- Êpa, essa viagem foi muito rápida! - Tô com muito calor! Essa roupa laranja é um inferno. - C viu? Quase morreu. Foi um grande estouro. - Os portões da escolha foi aberto. Saiu um monte de gente de uma vez. Encavalou. - Frita pastel e coxinha Rute. - Vô leva esse pilantra no pau! Zé subiu no andaime. Maria chegou na casa de Andreia para cuidar do Pedrinho. Raimundo acabou desistindo de faltar ao trabalho. Laura faltou e comprou um atestado na praça 7. Ninguém aqui é vítima. Ninguém aqui sou eu.

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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Entre ter e não ter, ser e não ser no/o tempo

Mayara

          Depois de outro feriado prolongado, em que o tempo "livre" pareceu um convite para ocupa-lo com demandas há muito postergadas, intensificou uma reflexão sobre como temos lidado com essa contingência cotidiana, o tempo. Não que o "problema" de lidar com o tempo não seja algo que se repita em conversas e reclamações a todo momento, mas esse assunto tem me sensibilizado toda vez que tenho vontade de fazer algo que não está nos meus planos e/ou que pode não parecer tão importante quanto os meus "compromissos" de fato. Alguns dias atrás estava na sessão do filme ”Kara’i Ha’egui Kunha Karai ‘Ete*” (Os Verdadeiros Líderes Espirituais), e no intervalo parei para conversar com o Sr. Alcindo Wherá Tupa, líder espiritual guarani que conta com 105 anos de muita experiência, foram poucas palavras, mas tudo muito intenso. Agradeci pela sua presença e perguntei algumas coisas sobre sua estadia em Belo Horizonte, ele respondeu com um belo sorriso que tinha sido muito bem recebido, mas que desejava voltar pra casa. Em meio às suas palavras, que saíam com uma incrível leveza, ele disse que as coisas aqui eram aceleradas demais. Isso me incomodou muito, pois era algo sobre o que eu já vinha refletindo bastante. A sabedoria do Sr. Alcindo é indiscutível, o conhecimento que se pode apreender em um minuto de conversa é muito maior que mil livros podem oferecer. E exatamente naquele dia, quase não fui àquela sessão de cinema porque tinha outros "compromissos", alguns, inclusive, que diziam respeito à vida acadêmica.
          Fiquei pensando como estamos sempre preocupados com o tempo, os horários ditam nossa vida e nos aprisionam em marcadores que muitas vezes são imperceptíveis. É quase impossível passarmos um dia sequer sem olhar no relógio ou tentarmos de algum modo nos situarmos no tempo. O frenesi da vida urbana retira boa parte da nossa autonomia, quanta coisa gostaríamos de encaixar nessa nossa agenda que já nem é possível cumprir? Quantas atividades deixamos de praticar devido às exigências cotidianas? Ou até mesmo quanto ócio poderia permear nossas vidas? Momentos completamente livres, sem que necessariamente planos e metas estejam na fila das responsabilidades. Coisas simples, como se dar ao direito de dormir um dia inteiro, de não ler aqueles textos pra aula, não limpar o apartamento, de ver um filme ou vários, ou de ouvir música e olhar para o horizonte… Fazer tudo o que nossa consciência nos sugere, e que nos causa um sentimento de inutilidade, culpa ou de desperdício de tempo.
          Talvez seja por isso que eu goste tanto de viajar, pois são minhas imersões num universo em que o compromisso é não ter compromisso que me faz sentir mais leve, me possibilitando ver que menos é muitas vezes mais. Os dias que passo longe do espaço-tempo que me sufoca, são momentos em que esqueço das horas, das datas, dos meios de comunicação em massa ou das redes sociais. Tento não delimitar um roteiro, me permitindo experienciar os lugares de acordo com os interesses que vão surgindo. E tudo isso renova minhas energias, mas também me faz perceber que não quero continuar imprimindo um ritmo frenético a minha vida, fazendo da exceção o que deveria ser a regra.
          O "problema" não é O tempo, mas como o utilizamos. Não adianta desejarmos que os dias durem 40 horas ou que as semanas tenham 20 dias, se iremos ocupar todo o tempo disponível com mais obrigações. A questão da relatividade do tempo (não em termos da física quântica, mas de percepções/práticas) pode ser percebida nesses instantes que resolvemos não fazer nada, nos dias mais longos das férias ou em simples momentos que ostentamos o ócio. Desapegar dos marcadores espaço-temporais implica liberdade, o que nos é negado a todo momento, para alguns ainda mais que para outros.
          É claro que muita gente não pode se dar ao luxo de se livrar dessas amarras rotineiras. Para a classe trabalhadora, que acorda cada vez mais cedo e volta pra casa ainda mais tarde, se tem uma coisa que não acelerou foram os meios de transporte público, e o tempo torna-se mais um adversário diário. No entanto, repensar esses modelos acelerados de estar no mundo, que ditam nossas relações pelo consumo, pela negação do ócio (negócio), parece-me cada vez mais necessário. Poder dedicar mais tempo a viver ao invés de somente ver a vida passar não diz respeito apenas ao que designam como qualidade de vida, mas, mais que isso, é nos dar a chance de seguirmos com o tempo e não contra o tempo.

            Obrigada Sr. Alcindo por viver tanto e tão bem!!!

