- Êpa, essa viagem foi muito rápida! - Tô com muito calor! Essa roupa laranja é um inferno. - C viu? Quase morreu. Foi um grande estouro. - Os portões da escolha foi aberto. Saiu um monte de gente de uma vez. Encavalou. - Frita pastel e coxinha Rute. - Vô leva esse pilantra no pau! Zé subiu no andaime. Maria chegou na casa de Andreia para cuidar do Pedrinho. Raimundo acabou desistindo de faltar ao trabalho. Laura faltou e comprou um atestado na praça 7. Ninguém aqui é vítima. Ninguém aqui sou eu.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Revolução Demográfica no Brasil

Charles

“Era um sistema totalmente maluco. Não é à toa que a gente virou essa sociedade com favelas, deterioração do espaço urbano e criminalidade. A gente fez de tudo para virar isso. Acho até que virou pouco.
Com tudo o que a gente fez lá atrás, é surpreendente como vivemos numa sociedade calma”.
Samuel de Abreu Pessôa, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas.

Lembro-me bem de várias características de minha infância na capital paulista. Da praça em frente a minha casa, do clima de frio acentuado no inverno, do uniforme azul da escola, da garoa. Foi na década de 1980 que vivi minha infância e desta época trago comigo uma série de lembranças marcantes. Em 1985 foi a primeira vez que vi minha mãe chorar, era a morte de Tancredo Neves, lembro-me das maquininhas de remarcação de preços, frenéticas, nos supermercados e meu pai preocupado com os preços que mudavam de um dia para o outro, era o período da hiperinflação no Brasil. Me recordo do pavor imenso que minha mãe tinha em relação a AIDS. Dentre tais lembranças que marcaram e que ainda marcam minha trajetória de vida, como esquecer os almoços na casa do Tio Efigênio, em Guaianazes-SP, eram tantos primos, tantos tios e tanta gente. Era uma casa modesta, com um quintalzinho no fundo cheio de plantações e galinhas. Mas era uma casa cheia de vida. Vida que aos domingos reunia as pessoas, a família e seus agregados.  Foi o mais próximo que estive de uma configuração de “família”, a qual nunca tive de fato. Minha família nuclear era pequena, solitária, meu pai sempre foi um tanto quanto arredio, não gostava de pessoas em nossa casa e saia pouco. Em meados da década de 1990 mudamos para as Minas Gerais e logo ocorreu o falecimento da minha genitora, tornando minha “família” ainda menor. Meu pai, meu irmão e eu. Creio estar ai o motivo de me considerarem tão seco as vezes. Eu acredito que, intrinsecamente, faltou uma grande família em minha formação. Sempre precisei de mais orientação e atenção. Irmãos mais velhos, mais comemorações de aniversário. Natal em família. É tão verdade que busco isso em outras famílias. É sério, fui até agregado, ou melhor, adotado por algumas famílias nesses vários anos. A mais significante é uma família de Belo Horizonte. A família Nascimento, da qual fazem parte o Tiago Heliodoro e a Carol que também escrevem para esse blog. Os natais da família Nascimento são tão emocionantes, tão revigorantes, tão cheios de esperança, verdadeiro natal em família. Casa cheia, presentes, presépio, orações, lágrimas.
Porém, acredito piamente que não poderei configurar uma família nesses moldes, pois não terei vários filhos. Ao contrário da família do meu pai (8 irmãos), ao contrário da família da minha mãe (4 irmãs) e ao contrário da família da minha sogra (12 irmãos). Eu não vejo, em um horizonte de tempo próximo, a menor possibilidade de ter um filho. Não acho que estou preparado. E essa preparação nada tem a ver com minha capacidade psicológica ou meu grau de responsabilidade, isso tudo já tenho. O que me falta é capacidade econômica. Dentro da minha visão de mundo, creio eu não passe nem perto da chance de possuir uma estrutura econômica que possa servir para suprir todas as necessidades de um filho a contento.
Mas engana-se quem acha que estou só, ou que estou exagerando. Essa percepção é cada vez maior no nosso país, principalmente nos centros urbanos. E também não é um costume recente ou passageiro. A diminuição no número de filhos vem se acentuando no Brasil desde a década de 1980. Foi a década de confirmação da Revolução Demográfica no Brasil.
A Revolução Demográfica brasileira tem início na década de 1930, posto que a partir desta época as taxas de mortalidade começam a cair no Brasil, devido aos avanços na medicina, ações de saúde pública e alguma melhora nos padrões de vida. Apesar disso, as famílias continuaram tendo um número elevado de filhos, com média superior a seis filhos para cada mulher até os anos 60. A combinação da queda na taxa de mortalidade com a alta taxa de fecundidade gerou um crescimento rápido da população brasileira entre os anos 40 e 60. Essa sequência de fatos ficou conhecida como “explosão demográfica brasileira”. Na década de 50 a população brasileira totalizava 51.944.397 habitantes, bem longe do resultado do último censo realizado no Brasil em 2010 onde os resultados, apontaram uma população formada por 190.732.694 pessoas. Nos últimos 50 anos houve um grande salto demográfico no território brasileiro, o país teve um aumento de aproximadamente 130 milhões de pessoas. No curto período de 1991 a 2005, a população brasileira teve um crescimento próximo a 38 milhões de indivíduos.
A transição demográfica possui um perfil padronizado, de uma forma geral, que pode ser observado em quase todos os países. Num primeiro momento você tem mortalidade alta e fecundidade alta, com crescimento populacional próximo do zero. É o caso da Europa antes da Revolução Industrial. Com o processo de urbanização, com programas de saneamento básico e saúde alcançando a maior parte da população as taxas de mortalidade começam então a cair, numa velocidade maior do que as taxas de fecundidade, o que gera um rápido aumento da população. Posteriormente cai a taxa de fecundidade e, no último momento, as duas taxas são baixas. É quando você passa a ter crescimento zero ou negativo. É nesse nível que se encontram os países considerados mais ricos, dos quais o Brasil está se aproximando.
Estudiosos da demografia no Brasil concordam que essa fase transitória da demografia é comum a quase todos os países, mas afirmam que existe uma variação na duração e nos efeitos deste período, ou seja, cada país possui características próprias dentro dessa fase de transição. O caso brasileiro, no século XX, foi muito mais rápido do que tudo que já havia acontecido anteriormente. Tomemos como exemplo a comparação entre o Brasil e a Inglaterra. O processo de transição que aqui realizamos em 40 anos, os ingleses levaram 120 anos para concluir.
Quando buscamos identificar um conjunto de razões para explicar o processo que levou a revolução demográfica no Brasil, necessariamente encontramos explicações com bases econômicas. A urbanização e as pressões com o custo de vida a partir dos anos 70 fizeram com que os casais tivessem menos filhos. Outro ponto importante para essa conjuntura é o ingresso da mulher no mercado de trabalho, com o assalariamento, inclusive no mundo rural, elas passaram a ter uma jornada fixa e com isso veio uma pressão para diminuírem o número de filhos.
