- Êpa, essa viagem foi muito rápida! - Tô com muito calor! Essa roupa laranja é um inferno. - C viu? Quase morreu. Foi um grande estouro. - Os portões da escolha foi aberto. Saiu um monte de gente de uma vez. Encavalou. - Frita pastel e coxinha Rute. - Vô leva esse pilantra no pau! Zé subiu no andaime. Maria chegou na casa de Andreia para cuidar do Pedrinho. Raimundo acabou desistindo de faltar ao trabalho. Laura faltou e comprou um atestado na praça 7. Ninguém aqui é vítima. Ninguém aqui sou eu.

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terça-feira, 6 de maio de 2014

Nem só de opiniões e batatas vive o homem

Mariana –  marianantunes@gmail.com


“Não sei, não sei. Não devia de estar relembrando isto, contando assim o sombrio das coisas. Lenga-lenga! O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas, talvez por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo”. 


Escrever não é tarefa fácil. Sempre que me proponho a colocar palavras que façam minimamente algum sentido juntas num espaço em branco sofro com inúmeros pensamentos. Um verdadeiro bombardeio! Posto isto, é preciso dizer: tenho (hoje) certa fé na vida e nos seus agenciamentos. Todas as vezes que busquei sintetizar alguma vivencia no papel, me coloquei a observar. Observar para apreender algo de novo. Algo qualitativamente diferente da minha habitual maneira de ser, pensar e vivenciar a vida. Talvez por isso seja tão difícil. Exige-me um novo olhar.
Não se espantem se vez ou outra, quando bem dispostos (por que é preciso estar disposto de verdade), ao olhar à vida com desejo de novos desdobramentos ela te surpreenda com inúmeras situações inquietantes, vivas de possibilidades e colocadas com muito carinho à sua frente. É, de fato, o que acontece.
Por inúmeros motivos estou hoje escrevendo sobre o olhar, pois mesmo que a vida colabore, é preciso ter olhos de ver: capazes de captar o diferente e o potente em cada recomeço. Mas como escrever sobre tema tão sutil? Recorro a Guimarães Rosa para justificar a simplicidade desta fala. Ponderações! É disso que se trata este texto. Questões sobre o olhar, a percepção do mundo, de si mesmo e do outro que venho me fazendo. Este texto é também um convite: conversa comigo?
Eu me revoltava com frequência. Pessoa inquieta, cheia de verdades sobre o mundo e sobre o outro, sobre como as coisas deveriam ser, sobre como todos juntos poderíamos mudar o mundo. Verdades relacionadas a discursos que defendiam a humanidade de suas atrocidades. Em cada menor situação, eu já possuía logo uma opinião (formulada não necessariamente por mim) sobre isso ou aquilo. Falácias...
A vida tem suas rasteiras. Há enganos por todos os lados, mas é pior quando o enganado se considera o dono da bola. Vivi essas rasteiras até me dar conta (perceber!) que tenho uma esfera muito limitada de influencia (o que não significa menos importante!): eu mesma. Há atrocidades no mundo e a questão que me coloco atualmente é: o que fazer com elas? Sinceramente tento não perder a esperança, pois é preciso acreditar minimamente em algo, e escolho acreditar na possibilidade que hoje vejo ao meu alcance ao invés de tentar resolver tudo de maneira despótica e autoritária. Quem sou eu para saber sobre o que é melhor para o mundo? Preciso, ao contrário, ao me deparar com esse mesmo mundo tão heteromorfo, me posicionar. Quão potente pode ser um posicionamento? Como um posicionamento verdadeiramente pensado e vivido pode reverberar? É preciso sensibilizar, e estou inclinada a dizer: tanto o outro como a si mesmo.
Há cerca de quinze dias tive o prazer de vivenciar uma situação curiosa. Dessas que a vida coloca com carinho à nossa frente. Estava com uma amiga em um belo café de Belo Horizonte esperando o inicio de uma entrevista. Não importa agora, em que café ou qual foi esta entrevista. Meu olhar foi desviado para o lugar ao lado do meu. Fomos, eu e esta minha amiga, convidadas por uma solitária senhora a dividir a mesa. Consentimos com um meneio de cabeça e um sorriso: ela poderia sentar-se à nossa mesa. Feito este consentimento continuamos conversando... Sobre a vida! Falávamos sobre a vida. Surgiram argumentos, opiniões, histórias... Pensávamos sobre como anda o mundo e o que andam fazendo do mundo algumas pessoas, amigas ou não. Comemos uma porção de batatas fritas absorvidas pela conversa. Sobre a vida há sempre muita coisa a ser dita... Como fomos distraídas!
Poucos minutos após o fim da porção de batatas aquela mesma solitária senhora se vira para as duas moças que dividiam A MESA com ela e diz: “Vocês se importam de dividir uma porção comigo? Eu pago. Não aguentaria comer tudo sozinha.” Fiquei sem reação. Nossa cara foi ao chão. Que vergonha! Estávamos dividindo a mesa... De que adianta ter ‘uma opinião formada sobre tudo’? Não é disso que se trata. De que vale o meu saber se ele não for importante para fazer com que eu perceba esse outro (qualquer outro) que está ali ao meu lado me convidando: seja menos exclusivista, menos segregacionista, menos... menos... menos... Bem menos!  
Nem só de opiniões e batatas vive o homem. E aí então, as batatas e as opiniões que até então ocuparam aquela mesa se desintegraram do meu campo de visão e eu só pude pensar: quanta incoerência podemos comportar em nossas ações mesmo quando bem intencionados!? Falar é fácil e opinar corrobora para a configuração de uma imagem pessoal plausível de admiração. Mas o quanto estamos de fato implicados naquilo que defendemos?
Enfim... Urgente, é se sensibilizar. Ser preciso é saber o que se está dizendo. Melhor dizendo, é ser capaz, minimamente, de exercer certa coerência na (própria) vida. Terceiro: há uma posição. Posição que implica, necessariamente, sob qual perspectiva você, eu, cada um que compõe qualquer espécie de ‘nós’, percebe o todo e o relativo. Posição, necessariamente, que funda atitudes engendradas e reverberadas socialmente.