*Sinopse: O filme conta a história de vida do Sr. Alcindo Moreira, um importante líder espiritual Guarani, de 105 anos de idade, e de D. Rosa Poty-Dja, sua esposa, que vivem na Aldeia Yynn Moroti Werá, Terra Indígena de Biguaçu, em Santa Catarina. A inspiração do cineasta Alberto Alvares veio da admiração e respeito pelos saberes orais transmitidos por Wera tupã, o Sr. Alcindo Moreira e sua esposa Poty Dja, Dona Rosa, que são exemplos de sabedoria e espiritualidade do Povo Guarani.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Revolução Demográfica no Brasil

Charles

“Era um sistema totalmente maluco. Não é à toa que a gente virou essa sociedade com favelas, deterioração do espaço urbano e criminalidade. A gente fez de tudo para virar isso. Acho até que virou pouco.
Com tudo o que a gente fez lá atrás, é surpreendente como vivemos numa sociedade calma”.
Samuel de Abreu Pessôa, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas.

Lembro-me bem de várias características de minha infância na capital paulista. Da praça em frente a minha casa, do clima de frio acentuado no inverno, do uniforme azul da escola, da garoa. Foi na década de 1980 que vivi minha infância e desta época trago comigo uma série de lembranças marcantes. Em 1985 foi a primeira vez que vi minha mãe chorar, era a morte de Tancredo Neves, lembro-me das maquininhas de remarcação de preços, frenéticas, nos supermercados e meu pai preocupado com os preços que mudavam de um dia para o outro, era o período da hiperinflação no Brasil. Me recordo do pavor imenso que minha mãe tinha em relação a AIDS. Dentre tais lembranças que marcaram e que ainda marcam minha trajetória de vida, como esquecer os almoços na casa do Tio Efigênio, em Guaianazes-SP, eram tantos primos, tantos tios e tanta gente. Era uma casa modesta, com um quintalzinho no fundo cheio de plantações e galinhas. Mas era uma casa cheia de vida. Vida que aos domingos reunia as pessoas, a família e seus agregados.  Foi o mais próximo que estive de uma configuração de “família”, a qual nunca tive de fato. Minha família nuclear era pequena, solitária, meu pai sempre foi um tanto quanto arredio, não gostava de pessoas em nossa casa e saia pouco. Em meados da década de 1990 mudamos para as Minas Gerais e logo ocorreu o falecimento da minha genitora, tornando minha “família” ainda menor. Meu pai, meu irmão e eu. Creio estar ai o motivo de me considerarem tão seco as vezes. Eu acredito que, intrinsecamente, faltou uma grande família em minha formação. Sempre precisei de mais orientação e atenção. Irmãos mais velhos, mais comemorações de aniversário. Natal em família. É tão verdade que busco isso em outras famílias. É sério, fui até agregado, ou melhor, adotado por algumas famílias nesses vários anos. A mais significante é uma família de Belo Horizonte. A família Nascimento, da qual fazem parte o Tiago Heliodoro e a Carol que também escrevem para esse blog. Os natais da família Nascimento são tão emocionantes, tão revigorantes, tão cheios de esperança, verdadeiro natal em família. Casa cheia, presentes, presépio, orações, lágrimas.
Porém, acredito piamente que não poderei configurar uma família nesses moldes, pois não terei vários filhos. Ao contrário da família do meu pai (8 irmãos), ao contrário da família da minha mãe (4 irmãs) e ao contrário da família da minha sogra (12 irmãos). Eu não vejo, em um horizonte de tempo próximo, a menor possibilidade de ter um filho. Não acho que estou preparado. E essa preparação nada tem a ver com minha capacidade psicológica ou meu grau de responsabilidade, isso tudo já tenho. O que me falta é capacidade econômica. Dentro da minha visão de mundo, creio eu não passe nem perto da chance de possuir uma estrutura econômica que possa servir para suprir todas as necessidades de um filho a contento.
Mas engana-se quem acha que estou só, ou que estou exagerando. Essa percepção é cada vez maior no nosso país, principalmente nos centros urbanos. E também não é um costume recente ou passageiro. A diminuição no número de filhos vem se acentuando no Brasil desde a década de 1980. Foi a década de confirmação da Revolução Demográfica no Brasil.
A Revolução Demográfica brasileira tem início na década de 1930, posto que a partir desta época as taxas de mortalidade começam a cair no Brasil, devido aos avanços na medicina, ações de saúde pública e alguma melhora nos padrões de vida. Apesar disso, as famílias continuaram tendo um número elevado de filhos, com média superior a seis filhos para cada mulher até os anos 60. A combinação da queda na taxa de mortalidade com a alta taxa de fecundidade gerou um crescimento rápido da população brasileira entre os anos 40 e 60. Essa sequência de fatos ficou conhecida como “explosão demográfica brasileira”. Na década de 50 a população brasileira totalizava 51.944.397 habitantes, bem longe do resultado do último censo realizado no Brasil em 2010 onde os resultados, apontaram uma população formada por 190.732.694 pessoas. Nos últimos 50 anos houve um grande salto demográfico no território brasileiro, o país teve um aumento de aproximadamente 130 milhões de pessoas. No curto período de 1991 a 2005, a população brasileira teve um crescimento próximo a 38 milhões de indivíduos.
A transição demográfica possui um perfil padronizado, de uma forma geral, que pode ser observado em quase todos os países. Num primeiro momento você tem mortalidade alta e fecundidade alta, com crescimento populacional próximo do zero. É o caso da Europa antes da Revolução Industrial. Com o processo de urbanização, com programas de saneamento básico e saúde alcançando a maior parte da população as taxas de mortalidade começam então a cair, numa velocidade maior do que as taxas de fecundidade, o que gera um rápido aumento da população. Posteriormente cai a taxa de fecundidade e, no último momento, as duas taxas são baixas. É quando você passa a ter crescimento zero ou negativo. É nesse nível que se encontram os países considerados mais ricos, dos quais o Brasil está se aproximando.
Estudiosos da demografia no Brasil concordam que essa fase transitória da demografia é comum a quase todos os países, mas afirmam que existe uma variação na duração e nos efeitos deste período, ou seja, cada país possui características próprias dentro dessa fase de transição. O caso brasileiro, no século XX, foi muito mais rápido do que tudo que já havia acontecido anteriormente. Tomemos como exemplo a comparação entre o Brasil e a Inglaterra. O processo de transição que aqui realizamos em 40 anos, os ingleses levaram 120 anos para concluir.
Quando buscamos identificar um conjunto de razões para explicar o processo que levou a revolução demográfica no Brasil, necessariamente encontramos explicações com bases econômicas. A urbanização e as pressões com o custo de vida a partir dos anos 70 fizeram com que os casais tivessem menos filhos. Outro ponto importante para essa conjuntura é o ingresso da mulher no mercado de trabalho, com o assalariamento, inclusive no mundo rural, elas passaram a ter uma jornada fixa e com isso veio uma pressão para diminuírem o número de filhos.