Professor Titular do Departamento de Demografia da UFMG, Eduardo Rios-Neto, chama a atenção para o papel da tevê neste processo. Nos anos 90 ele participou, ao lado de outros demógrafos e cientistas sociais, de uma pesquisa que procurava analisar a influência das telenovelas no tamanho das famílias. Descobriu-se que a Rede Globo teve, pouco a pouco, um efeito de modernização da sociedade. As famílias que apareciam nas telas nunca eram grandes, ou por ser difícil escrever tramas para famílias maiores ou por ser difícil dirigir crianças. O padrão televisivo teve uma influência considerável em todas as regiões e todas as classes sociais brasileiras. A soma de tudo isso fez com que a taxa de fecundidade no Brasil caísse. Em 1980, as mulheres brasileiras ainda tinham, em média, 4,4 filhos ao longo de toda a vida. Em 1991, eram apenas 2,7 filhos. No último Censo, feito em 2010, cada mulher tinha em média 1,9, filhos, já abaixo da taxa de reposição da população que é de 2,1 filhos por mãe.
A queda na taxa de fecundidade provocou uma revolução no mercado de trabalho brasileiro. O que vemos atualmente no mercado de trabalho brasileiro contraria a lógica da oferta e da procura de mão de obra até então. Até os anos 80 tínhamos no Brasil um crescimento desordenado da população e baixo investimento na educação pública, o que acabou gerando uma mão de obra desqualificada, e que de acordo com a lógica de mercado mantinha os salários baixos. Entre as décadas de 50 e 70 no Brasil, período em que a população mais crescia, o investimento no estudante universitário era até 75 vezes maior que o investimento no estudante do ensino fundamental de escola pública. Obviamente, quem cursava ensino superior público era a elite do país (dependendo do curso ainda é), aumentando muito neste período a desigualdade social no Brasil. O Estado barrava a oportunidade de ascensão social para os pobres – pobreza reproduzindo pobreza.
Segundo o economista Samuel de Abreu Pessôa, pesquisador e professor da pós-graduação em economia da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, essa estrutura que aumentou a desigualdade social no país produziu uma sociedade extremamente conflituosa. “Era um sistema totalmente maluco. Não é à toa que a gente virou essa sociedade com favelas, deterioração do espaço urbano e criminalidade. A gente fez de tudo para virar isso. Acho até que virou pouco. Com tudo o que a gente fez lá atrás, é surpreendente como vivemos numa sociedade calma”.
Com a queda no número de nascidos a população brasileira tende a diminuir o percentual de reposição da população gerando um número menor da parcela ativa, ou seja, de trabalhadores. Devido à diminuição do número de mão de obra os salários tendem a aumentar. Com a intensa queda do número de filhos por mulher na década de 80, o poder público conseguiu colocar a grande maioria das crianças na escola (programas como o Fundef e o Toda Criança na Escola contribuíram para alavancar os indicadores quantitativos desse nível de ensino na gestão FHC. A meta era de colocar 98% das crianças de 7 a 14 anos no ensino fundamental). No final dos anos 2000 essa geração chegou ao mercado de trabalho. Um número menor de jovens e mais bem educados, o que acaba por influenciar a oferta de trabalho no Brasil, posto que a existência de um número significativamente menor de pessoas oferecendo trabalho leva a uma perceptível dificuldade para a contratação de mão de obra, fazendo com que os empregadores valorizem mais seus funcionários. Além disso, o aumento do tempo de permanência na escola destes trabalhadores constituiu uma qualificação, mesmo que pequena, possibilitando o trabalhador o poder de negociação, de mudança. Meu pai, que só estudou até a quarta série, trabalhou na mesma empresa por 20 anos. Ele sempre torcia o nariz quando eu mudava de emprego. Esses fatos retiram um enorme poder dos ricos capitalistas, uma vez que eles precisam dar uma maior valorização aos trabalhadores, como melhorias salariais, para contratar e também manter seu quadro de funcionários. Os benefícios das mudanças geradas pela revolução demográfica são facilmente percebidos quando se observa o índice de desemprego no Brasil nas duas primeiras décadas do século XXI, uma média de 6 a 7%. Ao contrário das décadas de 80 e 90 onde a taxa de desemprego eram muito maiores.
Para além da relevância das modificações históricas que a transição demográfica causou – e continua causando – na sociedade brasileira, é importante ressaltar que o seu papel não é levado em conta como deveria, ou simplesmente não é considerado. Em parte por culpa da nossa mídia, a de maior exposição, que costuma veicular informações superficiais e unilaterais. Por outro lado pela credibilidade, demasiada, que a população dispensa aos discursos político-partidários repletos de interesses muito mais particulares do que públicos.
A revolução demográfica no Brasil coloca em questão as contribuições dos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os anos de 1990 e 1995 a parcela da população de 0 a 14 anos cresceu apena 1%, representando uma enorme queda de crescimento em relação à década anterior, e no período de 1995 a 2000 essa parcela da população teve sua taxa de crescimento negativa, começando então a diminuir. Essa estabilização no número de crianças no Brasil, no início do século XXI, contribuiu para o aumento do acesso a escola fundamental, durante os anos do governo Fernando Henrique, como já vimos. Essa mesma geração começou a entrar no mercado de trabalho dez anos mais tarde, durante o governo Lula, diminuindo, em números absolutos, a oferta de mão de obra, o que acabou por gerar uma necessária valorização dessa mão de obra por parte dos empregadores, devido a sua escassez.  Desta forma, para uma compreensão adequada das mudanças das políticas públicas nos últimos vinte anos e dos avanços sociais mais recentes no Brasil, é imprescindível entender a revolução demográfica no Brasil.
Na comemoração dos dez anos do PT no poder (02/2013), Lula anunciou a candidatura de Dilma à reeleição. “Nós não herdamos nada, nós construímos”, disse Dilma em seu discurso. No mesmo dia, o tucano Aécio Neves, discursou no Senado, segundo ele o PT desde que assumiu o poder está apenas “exaurindo a herança bendita”, que o governo Fernando Henrique lhe legou.
No centro das discussões entre PT e PSDB está o desenvolvimento dos indicadores sociais do país, o controle do desemprego e da inflação, melhora na qualidade educacional, etc.. Os dois partidos querem atribuir a si todo o processo de melhora social que o país vem passando. Os partidos deveriam reconhecer a contribuição da revolução demográfica e suas consequências, propor um debate público e aberto, e a partir deste ponto propor melhorias e aprofundamento dos pontos que já estão sendo desenvolvidos. Diante de um processo tão incisivo e que se configurou em longo prazo como a revolução demográfica no Brasil, nossos políticos discursão como verdadeiros salvadores da Pátria.

