- Êpa, essa viagem foi muito rápida! - Tô com muito calor! Essa roupa laranja é um inferno. - C viu? Quase morreu. Foi um grande estouro. - Os portões da escolha foi aberto. Saiu um monte de gente de uma vez. Encavalou. - Frita pastel e coxinha Rute. - Vô leva esse pilantra no pau! Zé subiu no andaime. Maria chegou na casa de Andreia para cuidar do Pedrinho. Raimundo acabou desistindo de faltar ao trabalho. Laura faltou e comprou um atestado na praça 7. Ninguém aqui é vítima. Ninguém aqui sou eu.

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terça-feira, 1 de abril de 2014

Histórias, ruídos e silêncios da Ditadura

 Tiago - tiagohn@gmail.com

 Algumas coisas eu não escuto. Se muito, ouço algum ruído, e só. Murmuro miúdo, lamento sem razão. Outras sim, ouço quase sempre. Histórias diferentes, e até boas, mas dos mesmos sujeitos, sobre os mesmos sujeitos.
Desde pequeno escuto que foi verdade que naquele 1° de abril de 1964 João Goulart foi retirado do governo pelos Militares. Homens maus! Pensando assim, ali pela 7° ou 8° série eu saia das aulas de História, e matutava, “deve ser por que eles têm armas, por isso podem entrar na sala do presidente e dizer: agora o poder é meu”. Daí proibiram músicas, censuraram filmes, novelas, jornais, peças de teatro, fizeram o Chico se mudar para a Itália, exilaram o Gil, o Caetano, mataram e torturaram comunistas, aquelas pessoas consideradas subversivas. Em minha cabeça eu imaginava que devia ser um perigo sair na rua naquela época. Os militares eram muito maus!
Alguns anos depois reparei que vez ou outra os professores usavam o nome Ditadura civil-militar para falar desse momento da História do Brasil. Mas não explicavam, falavam apenas que muita gente apoiou o golpe que derrubou João Goulart em 64, e que o nome civil se referia a esse apoio da sociedade civil. Hummm... já não era mais um bando de homens fardados que queriam o poder e tinham medo dos comunistas! Desconfiado, pensei que deveria haver mais história naquela história. Mas ainda não entendia o apoio àquele governo tão ruim. Sobretudo se era ruim, por que apoiar? É que eu ainda não sabia: o ruim não é ruim pra todos. E achava aquilo tudo muito estranho. Não entrava na minha cabeça essa história de apoiar um governo que não nos permite escolher ou falar mal do presidente, que não te deixa assistir Roque Santeiro ou ouvir Chico Buarque, um governo que tortura e mata aqueles que lutam por uma sociedade mais justa.
Não, a Ditadura não foi só isso, hoje sei! Mas parece que foi. Ou (para ser mais justo) parece que foi principalmente isso. Como se me dissessem, “teve mais coisa, mas isso é o mais importante, o mais legal de saber”. Como adoro as músicas do Chico, e acho a história dos militantes interessante, emocionante e bonita, então nunca achei ruim...até agora.
50 anos após o Golpe, e quase 30 anos depois da redemocratização, aproveito o momento histórico para observar jornais, televisão, seminários, revistas e outros eventos nos cartazes espalhados pela universidade. Olhando superficialmente, vejo que quando o assunto é a Ditadura essa é a história oficial: censura ao teatro, à música e ao cinema; tortura contra estudantes e outros militantes da época; o papel dos intelectuais e da esquerda; o fechamento de instituições; biografias de nomes importantes que lutaram contra o regime. É disso que mais se fala, são estes os assuntos com maior visibilidade.
Se sopro no texto um leve tom de crítica, quero evitar contudo ser mal compreendido. Acho tudo isso muito importante, e fico muito feliz quando descubro que o país já gastou mais de 2 bilhões com o pagamento de indenizações à algumas vítimas da tortura, do exílio, da aposentadoria compulsória e às famílias de desaparecidos. É preciso gastar ainda muito mais. Não consigo imaginar valor suficiente para indenizar Dulci Pandolfi pela tortura recebida, não há dinheiro que pague a indignidade a qual foi submetida, admiro-a simplesmente por conseguir viver depois do que passou.
            Porém, ando pensando numa outra História. Uma História que (hoje) sei que existe, que dá pra fazer, e que implica noutros heróis, em outras vítimas, em outra consciência, em outras reparações. Uma história do golpe que não aponte apenas homenzinhos maus fardados de verde, mas que os aponte, claro. Espero por uma História do Golpe que fale também de uma sociedade violenta, de uma classe reacionária que se beneficia de um sistema capitalista que não é - e nunca foi - incompatível com o autoritarismo. Uma História que fale de nosso compromisso com o passado, e de nossa responsabilidade com o presente. Espero por uma História do golpe que me permita perguntar: e o Amarildo, e o Robson Melão, o Rafael Braga Viera, e o jovem negro acorrentado no Rio de Janeiro, e meus avós, a favela da Maré, a Serra, e a “cidade” de Ribeirão das Neves, e os quase 30% que vivem na ralé em todo país, todos estes não são também vítimas da Ditadura? Se as condições em que vivem estas pessoas foram geradas ou agravadas durante a ditadura, por que elas não são consideradas vítimas da ditadura? Teria sido a Ditadura apenas um evento político, cultural, e responsável por causar apenas sofrimentos individuais, pontuais? Não foi! E não me venham com essa de vítimas indiretas!
            E se com a mesma frequência com que nos lembra da tortura, das músicas e dos filmes censurados (o que é muito importante, repito!), nossa História também nos lembrasse que o Golpe de 64 possivelmente impediu um processo que aumentaria as oportunidades das camadas mais pobres da sociedade brasileira? E se relembrássemos que o governo de Jango chegou a falar em Reforma Agrária? E se nossa Memória discutisse com mais tenacidade o apoio da Classe Média ao golpe? (Queria adjetivá-la de classe média branca, mas a questão racial também não tem muito espaço na História da Ditadura) Quais projetos de sociedade se enfrentaram naquele momento histórico? Qual projeto venceu, e quem perdeu com a vitória desse projeto que resultou no "Milagre Econômico"? E se nossos documentários mais vistos nos lembrassem que os ricos nunca foram tão ricos e os pobres nunca foram tão pobres em nossa história recente quanto no período do “Milagre Econômico”? Se foi um milagre, este Deus foi bom pra quem? Quem chorou sangue para que esse milagre acontecesse? E quem bebeu do sangue, quem mais engordou com ele? Alguém sabe que os níveis de migração aumentaram escandalosamente nesta época, fazendo o número de favelas em São Paulo mais que triplicar durante a década de 70? Até pesquisar para escrever este texto eu também não sabia. Destas Histórias, destas pessoas, dessa gente do povo povo na verdade, muito pouco eu escuto.