O Professor Titular do Departamento de Demografia da UFMG, Eduardo Rios-Neto, chama a atenção para o papel da tevê neste processo. Nos anos 90 ele participou, ao lado de outros demógrafos e cientistas sociais, de uma pesquisa que procurava analisar a influência das telenovelas no tamanho das famílias. Descobriu-se que a Rede Globo teve, pouco a pouco, um efeito de modernização da sociedade. As famílias que apareciam nas telas nunca eram grandes, ou por ser difícil escrever tramas para famílias maiores ou por ser difícil dirigir crianças. O padrão televisivo teve uma influência considerável em todas as regiões e todas as classes sociais brasileiras. A soma de tudo isso fez com que a taxa de fecundidade no Brasil caísse. Em 1980, as mulheres brasileiras ainda tinham, em média, 4,4 filhos ao longo de toda a vida. Em 1991, eram apenas 2,7 filhos. No último Censo, feito em 2010, cada mulher tinha em média 1,9, filhos, já abaixo da taxa de reposição da população que é de 2,1 filhos por mãe.
A queda na taxa de fecundidade provocou uma revolução no mercado de trabalho brasileiro. O que vemos atualmente no mercado de trabalho brasileiro contraria a lógica da oferta e da procura de mão de obra até então. Até os anos 80 tínhamos no Brasil um crescimento desordenado da população e baixo investimento na educação pública, o que acabou gerando uma mão de obra desqualificada, e que de acordo com a lógica de mercado mantinha os salários baixos. Entre as décadas de 50 e 70 no Brasil, período em que a população mais crescia, o investimento no estudante universitário era até 75 vezes maior que o investimento no estudante do ensino fundamental de escola pública. Obviamente, quem cursava ensino superior público era a elite do país (dependendo do curso ainda é), aumentando muito neste período a desigualdade social no Brasil. O Estado barrava a oportunidade de ascensão social para os pobres – pobreza reproduzindo pobreza.
Segundo o economista Samuel de Abreu Pessôa, pesquisador e professor da pós-graduação em economia da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, essa estrutura que aumentou a desigualdade social no país produziu uma sociedade extremamente conflituosa. “Era um sistema totalmente maluco. Não é à toa que a gente virou essa sociedade com favelas, deterioração do espaço urbano e criminalidade. A gente fez de tudo para virar isso. Acho até que virou pouco. Com tudo o que a gente fez lá atrás, é surpreendente como vivemos numa sociedade calma”.
Com a queda no número de nascidos a população brasileira tende a diminuir o percentual de reposição da população gerando um número menor da parcela ativa, ou seja, de trabalhadores. Devido à diminuição do número de mão de obra os salários tendem a aumentar. Com a intensa queda do número de filhos por mulher na década de 80, o poder público conseguiu colocar a grande maioria das crianças na escola (programas como o Fundef e o Toda Criança na Escola contribuíram para alavancar os indicadores quantitativos desse nível de ensino na gestão FHC. A meta era de colocar 98% das crianças de 7 a 14 anos no ensino fundamental). No final dos anos 2000 essa geração chegou ao mercado de trabalho. Um número menor de jovens e mais bem educados, o que acaba por influenciar a oferta de trabalho no Brasil, posto que a existência de um número significativamente menor de pessoas oferecendo trabalho leva a uma perceptível dificuldade para a contratação de mão de obra, fazendo com que os empregadores valorizem mais seus funcionários. Além disso, o aumento do tempo de permanência na escola destes trabalhadores constituiu uma qualificação, mesmo que pequena, possibilitando o trabalhador o poder de negociação, de mudança. Meu pai, que só estudou até a quarta série, trabalhou na mesma empresa por 20 anos. Ele sempre torcia o nariz quando eu mudava de emprego. Esses fatos retiram um enorme poder dos ricos capitalistas, uma vez que eles precisam dar uma maior valorização aos trabalhadores, como melhorias salariais, para contratar e também manter seu quadro de funcionários. Os benefícios das mudanças geradas pela revolução demográfica são facilmente percebidos quando se observa o índice de desemprego no Brasil nas duas primeiras décadas do século XXI, uma média de 6 a 7%. Ao contrário das décadas de 80 e 90 onde a taxa de desemprego eram muito maiores.
Para além da relevância das modificações históricas que a transição demográfica causou – e continua causando – na sociedade brasileira, é importante ressaltar que o seu papel não é levado em conta como deveria, ou simplesmente não é considerado. Em parte por culpa da nossa mídia, a de maior exposição, que costuma veicular informações superficiais e unilaterais. Por outro lado pela credibilidade, demasiada, que a população dispensa aos discursos político-partidários repletos de interesses muito mais particulares do que públicos.
A revolução demográfica no Brasil coloca em questão as contribuições dos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os anos de 1990 e 1995 a parcela da população de 0 a 14 anos cresceu apena 1%, representando uma enorme queda de crescimento em relação à década anterior, e no período de 1995 a 2000 essa parcela da população teve sua taxa de crescimento negativa, começando então a diminuir. Essa estabilização no número de crianças no Brasil, no início do século XXI, contribuiu para o aumento do acesso a escola fundamental, durante os anos do governo Fernando Henrique, como já vimos. Essa mesma geração começou a entrar no mercado de trabalho dez anos mais tarde, durante o governo Lula, diminuindo, em números absolutos, a oferta de mão de obra, o que acabou por gerar uma necessária valorização dessa mão de obra por parte dos empregadores, devido a sua escassez.  Desta forma, para uma compreensão adequada das mudanças das políticas públicas nos últimos vinte anos e dos avanços sociais mais recentes no Brasil, é imprescindível entender a revolução demográfica no Brasil.
Na comemoração dos dez anos do PT no poder (02/2013), Lula anunciou a candidatura de Dilma à reeleição. “Nós não herdamos nada, nós construímos”, disse Dilma em seu discurso. No mesmo dia, o tucano Aécio Neves, discursou no Senado, segundo ele o PT desde que assumiu o poder está apenas “exaurindo a herança bendita”, que o governo Fernando Henrique lhe legou.
No centro das discussões entre PT e PSDB está o desenvolvimento dos indicadores sociais do país, o controle do desemprego e da inflação, melhora na qualidade educacional, etc.. Os dois partidos querem atribuir a si todo o processo de melhora social que o país vem passando. Os partidos deveriam reconhecer a contribuição da revolução demográfica e suas consequências, propor um debate público e aberto, e a partir deste ponto propor melhorias e aprofundamento dos pontos que já estão sendo desenvolvidos. Diante de um processo tão incisivo e que se configurou em longo prazo como a revolução demográfica no Brasil, nossos políticos discursão como verdadeiros salvadores da Pátria.