terça-feira, 12 de maio de 2015

O texto é breve, sugestivo e não tem fim

João Henrique

Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo”. É com um fragmento de fala de Michel Foucault que esse texto será tecido. E tem por objetivo ser breve, sugestivo e não concluir.
Classificar. Categorizar. Identificar. Especificar. Determinar. Catalogar. Rotular. O homem. A mulher. O negro. O branco. O heterossexual. O homossexual. O que você é? O que você faz? É preciso desconfiar de todo processo metódico que busca reunir determinadas características (observáveis ou não) e determinar o pertencimento a um grupo, classe, ordem, gênero, espécie, família. Não existe nenhuma formação concreta que não seja possível (hoje ou ao longo da história) ser modificada, transformada, alterada, multiplicada. É preciso acreditar nas falhas, nas quebras, nas fissuras, nas lascas, nos movimentos inesperados que promovem rachaduras, desmoronamentos, destruição. É preciso acreditar no entre, naquilo que está para além dos binarismos. É preciso acreditar na dobra, no movimento sem forma que produz um outro, um múltiplo, um que ainda não há. É preciso acreditar no Terceiro, naquilo que se forma no encontro de dois, de três, de muitos, de todos. Parafraseando Walt Whitman, é preciso ser grande, conter multidões.
Sugiro a diferença àquilo que determina. Sugiro o incomum. Aquilo que não sabemos dizer o que é, aquilo que estranha, pois o que estranha causa deslocamento, faz pensar (ou faz aparecer o preconceito, a violência, a ignorância). Que o diferente (de você) te aponte outras possibilidades. Te diga que nem todos são como você. Nem todos devem ser como você. Que o diferente seja não o outro, mas você. Que sejamos todos diferentes e que saibamos nos diferenciar de nós mesmos a cada dia. Que dizer quem somos seja sempre uma incógnita e que permanecer o mesmo seja sempre uma impossibilidade.
Fujamos! Fujamos da maldita regra de classificar tudo. Fujamos do absoluto, do universal, da essência, da forma, da concretude. Fujamos da impossibilidade de não ser múltiplo, da impossibilidade de criar novos modos de existência. Fujamos do fundamentalismo (e não dos fundamentalistas), do extremismo (e não dos extremistas), dos excessos, do radicalismo (e não dos radicais). Fugir e recusar esse lugar comum de submissão, ignorância, negligencia, passividade.
Abandone as verdades universais. A verdade é uma ilusão. Ser homem hoje não é como no século passado. Ser mulher hoje não é como no século passado. Homem e mulher hoje, não são os mesmo de ontem. O homem. A mulher. Não existem. Se os artigos definidos (O; A) definem, é apenas pelo fato dessa língua ser cruel, favorecer a uma dominação, ao binarismo, ao preconceito. Desconfie do sujeito imaculado. Desconfie do sujeito que se diz formado, exato, correto, concreto. No lugar da forma, use o informe. No lugar do uno, use o múltiplo. No lugar de dizer o que é, viva, seja, experimente.
Se é para ser algo, seja político no seu ato de ser. Seja político para lutar por direitos. Seja político para romper com os binarismos que geram preconceitos. Seja político para mostrar a diferença. Seja político para fazer aparecer. Que sua cor, sua orientação sexual, sua classe... sejam objetos de luta.
Nesse ponto, te pergunto: você pode ser diferente do que pensa ser? Você é um? Pensa hoje como pensava ontem? Pensar é preciso. Não me importa quem você seja. Mas importa que não permaneça o mesmo. E finalmente, que não haja fim. Nenhuma conclusão. Nenhum término. Sempre continuidades. Que o passado não seja causa de nenhum efeito presente. Que o presente não seja efeito, mas seja experiência, modos de existência, processos, experimentações.
Como anunciei, o texto foi breve, com muitas sugestões (nenhuma verdade) e nenhum ponto de partida ou ponto de chegada. Que haja entre ele e você um entre, uma lacuna, uma brecha que pode (ou não) reverberar...

