vivem estas pessoas foram geradas ou agravadas durante a ditadura, por que elas não são consideradas vítimas da ditadura? Teria sido a Ditadura apenas um evento político, cultural, e responsável por causar apenas sofrimentos individuais, pontuais? Não foi! E não me venham com essa de vítimas indiretas!
            E se com a mesma frequência com que nos lembra da tortura, das músicas e dos filmes censurados (o que é muito importante, repito!), nossa História também nos lembrasse que o Golpe de 64 possivelmente impediu um processo que aumentaria as oportunidades das camadas mais pobres da sociedade brasileira? E se relembrássemos que o governo de Jango chegou a falar em Reforma Agrária? E se nossa Memória discutisse com mais tenacidade o apoio da Classe Média ao golpe? (Queria adjetivá-la de classe média branca, mas a questão racial também não tem muito espaço na História da Ditadura) Quais projetos de sociedade se enfrentaram naquele momento histórico? Qual projeto venceu, e quem perdeu com a vitória desse projeto que resultou no "Milagre Econômico"? E se nossos documentários mais vistos nos lembrassem que os ricos nunca foram tão ricos e os pobres nunca foram tão pobres em nossa história recente quanto no período do “Milagre Econômico”? Se foi um milagre, este Deus foi bom pra quem? Quem chorou sangue para que esse milagre acontecesse? E quem bebeu do sangue, quem mais engordou com ele? Alguém sabe que os níveis de migração aumentaram escandalosamente nesta época, fazendo o número de favelas em São Paulo mais que triplicar durante a década de 70? Até pesquisar para escrever este texto eu também não sabia. Destas Histórias, destas pessoas, dessa gente do povo povo na verdade, muito pouco eu escuto.