terça-feira, 31 de março de 2015

Se somos diferentes em nossas belezas, somos semelhantes em nossas desgraças.

João Paulo

Como bom aprendiz de antropólogo, devo começar este texto com um alerta: estou em Cabo Verde, na África, a menos de um mês e tudo que disser deve ser levado ao tribunal das consciências. Explico o porquê disso: os antropólogos são, geralmente, observadores e a boa Antropologia nos ensina que para observar bem é preciso ter cautela, para que não sejamos levianos com as pessoas ao ponto de querermos saber mais sobre elas do que elas próprias. Mais um ponto que interessa: procurarei simplesmente fazer uma comparação muito grosseira de algumas questões observadas aqui e que acho que também ocorrem no Brasil.

Como sou brasileiro, latino-americano, pardo e filho de mãe solteira, e estou em Cabo Verde, isso me assegura que ao menos estou partindo de algum lugar. Mesmo que fale a partir de um lugar estreito e muito limitado acho que é preciso tentar ouvir o que as pessoas têm a dizer, quando falam sobre uma experiência concreta. Elas dizem algo de mais valor do que as pessoas que falam sobre experiências, lugares e pessoas com quem nunca tiveram ao menos um mínimo de contato, qualquer que seja esse. Já cantava Marcos Vale: “Falar do morro morando de frente pro mar, não vai fazer ninguém melhorar!!

Bem, chega de explicações!!! Estou a quase trinta dias na cidade de Praia, Ilha de Santigo, Capital de Cabo Verde, numa moradia estudantil que abriga cerca de 90 estudantes de idades variadas. A moradia fica perto da Assembleia Nacional, das embaixadas da Rússia, China e próxima da enorme mansão do embaixador brasileiro. As crianças e adolescentes são originários das 9 ilhas habitadas que compõem o país, inclusive da ilha do Fogo, que recentemente foi arrasada pela erupção do Vulcão.

O pessoal daqui adora brasileiro. Adora mesmo. As refeições são servidas no refeitório da moradia. Quem prepara a comida de todos são cozinheiras daqui, pessoas que vivem com bastante dificuldade e que lembram bem os trabalhadores assalariados do Brasil. São contratados de uma empresa brasileira que administra o restaurante popular e que há três meses não paga os salários de seus funcionários. Conversei com algumas dessas pessoas e elas nos contaram que os funcionários que reclamaram foram todos demitidos.