terça-feira, 5 de maio de 2015

Feio é arrastar e nem perceber

Maurinho

Começo dizendo que esse texto não tem como objetivo "cagar regra" ou impor uma visão radical sobre o tema abordado, e tem como objetivo apenas fazer uma breve reflexão sobre um assunto que considero muito pertinente. Decidi escrever sobre algo que tem estado presente cada vez mais no meu dia a dia, o RAP nacional, o qual considero, antes de qualquer crítica musical, uma forma de fazer política, aliás a música no geral pode ser entendida assim. Contudo, de todos os estilos musicais talvez o rap seja a forma mais explícita de ser fazer política, porque assim como o funk ele é a voz de lugares e pessoas pouco frequentes em colunas sociais, mas muito presentes em dados estatísticos, pessoas e lugares que são problemas de carnaval a carnaval.
Hoje meu interesse pelo rap não se dá por moda, mas por me ver em muitas letras, principalmente quando estas se referem a autoestima e aos desafios enfrentados pelo negro,  sempre entre o sucesso e a lama, e comigo não é diferente. Me fascina em muitos cantores de rap o fato de escrever sobre problemas sociais em suas letras de uma forma que cientista social algum escreveria em um artigo, haja visto que gostam de favelado mais quenutela.
Por entender todo o peso e história do rap nacional uma coisa vem me incomodando, e é justamente essa ascensão do rap em proporções midiáticas. Eu até achava legal ver o Emicida na globo, e embora essa sua postura tenha sido muito criticada por muitos fãs de rap eu achava justo que um cara que já mordeucachorro por comida, e que provavelmente não deve ter tido bicicletaou video game, querer o mundo assim como o tal cidadão kane.
Mas há algumas semanas atrás eu comecei a enxergar essa questão por um outro prisma, a partir de um fato que sinceramente me incomodou muito. Quando assisti ao show do Criolo em Paris, um show muito bem produzido no que diz respeito a figurino e palco, tomado por uma plateia majoritariamente branca e elitizada e sem qualquer interesse em analisar friamente o que era cantado ali. Percebe-se que o publico era composto em sua maioria por brasileiros que moravam na França, muito diferentes “das 10 mil pessoas em uma favela na quermesse do campão” cantada pelo rapper em Sucrilhos, música essa que é um tapa na cara exatamente daquela galera que estava ali curtindo o espetáculo. Me incomodou ver uma moça curtindo a "vibe" em uma musica que dizia "As criançada aqui tão de HK" sem fazer qualquer tipo de reflexão sobre aquilo. Será que ela entendeu que a criançada tá de HK na mão? HK arma, sabe qual é? É duro imaginar que essas mensagens estão sendo jogadas no vácuo, para uma galera que “acha que ta bom, que tá umafesta”, mas e o menino no farol? Ahh esse se humilha e detesta.
Mas talvez mais duro seja ver a parcela de culpa muito significativa do próprio rapper, no caso o Criolo, que notoriamente é conivente com aquilo à medida que faz de suas músicas um produto de consumo da classe média, público que ele dedica sua obra a criticar. Quando digo que o rap que o Criolo faz é um produto com público alvo, me baseio na sua nova estética musical, arranjos bonitos, arrastados, audíveis a ouvidos mais cultos, e talvez por esse motivo não seja tão difícil ignorar que “AR15 e mato e os moleques tão de fuzil”. Mais difícil é ignorar que Deus precisa andar deblindado nas periferias paulistanas através de uma voz seca, calejada, rancorosa que não traz consigo nenhuma preparação com gargarejo ou exercícios vocais, só a raiva de cantar a desgraça que vive. 
Tudo isso me remeteu a um caso que aconteceu comigo quando uma colega de trabalho, filha de uma médica, uma coxinha ao extremo, daquelas que solta perolas do tipo "Meu cachorro é mais chique que muita gente", e que foi a um show do Criolo e voltou dizendo que precisava mudar seus conceitos. Porém, os conceitos de que ela falava não se referiam a uma visão mais humana e menos egoísta sobre problemas sociais e sim aos seus conceitos em relação a estilos musicais, porque a partir daquele show ela percebeu que o rap é bom e gostoso de ouvir, agradável até. Essa nova cara do rap presta um deserviço aos demais grupos de rap ao ponto que acabam sendo marginalizados e perdendo para essas pessoas sua legitimidade, porque o novo Criolo é tido como referência do que é rap e o Facção Central associado à musica de bandido. O Criolo doido agora é "Criolê" e não parcelou toda aquela gente indigesta no cartão, acabou fazendo deles um belo investimento à curto prazo.  Entendo que o rap faz muito mais que areligião e o cassetete usado em vão, mas ele precisa ser entendido, discutido, criticado, e nunca ter sua essência ignorada por vaidade.

terça-feira, 28 de abril de 2015

DESENHANDO OS FEMINISMOS

Mayara Mattos



Vou aproveitar o gancho do texto da Carol (http://blogterceiroopiniao.blogspot.com.br/2015/04/oamor-tem-cor-1-muitas-mulheres-negras.html) para continuar falando com as mulheres. Nas últimas semanas as notícias mais lidas e que entraram nos círculos de debates (principalmente via facebook) foram casos que envolviam violências de gênero[1].

No dia internacional da mulher (detalhe: tinha acabado de voltar do DiversaS: Feminismo, Arte e Resistência, evento de muita sororidade e força, organizado por mulheres maravilhosas), entrei numa discussãoem que um homem cis* hetero branco e de classe média alta defendia em uma postagem no Facebook que não há necessidade das mulheres se vitimizarem para alcançar seus objetivos. O post é de uma mulher branca segurando um cartaz em que ela se posiciona contra o feminismo[2]. Descobri depois que existem alguns canais de mulheres que se dizem contra o movimento e ridicularizam mulheres emancipadoras[3]. Isso não me assustou muito, pois compartilho das proposições de Paulo Freire que defendem que enquanto a educação não for realmente libertária, a tendência do oprimido é uma dia querer se tornar o opressor. Além de que, sugiro que essa resistência que algumas mulheres possuem em relação aos movimentos feministas talvez aconteça devido ao alinhamento de muitas de nós a posições delimitadamente de esquerda, o que contraria aquelas em suas posturas neo-liberais, em que a preocupação maior gira em torno de uma maior inserção da mulher no mercado de trabalho, ou seja, a uma emancipação quase exclusivamente econômica. 