Como vocês sabem, além de fazer planos para conquistar o mundo, eu sou funcionário do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) e vejo todos os dias os trabalhadores da cidade de Belo Horizonte reclamarem sobre os problemas enfrentados nas relações trabalhistas. Importante lembrar que este mesmo órgão fiscaliza o trabalho escravo no Brasil. Sinceramente, chegar aqui e me deparar com um maldito explorador  exportando bandidagem não me surpreende. É que no Brasil, a lei trabalhista está completamente desajustada da realidade. Não sei se algum dia ela o foi, mas o que vemos na prática é que os trabalhadores se encontram hoje, completamente sujeitos à rapinagem de capitalistas sedentos. Duvida? Quer prova empírica, concreta? Fique comigo uma semana no Ministério do Trabalho e você terá as provas que procura. Além disso, trabalhamos numa repartição sucateada, sem recursos e atendendo um volume cada vez maior de descontentes. O descaso com a estrutura do Ministério do Trabalho é o reflexo do descaso de nossos governantes, petistas diga-se de passagem, com a agenda dos trabalhadores brasileiros.

O mercado de trabalho não é o mesmo mercado de quando a CLT foi criada. Os mecanismos de  exploração da força de trabalho ficaram mais eficientes, e a lei continua a mesma que foi criada no governo de Getúlio Vargas... A atuação do Ministério do Trabalho é limitada pelo seu sucateamento, e no âmbito da Justiça do Trabalho a situação não é melhor para o trabalhador. Há um enorme volume de processos, a procura pelo serviço é cada vez maior e a Justiça está sempre a querer que o empregado faça o famoso Acordo, isto é, a tal da Conciliação com o patrão, e não raro o empregado sai perdendo nesses acordos. Qualquer um que entenda o mínino de legislação trabalhista sabe que esses acordos servem somente para desafogar a Justiça e quem sai perdendo, em dinheiro e dignidade, é o trabalhador.  O funcionário começa a não receber, como está ocorrendo aqui com os cabo-verdianos contratados pela empresa brasileira, e quando vão recorrer à Justiça para requerer seu direito, geralmente logo na primeira audiência o patrão, instruído por seu advogado, diz que não tem o dinheiro, que está quebrado, aí o juiz geralmente propõe um acordo e divide a dívida em muitas vezes. O funcionário, que já está a mais de três meses sem receber acaba aceitando, e não raro, acaba ficando sem nada porque é comum que o patrão não respeite nem mesmo este acordo. Converso com muitos trabalhadores que ficam sem o salário, sem o FGTS, sem o pagamento do INSS e sem o dinheiro do tal acordo. Isso é praticamente um processo de acumulação primitiva do capital, e não estou exagerando pessoal, haja vista a quantidade de trabalho escravo que ainda existe no Brasil. Me alonguei um pouco porque este cenário e os assaltos constantes que sofrem a nossa fraca legislação trabalhista, que são alvos constantes de projetos de lei obscuros que procuram flexibilizar algo já tão fragilizado formam o terreno ideal para a ploriferação de “verdadeiros vampiros” que vivem de sugar a energia e o trabalho de pessoas humildes, enquanto mandam seus filhos para serem educados na Europa.

Lembra até um personagem machadiano, não acham? Já leram o conto “Teoria do Medalhão”? Em boa parte de sua obra, Machado de Assis retrata muito bem essa nossa elite parasitária, que nunca trabalhou e que sempre viveu de rendas. Antes haviam os escravos, hoje também. Antes eles os acoitavam com chicotes, hoje eles não pagam seus salários, direito básico e elementar do trabalhador. E é curioso pensar em Machado, porque será que é só um detalhe ele ter sido mulato, epilético, auto-didata e pobre e essa mesma elite de hoje estar tão presente em sua obra? Há os que dizem que Machado não se posicionava politicamente. Esses, ou não o leram, ou não o entenderam.  Se fomos subalternos, ainda o somos em grande medida. Darcy Ribeiro nos diz que é preciso inventar o Brasil que nós queremos. Não sei Darcy, se vamos ter força pra isso. É que nossa Elite é aquela elite tacanha de ontem, que ainda tem muito poder e que não deixa o barco navegar. Querem manter as coisas como estão, ou seja, manter as cabeças sob controle, pois dá bastante lucro.

Quando chegamos aqui em Cabo Verde fomos muito bem recebidos. As pessoas nos reconheceram como brasileiros e nos miravam com um sorriso muito aberto. A todo momento que se descobre que sou brasileiro, ganho um sorriso aberto e uma atitude de extrema benevolência. Roberto Carlos, Calipso, Calcinha Preta, Gabriel Pensador e a Paula Fernandes (ainda bem que ninguém conhece a Sherazade por aqui) são muito populares, e o Ronaldinho Gaúcho também é bastante lembrado.

Praia, a capital do país, ostenta carrões importados que eu nunca tinha visto. São muitos carros importados. A diferença com o Brasil e o choque que a gente toma aqui é que quem dirige esses carrões são os negros. À diferença do Brasil, onde temos raros exemplos de um médico negro, uma professora universitária negra, um empresário negro, um apresentador de televisão negro, uma juíza negra ou um promotor negro, aqui todas as pessoas que são visíveis, se é que me entendem, são negrxs.

Uma coisa curiosa de Praia é que os serviços públicos são sempre pagos. Esta moradia em que estou é paga. O liceu é pago, a universidade é paga, o aborto também. Este último, pelo que ouvi, se tornou legal ainda na década de oitenta como medida de controle de natalidade, e “pegou”, mas se você quiser abortar pode recorrer ao serviço somente até o terceiro mês e precisa desembolsar um valor bastante alto.