Decidi escrever esse texto no intuito de esclarecer porque os feminismos (sim, no plural, pois não existe uma pauta com uma direção para o movimento e a luta é interseccional), são fundamentais nas desconstruções de processos naturalizados, como o que a Carol explicita no texto da semana passada, além de serem preponderantes na luta que visa o empoderamento feminino e contra o "cistema" sexista. Talvez, com esse tipo de reflexão fique mais fácil entender essas questões que são tão caras as feministas e muitas vezes ridicularizadas não só pelos machos alfa como também por mulheres que dizem não compartilhar da luta.

A postagem em questão não é um caso isolado, comentários que direcionam os movimentos feministas para a lógica da vitimização são constantes (passei por uma situação, poucos dias antes, envolvendo uma agressão a uma mulher que também foi desclassificada por um homem cis, afirmando não ter ocorrido machismo no caso em questão), isso ocorre até mesmo entre os revolucionários de esquerda[4] e com muito mais frequência do que se imagina. Cansei de ouvir todos os tipos de chacotas e insultos ao me posicionar como feminista, seja no sentido de desmerecer o movimento ou como simples alegoria de uma mulher que quer estar na posição de um homem, inclusive acionando o termo feminazi, que pretende alinhar às feministas a posições de intolerâncias quanto aos homens (Desculpem por não querer me submeter e ser benevolente com seu machismo, ops… nenhuma desculpa). Muitos desses comentários esboçavam um completo desconhecimento a respeito dos movimentos feministas e das diversas pautas em proposição. Assuntos de "mulheres" tendem, realmente, a serem invisibilizados, os espaços de discussão são minimizados e relegados a futilidades, e é assim que muita gente generaliza o feminismo. Os machismos diários estão nos detalhes[5].

Quando digo que a luta é interseccional, penso exatamente nas categorias que se cruzam, desenvolvendo uma postura mais voltada a questões de gênero, classe ou raça, a depender da trajetória que cada sujeitx foi traçando. É muita inocência achar que pelo fato de alguns setores da esquerda defenderem a dissolução de todos sistemas de privilégios, esses discursos serão completamente absorvidos por todas as pessoas de modo semelhante. Somente uma mulher (cis ou trans) sabe as dores que o machismo e a misoginia imputam diariamente, quem sofre as mais variadas formas de violências, nesses processos, são corpos femininos. E se levarmos em consideração o intercruzamento das categorias identitárias, os corpos de mulheres negras/indígenas e pobres estão muito mais vulneráveis aos interpostos do patriarcado. 

É por isso que me irrita profundamente o fato de homens se sentirem no direito de afirmar se uma mulher sofreu ou não machismo, e pensando por essas identidades múltiplas, o que faz um homem ou uma mulher branca achar que ele/ela sabe exatamente o que uma mulher negra e/ou pobre quer e/ou precisa ou como ela deveria viver? Pra quem nunca sofreu racismo, machismo, homofobia (lembrando que isso pode acontecer tudo junto) nem qualquer outro tipo de segregação/opressão, nunca vai saber o que é estar na posição do oprimido, mesmo quem adere aos movimentos e se dizem progressistas ainda não podem se colocar nesse lugar, a fala do negro/da mulher/e qualquer grupo em situação de desigualdade deve ser sempre respeitada. Homens brancos tendem a querer pautar qualquer discussão como se fossem sempre especialistas, pois acostumaram a serem legitimados e autorizados em se posicionar com muita facilidade no lugar dos "outros".

Iniciei esse texto expondo os recentes casos de violência de gênero, as quais poderíamos incluir (infelizmente) uma longa lista, inclusive o caso hediondo de agressão sofrida por Verônica Bolina[6], trans torturada e exposta a grande humilhação por agentes estatais. Fatos menos chocantes, mas não menos violentos, como o caso de um professor de direito da PUC[7] que afirmou em sala de aula que "leis e mulheres foram feitas pra serem violadas" também demonstram a enorme defasagem que a falta de discussão em termos colocados pelos feminismos pode causar.

Machismo, lesbofobia, transfobia, sexismo… tudo isso mata. Feminismo empodera mulheres, constrói relações mais horizontais, discute e tenta proporcionar uma dinâmica de vida que contemple as especificidades femininas, respeitando a diversidade e desconstruindo normatizações que só servem aos interesses do Estado patriarcal. Por isso, convido quem não conhece ou não leu o suficiente a respeito, que se informe a partir dos textos sugeridos (ou por meio de outros também) e se abram para espaços mais inclusivos de discussão e autonomia. Que aprendam a dividir privilégios, não monopolizando suas categorias apenas para interesses que o satisfaçam, que se juntem às mulheres, não para falar sobre elas, mas para construir com elas, respeitando seus lugares de falas e atentando a possíveis opressões que podem ocorrer nas diferentes relações cotidianas.

Assim, "seguiremos em luta até que todas sejamos livres!"  


* O alinhamento cis envolve um sentimento interno de congruência entre seu corpo(morfologia) e seu gênero, dentro de uma lógica onde o conjunto de performances é percebido como coerente. Em suma, é a pessoa que foi designada “homem” ou “mulher”, se sente bem com isso e é percebida e tratada socialmente (medicamente, juridicamente, politicamente) como tal.





quinta-feira, 23 de abril de 2015

O AMOR TEM COR?[1]

                                                                                                               


Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.  Bell Hooks


                                                                     
Um pouco antes de passar pelo processo de transição capilar, [contei sobre isso aqui: http://blogterceiroopiniao.blogspot.com.br/2014/06/se-o-cabelo-e-meu-deixa-eu-cachear.html] passei por um período no qual eu buscava ler estudos e blogs que tratassem de assuntos sobre a questão da consciência identitária da mulher negra e sua relação com o cabelo. Acontece que em uma dessas buscas acabei me deparando com uma temática que me intrigou muito e da qual eu nunca havia me questionado: “o mercado matrimonial da mulher negra e a decorrente solidão afetivo-sexual”[2].

Li diversos relatos de mulheres negras, de diferentes classes e capital cultural, e todas traziam uma narrativa muito parecida no que concerne aos relacionamentos afetivos. A narrativa dessas mulheres me fez perceber que muitas das situações vividas por elas eram parecidas com as minhas. Foi um choque me deparar com isso. Eu não sabia (e ainda não sei) como lidar com aquilo (isso). Por um lado, eu estranhava o porquê de nunca ter me questionado sobre isso, por outro, passei a reviver em memória toda minha vida afetiva com outro olhar, um olhar menos iludido e menos naturalizado. E fazer isso foi e ainda é muito doloroso pra mim, porque de repente passei a perceber que diversas situações vividas e não-vividas talvez estivessem relacionadas com a cor da minha pele.

Tenho 27 anos e nunca namorei. Nunca havia passado pela minha cabeça que ser uma mulher negra pudesse ser um fator relevante para justificar essa minha condição, mas hoje penso que o fato de eu ser uma ‘garota estranha’ (essa era uma das minhas justificativas), talvez não seja o único fator determinante na dificuldade de manter um relacionamento afetivo.

Minha vida amorosa é marcada por uma infinidade de amores platônicos, sempre marcados por expectativas dentro de uma lógica onde nada é realmente impossível enquanto nada é possível. Meu primeiro amor do jardim de infância já era um prenúncio do que seria minha [não] vida afetiva. No primeiro dia de aula eu me apaixonei por um menino da sala, morria de amores pelo tal Rodolfo, mas ele gostava e vivia atrás de outras duas meninas da turma, gêmeas, branquinhas, bonitinhas do cabelo perfeito. A adolescência foi terrível, durante todo o meu período escolar eu nunca fiquei com alguém da minha escola. A verdade é que nunca me senti bonita e muito menos desejada por nenhum dos meninos da escola. Alisava meu cabelo numa tentativa frustrada de me encaixar em um padrão de beleza feminina, mas mesmo assim eu não era a garota “escolhida”. Eu era a amiga, o “brother”, servia de ponte entre minhas amigas e seus pretendentes, era o cupido que agilizava os encontros, e só. Eu, sendo magra, tímida e tida por alguns como ‘cdf’, não me enquadrava nem no perverso esteriótipo da negra sexual. Eu era quase que invisível.[3]

A minha vida acadêmica não foi muito diferente disso, cursei Direito em uma Faculdade particular, no período da tarde. Se eu não era objeto de desejo de garotos adolescentes em uma escola pública, imagina num ambiente como esse? E assim foi sendo construída [?] minha vida afetiva [?] durante todos esses anos. A solidão sempre foi algo presente.

Há pouco mais de um ano passei a usar o meu cabelo natural, está sendo uma mudança não apenas externa, tenho repensado muito sobre minha auto-estima e identidade. Estou num processo árduo de tomada de consciência de mim mesma e da maneira como me relaciono com as pessoas. De modo geral, posso dizer que a resposta tem sido positiva em relação a minha imagem, me sinto mais bonita e recebo mais elogios. Já não me sinto tão invisível ao desejo masculino. Mas ainda assim continuo sem vislumbrar qualquer perspectiva de um relacionamento duradouro. Quando conheço alguém é impossível não pensar nas implicações e dificuldades de um relacionamento inter-racial, impossível não cogitar a ideia de que provavelmente não serei preferência na escolha de um cara que queira um ‘relacionamento sério’.

É evidente que essa dificuldade afetiva não se restringe apenas ao âmbito racial, ela se mistura a questão de classe, ambas questões estão intimamente imbricadas[4]. Nos ambientes que costumo frequentar não encontro muitas pessoas negras, principalmente mulheres negras.[5] Sei do meu lugar ‘privilegiado’, sou advogada, estou terminando minha segunda graduação e apesar de não ter um sentimento de pertencimento de classe com a classe média, estou ciente de que compartilho com ela, em certa medida, um capital cultural. Compartilho inclusive um ideal de homem para me relacionar, confesso que nunca tive o homem negro como objeto de desejo, e o inverso também é verdadeiro, geralmente homens negros tem preferência por mulheres brancas[6].

Você pode estar se questionando: “ah, mas isso é questão de gosto, de preferências, não tem nada a ver com a cor da pele.” Bourdieu, um sociólogo francês, diz em seus estudos que a ideologia mais bem sucedida é aquela que não precisa de palavras, ela se dissemina de maneira opaca e invisível. Desde a infância, através do aprendizado, cada um de nós é formado de maneiras diversas e imperceptíveis. Somos ensinados, desde a infância mais remota, a formar julgamentos sobre o mundo que nos cerca, nossas noções de belo, feio, perigoso, do que devemos gostar e do que não devemos gostar. Além da escola, a televisão, os amigos, as pessoas com quem nos relacionamos, enfim, tudo o que nos cerca contribui para nossa formação pessoal, para a formação do que chamamos de nosso “gosto”.

Forma-se nosso habitus, ou seja, uma certa forma de relacionar com o mundo, com as pessoas, e com as coisas. Um jeito de mexer, de agir, de classificar, de avaliar o mundo, de fazer escolhas quase que sem pensar, naturalmente. O gosto se manifesta nesse sentido, como um senso de distinção. É assim na construção de uma estética da mulher ideal para se ter um relacionamento[7]: mulher branca para o casamento, a mulata para o sexo e a negra para o trabalho.

Conversando com uma amiga sobre nossa dificuldade de relacionamento fixos, em certo momento ela me disse “eu sei que por mais que eu estude, crie minha independência, dificilmente vou me casar, tenho consciência de que nunca serei suficientemente boa como uma mulher branca nessas mesmas condições.” Foi com muita tristeza que ouvi essas palavras, porque no final das contas parece que é isso mesmo, passei anos da minha vida tentando entender o que havia de errado comigo, questionando como que outras garotas nem tão bonitas e nem tão interessantes tinham tanta facilidade em se relacionar.