Pelo que se ouve por aqui, os filhos dos políticos sempre vão estudar fora do país, e as pessoas estão sempre a denunciar a índole inescrupulosa de seus governantes, tal qual fazemos aí. Neste momento estão asfaltando as principais ruas do bairro onde estou e em muitas destas ruas encontramos o asfalto liso ao lado de vias que sequer possuem passeios. É a cidade para os carros, como aí, no Brasil.

O país precisa importar quase tudo que consume e até agora eu vi pouquíssimas pessoas criticando o consumo. Pelo contrário, muitas pessoas criticam a figura do cabo-verdiano como um povo que gosta bastante de aparecer. De qualquer forma, isso é uma questão interna e acho realmente que não devo me meter. Mas que isso parece com o Brasil, parece.

Ontem ouvi uma história de um cabo-verdiano. Ele me contava que Cabo Verde foi, no passado, um entreposto comercial de escravos. Os portugueses os traziam pra cá para “acultura-los”, palavra dele, antes de vendê-los, no continente americano. Depois que aprendiam o português e deixavam de ser “selvagens”, palavra também dele, estavam prontos enquanto mercadoria.

É preciso que todos consigamos perceber como os mecanismos de exclusão se encontram articulados.. Ainda é muito comum ouvir as pessoas refletindo sobre desigualdade a partir de chaves meritocráticas, sem sequer problematizar essa ideia. Em um video publicado recentemente na internet, sobre uma discussão numa sala de aula na USP, que virou palco de um debate sobre cotas, podemos ver bem a que tipo de comportamento e a que tipo de pessoa estou me referindo.

Ainda são muitos os que argumentam aberta e publicamente que as cotas raciais são um atraso para o Brasil. Essas pessoas, ou ao menos parte delas (e um exemplo é o cara desse vídeo que é contra as cotas) costuma contra-argumetar que estas instauram um processo de racialização da política e provocam uma divisão interna num país em que todos são iguais. Mas será mesmo que somos todos iguais? Muitos são os que acreditam e comungam da falácia da meritocracia, sem considerar que as pessoas estão partindo de lugares distintos. O Brasil está longe de ter reparado sua dívida histórica com xs negrxs. Nesse vídeo, o cara que se diz contra as cotas leva o debate exatamente pra esse ponto, afirmando que “a USP é aberta e que é so estudar que entra”.

Qual é a lógica desse raciocínio? Exatamente a que reforça o preconceito e naturaliza a exclusão dos negros que há séculos vem mantendo um apartheid social que elimina milhares de jovens negros todos os anos no Brasil. Vemos o quão esse raciocício é pequeno e mesquinho porque ele sustenta a tese de que, por exemplo, o concurso de Juíz é aberto a todos, e que só não temos juízes negros simplesmente pelo fato de que a negrada é malandra e não gosta de estudar. - Ah, não tem médico negro? Mas o vestibular é aberto a todos. Então só não entra quem não quer. Eita branquelada estudiosa essa brasileira viu!!!! Santa hipocrisia! Nossa elite e nossa classe média são extremamente Hipócritas.

Sim, as estruturas de exclusão e produção de DEsigualdade se perpetuam e se sofisticam. Se tornam mais emaranhadas no tecido social e se articulam com discursos nacionalistas, machistas, racistas e fascistas. Foram apropriadas pelas elites locais na época dos processos de independência e estão fortes como nunca. Para mim, as diferenças entre um bandeirante e um ruralista são muito poucas, e dizem mais respeito à forma do que propriamente ao conteúdo de suas ações. Enquanto o bandeirante penetrou nas “terras virgens” (e os milhões de indígenas que aqui viviam?), o ruralista avança sobre a amazônia cometendo práticas tão genocidas quanto os primeiros.

Aqui também, portanto, a gente vê isso acontecer. A desigualdade social também é gritante e as mazelas estão muito próximas das nossas. O resultado é bem semelhante. Crime e insegurança em alta, ricos e pobres separados por muros e vidros blindados, salários muito baixos para uma grande parte da população e processos de higienização dos espaços urbanos (exclusão das pessoas consideradas indesejáveis).

A Record é um canal aberto aqui em Cabo Verde e as novelas brasileiras fazem um grande sucesso. No momento os cabo-verdianos se deliciam com Amor à Vida, produzida pelas organizações Globo. Quando vou sair, principalmente à noite, as pessoas fazem muitos alertas. Dizem sempre pra ir de táxi e falam do perigo das ruas.

A onda de medo, que vai sendo inculcada nas pessoas, vai gerando bastante lucro, já que sabemos que a segurança é um grande filão de mercado. Quando se sai na rua, ou mesmo quando discutimos isso com a professora de Sociologia Urbana que está concluindo doutorado na UERJ exatamente sobre esse medo, vemos que a coisa não é o que parece. Ela diz que há uma supervalizaração desse medo e que os números com quais ela está lidando mostram que a violência não tem realmente aumentado como andam dizendo por aqui.

Os números mostram (e eu que não vou caçar esses números) que no Brasil as empresas de segurança privada estão milionárias e com os lucros subindo. Afinal de contas, não dá pra deixar a família desprotegida não é mesmo? E a defesa do patrimônio? Hoje, definitivamente, não podemos ficar desprotegidos! Surpreendente o quanto o Brasil se assemelha nas desgraças com esse país aqui!!!!

Tenho pensado muito no quanto nosso país não olha pra África.  Pensei daqui o quanto desaprendi na escola, por exemplo, muito mais sobre os fortes do que sobre os fracos. E estes, meus caros, estes certamente são os mais interessantes. Como sabemos, todo poder vai sempre encontrar algum tipo de resistência, e a daqui é maravilhosa, como a nossa também o é, mas de forma diferente, pois sabemos ser diferentes em nossa beleza.

terça-feira, 1 de julho de 2014

A mão que não pensa


Cláudio H. Pessoa Brandão – claudiohpb@gmail.com

Há 43 anos aconteceu o maior acidente da construção civil brasileira, que ficou conhecido como Tragédia da Gameleira. 69 operários que trabalhavam na construção do parque de exposições de Belo Horizonte, o Expominas, foram soterrados na queda de um dos pavilhões. De acordo com historiadores que se debruçaram sobre o caso, os operários tinham plena consciência da possibilidade de um desabamento, pois tinham notado várias rachaduras pelas paredes e colunas e frequentemente ouviam estalos emitidos pelas estruturas. Os peões tentaram avisar aos engenheiros sobre os perigos, mas quem ousaria criticar o desenho de Oscar Niemeyer ou colocar em dúvida os conhecimentos científicos do engenheiro-chefe? Os trabalhadores que questionavam a obra eram ameaçados de demissão sumária e até prisão; eram os anos de chumbo do regime militar. Os cálculos matemáticos dos engenheiros garantiam a continuidade da obra à revelia da experiência prática dos operários. Os homens de ciência autorizavam o ritmo frenético das obras organizadas pelo autoritarismo hierárquico. Mais um episódio em que o “intelectual” se sobrepõe ao “manual”.

A polarização trabalho intelectual versus trabalho manual é imemorial, mas são conhecidas as interpretações que lançam suas raízes na antiguidade ocidental. O ócio seria o lugar dos filósofos ou daqueles que se dedicavam à política, consideradas “atividades intelectuais”; o negócio (negação do ócio) seria o lugar do trabalhador, do artesão, do escravo, ou seja, o lugar daqueles dedicados às “atividades manuais”. A Igreja Católica, salvo as exceções de algumas correntes teológicas no interior da instituição, comumente via o trabalho manual como condição de penitência, de castigo. A dimensão material, o mundano ou profano, se contrapõe ao sagrado, alcançável por meio do esforço espiritual. A revelação divina se daria no interior do ser, que deveria resistir às tentações do corpo. O corporal e, por consequência, a atividade manual ficam em segundo plano nos termos da espiritualidade. A cultura que se convencionou chamar de modernidade passa a difundir o ideal do domínio do ser humano sobre o meio material não somente por meio da fé, mas também por meio da razão. A natureza vista como templo passa a ser também laboratório. As atividades mais voltadas para o especulativo, tal como a filosofia e o direito, passam a competir com as escolas de engenharia. Os engenheiros passam a ser formados em um sistema de ensino laico com vistas a desenvolver meios garantidores da ordem moral e do progresso material da sociedade. A medicina se torna mais prática nesse mesmo movimento, o médico passa também a ser cirurgião, atividade antes considerada como degradante por causa do contato direto com as secreções corporais e com as vísceras. Aos poucos a atividade intelectual desinteressada, considerada “filosófica demais”, vai perdendo espaço para uma atividade intelectual cada vez mais pragmática, que responderia com mais eficiência para a modernização e desenvolvimento econômico das sociedades.

Vários cientistas sociais sustentam a ideia de que a desvalorização dos trabalhos manuais no Brasil, tal como pode ter ocorrido na Tragédia da Gameleira, é atenuada pela herança dos quase 400 anos de escravidão. De fato, o país se organizou como uma sociedade de corte e o status era fator de diferenciação social. Como as atividades manuais traziam o estigma de coisa de escravo, dedicar-se as ditas atividades intelectuais seria fator de enobrecimento. Os artesãos que se organizavam em corporações até poderiam galgar cargos de relevância para a comunidade, mas sempre ocupariam lugares menores em relação aos bacharéis. A sua origem social, a sua educação e a cor da sua pele eram fatores dificultadores da expressão de suas opiniões em uma sociedade de doutores brancos.

Quero com o dito até aqui encaminhar minhas reflexões para dois aspectos: (1) o desvalor para com a atividade tida como meramente intelectual, por não dedicar-se a resolução de situações práticas voltadas para o mundo da produção mercadológica; (2) a falsa dicotomia trabalho intelectual-manual que deslegitima o trabalhador não escolarizado ou não acadêmico. Para isso, refletirei a partir um episódio ocorrido comigo recentemente.