O amor tem cor? Sim, o amor tem cor, uma vez que, sistematicamente as mulheres negras são preteridas por homens negros e brancos na escolha de parceiras para um relacionamento afetivo. É preciso dar visibilidade a essas questões, somente assim podemos iniciar um processo de modificação de práticas tão naturalizadas em nosso cotidiano.

Empoderamento afetivo, auto-estima e representatividade são importantes instrumentos para lidar com a solidão afetiva, seriam talvez uma forma de transformar a solidão e a dor em liberdade... [ou quem sabe em amor?]


Caroline Louise 
e-mail: carolinelouise3@gmail.com







  


 [1]  De acordo com o Censo 2010, 52,89% das mulheres negras estão solteiras, 24,88% estão casadas e 2,60% divorciadas. O mesmo Censo aponta que as mulheres negras são as que menos se casam e as mais propensas ao “celibato definitivo”.

[2] Dentre os estudos que trata a questão afetivo-sexual da mulher negra destaco a dissertação de mestrado de Claudete Alves “A solidão da mulher negra- sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro na cidade de São Paulo”; e a tese de Ana Pacheco “Branca para casar, mulata para f..., negra para trabalhar: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia

[3] “Nunca namorei no colégio, e pra mim isso era normal”: https://www.youtube.com/watch?v=VQVbXk39iKE

[4]  É comum nos relatos das mulheres negras o fato de que muitas, para conseguir um relacionamento fixo acabam se relacionando com parceiros de grau de escolaridade menor que o delas.

[5] Os negros que encontro nos lugares em que freqüento, geralmente são empregados. Não é difícil me encontrar em situações acadêmicas, restaurantes e até festas em que sou a única negra. É assustador.

[6] Alguns estudos, e até mesmo algumas mulheres apontam que o homem negro de melhor condição social prefere a mulher branca. O trabalho da Claudete Alves, mostra que é incorreta essa afirmação, uma vez que, sua pesquisa demonstrou que o homem negro tem preferência pela mulher branca independente de qual seja sua classe social.

[7] Existe também o machismo que estabelece as “mulheres pra casar”, sendo a mulher branca também vitima dessa prática. Porém, no caso da mulher negra, seu corpo é apenas um objeto, não há divisões desse tipo, mulher negra não é mulher para casar.








  












terça-feira, 14 de abril de 2015

Sobre outros Eduardos ou Pelo poder da gente do lugar

Tiago

Hoje eu gostaria de usar esse espaço para falar do Eduardo, o menino de 10 anos que foi assassinado no Rio de Janeiro há alguns dias. Digo gostaria por que na verdade eu acho que não devo. Por isso vou tentar não falar exatamente dele, ou por ele. Ultimamente tenho tido muita dificuldade para falar dos outros, sobre os outros e, principalmente, sobre estes outros, sobre estes Eduardos. Quem sou eu para falar do Eduardo, da dor que sente sua mãe, sua família? Da dor que sente seus amigos que, aliás, continuam vivendo no mesmo lugar, só que agora sem o Eduardo, que partiu junto com toda família para outro lugar.
Quando penso nisso, penso que talvez aquele lugar já não seja mais o mesmo, e que por isso já não seja mais tão lugar assim, principalmente para aqueles que conheceram o Eduardo. Penso que talvez aquele lugar tenha mudado, e que agora seja outro. Mas disso, só pode dizer quem vive por lá. Só quem continua passando por aquele beco sabe e sente como aquele lugar foi e como ele é agora, depois que o Eduardo partiu. Ele deve fazer uma falta que eu daqui só posso imaginar, afinal, eu não conheci o Eduardo, e nem moro no lugar.
Nas últimas conversas com meus bons amigos, temos falado que nesse momento talvez o melhor não seja falar do Eduardo, desse Eduardo. Menos ainda falar por ele, pela mãe, pelos amigos ou pela gente dele. Temos pensado que talvez (nesse momento) não seja esse o “nosso” papel. (“Nós”: essa gente que fala, escreve e tenta explicar as coisas no jornal, nos livros, na universidade, ou no Terceiro, por exemplo). Nesse momento, entendo que mais importante é falar de quem matou o Eduardo. Não que devamos deixar de falar, de denunciar, de sentir sua morte. Não é isso que eu estou dizendo. Mas acho que não devemos falar apenas dele.
O que quero é propor uma reflexão sobre a violência que é falar por e sobre alguém. E assim dizer que, se temos que falar sobre alguém, que falemos menos dos Eduardos de Jesus, e mais dos Eduardos Bittencourts, Albuquerques, Neves, Paes, Cunhas, Vieiras, etc. Daqueles que provocam mortes sem sujar suas mãos. Daqueles Eduardos cujos pais e avôs dão nomes às nossas principais ruas, escolas, avenidas e grandes empresas. Dos que moram em outros bairros, que andam em outros carros, que trabalham em escritórios, tribunais, universidades, hospitais, dos que falam na televisão. Dos Eduardos que falam sobre “os outros” como se tudo soubessem sobre “eles”, como se tudo soubessem sobre o lugar dos outros mais que eles próprios. Proponho falarmos mais dos Eduardos que falam do Brasil todo como se ele todo fosse seu lugar. Proponho falar não dos que morrem em becos, mas dos que morrem no hospital Albert Einstein, dos que são enterrados na terra pátria em que nasceram e cresceram, sepultados entre homenagens, granitos e flores.
Lembremos que os pais do Eduardo assassinado no morro do Alemão não quiseram enterrá-lo naquela cidade. Levaram o menino para a cidade de Corrente, no Piauí. Escolheram enterrar o filho num lugar de onde se sentem parte, talvez onde se sintam queridos, acolhidos, importantes. Talvez o lugar de onde partiram, um dia, para tentar uma vida melhor na cidade maravilhosa. Porém, a julgar pelas palavras de Teresinha, mãe de Eduardo, que trabalhava de doméstica no Rio de Janeiro, acho que eles notaram que a maravilha era uma cidade, e que na cidade não cabe “todo mundo”, não pode ser um lugar para todo mundo.

 “Eu quero tirar o meu filho daqui, quero enterrar no Piauí. Vou levar o corpo do meu filho para o Piauí. Vou voltar [ao Rio] porque eu quero justiça e depois eu vou embora para lá. Não quero ficar nesse lugar maldito eu vou sair daqui”, afirmou. (G1- http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/04/mae-de-menino-de-10-anos-morto-no-alemao-diz-que-vai-deixar-o-rio.html)

Não deve ter sido fácil aumentar ainda mais o número de burocracias que a morte de um parente nos impõe, adiar as cerimônias de despedida do filho, tudo isso para que o menino ficasse num lugar que realmente o merecesse, um lugar que fosse digno de sua lembrança. Penso que mesmo do meio de todo esse sofrimento eles nos ensinaram muita coisa, coisas que a gente até já sabe, mas que não se lembra sempre.
Ao nos dizerem que o Rio de Janeiro não serve para eles (essa cidade que se diz a grande representante do país, que quer ser todos os lugares, como se tudo que se vivesse lá fosse o mesmo que se sente e se vive em todos os outros lugares do país), Terezinha e José Maria nos ensinam que não existe Brasil, pátria, nação, existe lugar. E esse é de cada um, de cada gente. Parece que, para eles, aquela cidade não se tornou um lugar, eles não encontraram um lugar naquela cidade.
Não sei se me fiz entender bem, mas o quero dizer é que precisamos falar mais dos Eduardos que falam sobre a Cidade, nos perguntando e perguntando para ele por que ele se acha no direito de falar pela Cidade, como se toda ela fosse seu lugar? Quando a gente sabe muito bem que lugar é uma coisa da gente, é uma coisa de quem conhece, de quem vive lá. E sendo a cidade tão grande, do tamanhão que dizem ser, como é que pode alguém poder falar por toda a cidade? Como pode alguém falar sobre esse tanto de lugar em que nunca viveu? Sobre um tanto de Eduardo que nunca conheceu?
Temos que questionar, por exemplo, que Direito tem o Eduardo “Especialista em Segurança” de definir qual a melhor “política de segurança” para um lugar que ele nunca viveu. Você deixaria alguém que não mora na sua casa, sem te consultar, decidir qual a melhor forma de protegê-la, de proteger a sua família? Penso que isso não é possível. Se ele não sabe do que a sua família sente medo, se não sabe o que você considera uma ameaça, e do que sua família quer se proteger, como ele pode decidir do que você e como você deve proteger? Se esse “especialista” acha que pode ajudar, ele deve começar levando a sério o que as pessoas da sua casa têm a dizer, e tem de oferecer sua ajuda a partir das escolhas que sua família fizer, e não decidir o que sua família deve escolher.
Agora transfira essa reflexão para sua rua, para o seu bairro, para o morro do Alemão, ou para o Aglomerado da Serra. Como uma “política de segurança”, “de moradia”, de “pavimentação”, de “revitalização” pode ser implantada naquele lugar sem que os moradores do lugar sejam ouvidos – e levados a sério? Do que as pessoas do lugar querem se proteger? O que as pessoas do lugar consideram perigoso? O que consideram uma ameaça à convivência naquele lugar? De que forma eles querem se proteger? De que jeito elas querem morar naquele lugar? O que elas querem arrumar, consertar, construir naquele lugar? Com que materiais, com quais pessoas, de que forma as pessoas do lugar querem construir aquele lugar? Tenho a impressão que a família e as pessoas que vivem no lugar onde Eduardo viveu e morreu não tem sido muito ouvidas sobre o que querem para o seu lugar.

terça-feira, 7 de abril de 2015

A CUMBIA PSICODÉLICA PERUANA


A CUMBIA PSICODÉLICA PERUANA

                                                                                                        Por Ric



                                                                                                                                

Trilha sonora do apartamento 201 do bloco 6 da MOP II (residência estudantil da UFMG), “The Roots of Chicha – Psychedelic cumbias from Peru” é um álbum-coletânea, compilado em 2007, destinado a divulgar um estilo de música muito contagiante, surgido na década de 60: a cumbia psicodélica peruana.

Muito mais conhecido nos outros países da nossa América, a Cumbia parece ter surgido na Colômbia, incorporando influencias bastante diversas. 
Especificamente sobre a cumbia psicodélica, uma coisa interessante que notamos - ao reproduzir o álbum em diversos contextos em nossa república aqui na moradia - foi a sensação recorrente de “soar bem aos ouvidos” de nossos visitantes. As pessoas, em geral, percebem ao mesmo tempo a novidade e a semelhança com algo que não conseguem identificar exatamente. Por isso gostaria de divulgar esse álbum como uma sugestão para que possamos expandir nosso repertório musical sulamericano. Por meio da cultura nos tornamos mais outros e menos nós mesmos, e vice-versa. Temos mais semelhanças com nossos hermanos andinos do que estamos acostumados a imaginar. Saludos!


Faixas:

1. Sonido Amazonico - Los Mirlos
2. Linda Nena - Juaneco Y Su Combo
3. Carinito - Los Hijos del sol
4. A Patricia - Los Destellos
5. Sacalo Sacalo - Los Diablos Rojos
6. Ya Se Ha Muerto mi Abuelo - Juaneco Y Su Combo
7. El Milagro Verde - Los Mirlos
8. Para Elisa - Los Destellos
9. Linda Munequita - Los Hijos Del Sol
10. Muchachita del Oriente - Los Mirlos
11. Para Elisa - Los Destellos
12. Vacilando Con Ayahuesca - Juaneco Y Su Combo
13. El Guapo - Los Diablos Rojos
14. Mi Morena Rebelde - Eusebio y Su Banjo
15. Si Me Quieres - Los Hijos Del Sol
16. Me Robaron Mi Runa Mula - Juaneco Y Su Combo
17. La Danza de Los Mirlos - Los Mirlos