O programa de mestrado ao qual faço parte como estudante esteve pleiteando a abertura do curso de doutorado, para isso uma comissão nomeada pelo Conselho de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES) fez uma avaliação presencial da instituição, o que incluía um bate-papo com os mestrandos. As professoras avaliadoras nos deixaram muito à vontade para fazer quaisquer tipos de perguntas sobre a pós-graduação no Brasil. Tão logo tive chance perguntei para as mesmas o motivo pelo qual bolsistas de iniciação científica, de mestrado e doutorado não tem direitos trabalhistas, tal como licença maternidade e os demais benefícios do INSS; a resposta: “Por que vocês são estudantes”. Ora, ser estudante é entendido como uma atividade intelectual desinteressada, não voltada para o mundo da produção de bens consumíveis; ser estudante não gera riqueza. Por isso, não são enquadrados como categoria profissional, não são trabalhadores. Basta receber uma bolsa-auxílio para sobreviver, e aqui está subjacente o entendimento de que é necessário somente um “auxílio financeiro”, como se todos aqueles que se dedicam às pesquisas científicas fosse oriundos de famílias ricas que tivessem condições de bancar as suas elucubrações. Ademais, o que acontece em um grande número de instituições de ensino é que esse auxílio, uma vez que você é selecionado para recebê-lo, impede que você tenha qualquer vínculo empregatício com carteira assinada. Você recebe um auxílio para dedicar-se exclusivamente à pesquisa. Me parece uma permanência da cultura bacharelesca da sociedade de corte, cujas instituições de ensino eram voltadas tão somente para os mais abastados, e aqueles "sem meios" recebiam somente um filantrópico auxílio financeiro. Parece que se formar cientista no Brasil ainda não é coisa para o pobre.

O estudante de mestrado ou doutorado não é regulado necessariamente pelo tempo do trabalho da indústria. Não são poucas as dificuldades para explicar para as pessoas o que “eu faço da vida”. Ciência é uma atividade morosa, difícil e extremamente cansativa. Raramente encontramos estudantes que conseguem ter disciplina para não passar fins de semanas inteiros na frente do computador num verdadeiro "artesanato intelectual", sem falar das prospecções para coletas de dados que se dão nos lugares mais diversos e adversos. Parece que também por não se guiar pela racionalização temporal do mundo do trabalho, por não necessariamente bater ponto, o estudante não é considerado trabalhador. Não estou aqui defendendo que o pesquisador deverá ser enquadrado nos indicadores de produção tal como ocorrem nas indústrias aos moldes da gestão da qualidade; é perigoso cair no erro de querer a ciência regulada por valores análogos aos do mercado. Da mesma forma, um pedreiro que não necessariamente se enquadra no tempo do relógio de ponto comumente é tachado de preguiçoso. Também não estou aqui defendendo aqueles que por ventura não arquem com os prazos combinados, mas quero chamar atenção para a naturalização de um certo tempo do trabalho. É como se as 8 horas (no mínimo) de trabalho fossem tão naturais quanto o nascer do sol. O cumprimento do tempo artificial da indústria hoje parece ser a condição básica para considerar os sujeitos como trabalhadores. Seriam trabalhadores somente aqueles que se submetem as insalubres, longas e pesadas jornadas de trabalho? É uma irracionalidade querer um tempo de trabalho que me permita viver com saúde e com tempo pra me dedicar a outras atividades que não somente aquelas que visam produções voltadas para o lucro? Por não objetivar a produção imediata de bens consumíveis o estudante-cientista vinculado formalmente às instituições de produção de conhecimento não é visto como trabalhador, a ponto de não ter qualquer tipo de seguridade social.

O fato da atividade estudantil ser chamada de intelectual polariza essa com as ditas atividades manuais, como se um marceneiro, uma costureira ou um pedreiro não utilizassem do intelecto para trabalhar. E aqui há o enaltecimento do conhecimento escolar, como se ele fosse o único legítimo. O estatuto das ciências se sobrepõe aos saberes das experiências daqueles que raciocinam por meio de parâmetros não escolares, muitas vezes elaborados de forma autodidata ou transmitidos via oralidade e demonstrações práticas. Cotidianamente os doutores utilizam do status dos seus diplomas para se sobreporem aos trabalhadores não escolarizados ou não acadêmicos. Ao mesmo tempo em que ainda parece existir essa hierarquia entre “intelectuais” e “trabalhadores”, sempre em desfavor do segundo, há o reconhecimento de sua importância. Todos precisam de pedreiros, isso é um fato cabal, mas é comum a seguinte comparação: “É um absurdo um pedreiro ganhar o dobro que um professor...” É claro que os professores brasileiros merecem um salário com um mínimo de dignidade, mas isso não permite desqualificar um saber-fazer que não é diplomado academicamente. Os pedreiros são essenciais para a sociedade e devem ser tratados tal e qual. Mas somente os pedreiros deveriam falar por eles mesmos, há aqui o risco dos "intelectuais" se sentirem no direito de falar pelos "trabalhadores", em um claro vanguardismo. É preciso que todos reconheçam os seus lugares singulares de trabalhadores, todas as categorias, ombro a ombro.

Enquanto isso, vários operários se acidentaram, foram mutilados e morreram durante as construções dos estádios brasileiros que estão servindo à FIFA, mas sem problemas, os engenheiros deram todas as desculpas argumentadas por meio da sua matemática. Enquanto isso, milhares de pessoas ultimamente  se dirigem para a Funfest, a festa da Copa do Mundo, realizada no Expominas em Belo Horizonte, o mesmo da Tragédia da Gameleira. Não há ali um memorial dedicado a lembrança daqueles 69 operários mutilados e mortos. Enquanto isso, eu, um intelectualzinho romântico e idealista, me dirijo para as manifestações Anti-Copa, tendo o trabalho de sonhar. E todos aqueles estudantes que se dão ao trabalho de protestar, de se envolverem em movimentos políticos ao lado de trabalhadores e de fazer de suas atividades intelectuais meios para repensar a sociedade, comumente são tachados de vagabundos por não estarem trabalhando