Mayra
Desvio de luta,
quanta conduta,
a regra se fez,
por quem se desfez,
a sarjeta chegou,
a polícia parou,
a mulher não viu,
o negro se despiu,
a luz se foi embora,
e em uma outra aurora
se desenvolveu.
O limite acordado
por patrões com carro importado,
veio o juiz,
a ponte está por um triz,
e a porta abriu
para quem contraiu
à regra, puta que pariu!
Foi feita por quem?
Foi escrita pra quem?
Descrita por alguém?
O espaço é sem margem
pra quem é feito de imagem,
e o estuprador tem sua lei,
o homossexual não quer ser rei,
o negro é igual ao branco, eu sei,
a mulher que eu beijei.
E a norma que tem forma
de carrasco embriagado,
deixa-me tonta, obrigada,
e eu quero despir a farda,
quero saber quem é dono da espada,
quero saber quem é que fala,
o que a gente cala.
O desvio é desviado,
por um pobre coitado
que nem sabe ler.
E aquele que sabe,
faz charme,
suave se resolve a sós,
como quem desfaz os nós
que a sociedade alinhou.
E ainda chamam de louco
todo e qualquer pouco,
estatisticamente rotulado,
por um postulado
de colarinho branco
e alma nada franca.
Se a loucura acaba com a lucidez,
louca quero ser,
para compreender,
que não é justo
seguir conceitos,
pautados em pré-conceitos,
orgulho e falta de fé.
Caminho com um pé
que é pra deixar o outro cru
e nu,
sem sapato,
porque a tão formosa lei,
desvia a si própria,
com um capital que gira
para o pouco
que acha muito
ser normal.
- Êpa, essa viagem foi muito rápida! - Tô com muito calor! Essa roupa laranja é um inferno. - C viu? Quase morreu. Foi um grande estouro. - Os portões da escolha foi aberto. Saiu um monte de gente de uma vez. Encavalou. - Frita pastel e coxinha Rute. - Vô leva esse pilantra no pau! Zé subiu no andaime. Maria chegou na casa de Andreia para cuidar do Pedrinho. Raimundo acabou desistindo de faltar ao trabalho. Laura faltou e comprou um atestado na praça 7. Ninguém aqui é vítima. Ninguém aqui sou eu.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
terça-feira, 15 de julho de 2014
Sobre reis e príncipes
Mayara Mattos
Seguindo a ordem da dinastia Bourbon na Espanha um jovem príncipe assume o
trono após a abdicação do rei que já não possuía condições de governar. Em meio
aos plebeus, as carruagens reais passavam, rearranjo dos títulos da nobreza e
dos gloriosos benefícios eram necessários para se instaurar a nova governança.
O futuro rei era aclamado por uma multidão calorosa, festas eram realizadas em
homenagem a esse grande evento e todos os holofotes estavam direcionados a
família real, que é a expressão de Deus na terra.
Essa
história poderia estar situada num passado longínquo, mas ocorreu em junho de
2014. Felipe VI de Bourbon subiu ao trono espanhol devido a escândalos que
envolvia corrupção e tráfico de influência dentro da sua própria família, o que
se agravou com a crise econômica que insiste em assolar o país. Porém, esse
histórico foi abafado pela imprensa espanhola que veiculava insistentemente os
atributos de majestade do novo rei. Esportista, falante fluente de várias
línguas, marido fiel e pai de duas lindas garotas, alto, loiro, de olhos azuis
e educado nos principais centros de ensino do mundo (como todo bom nobre),
Felipe VI era evocado como a salvação de um governo imerso em graves problemas
políticos. Até mesmo a copa das tropas que ocorria no Brasil foi esquecida pela
imprensa espanhola, a coroação era o foco de toda a imprensa.
É
comum que se pense nos meios de comunicação dos países ditos desenvolvidos,
como veículos comprometidos com a informação e circulação livre de ideias que
abrange o público como um todo, e em que a liberdade de expressão é plenamente
respeitada. Esse é mais um dos mitos que se reproduz, a imagem da Europa e dos
EUA como blocos homogêneos de democracia inegável, economia exemplar e onde
tudo funciona perfeitamente bem, isso desemboca na falácia de uma plenitude
social, política e econômica que seria o padrão a ser seguido pelos
subdesenvolvidos da cadeia de dominação.
Esses
países colonizadores (do passado ao presente) comandam as estratégias
econômicas e oferecem modelos de prosperidade, tipo o consumo em massa expresso
pelo seu melhor cúmplice, o capitalismo. Assim, minha intenção aqui é de
desestabilizar representações dadas como absolutas e questionar nossas ações
que refletem a possibilidade única de existência oferecida pelo eixo consagrado
do mundo.
O
ideal de que esses países seguiram um caminho unilinear do desenvolvimento, o
qual desembocou no estado de bem estar social pleno e democracia perfeita, é o
que impulsiona os países com o rótulo de emergente a prosseguirem com sua
caminhada fatídica. E a imprensa tem um papel fundamental nessa trama, muitas
vezes ela nega ou obscurece as formas de imperialismo dos países modelos ou
qualquer outro evento que seja contrário a expectativa (ex. espionagem),
focando, normalmente, nos indicadores do desenvolvimento, PIB e IDH, para que
os legitimem como detentores da ordem e do progresso, os quais corremos
cegamente atrás. Nega-se, portanto, a reflexão de quais foram as condições
criadas pelos países consagrados pelo desenvolvimento para estarem no ápice da
pirâmide criadas por eles mesmos. Parece que se prefere deixar nos livros de
história, nem todos muito comprometidos com a boa qualidade na informação, as
respostas a esses questionamentos. Pois, deixa-se de conectar o suposto apogeu
dos países exploradores com a colonização brutal empreendida pelos mesmos,
naturalizando a linha evolutiva do desenvolvimento em que todos os outros
países estão passando, ou pelo menos deviam.
Assim,
quando se tenta encontrar uma explicação para os nossos "atrasos" (de
novo a ideia da corrida rumo a um ponto de chegada), aciona-se o fato de termos
sido colonizados e não de termos colonizado. Desse modo, legitima-se a
necessidade de explorar o "outro", seja ele representado por grupos
fora do território nacional ou pela grande massa marginalizada, como pobres,
pretos, indígenas e imigrantes. O Brasil tomou lições de modo exemplar, a nossa
classe dominante, fruto da elite colonial, tende a explorar nossos vizinhos
latino americanos que se encontram em situações econômicas menos favoráveis.
Além de empreender constantes desrespeitos constitucionais em face dos sujeitos
considerados entraves ao desenvolvimento tanto almejado, vide as mazelas das
populações ameríndias.
Esses
massacres diários, mascarados e justificados por expressões bem estruturadas no
imaginário popular, como bem da nação, progresso e ordem, têm seu impacto
diminuído nos olhares daqueles que não conseguem conceber outros modos de
existência, a não ser aquele legitimado pelo circuito colonial. O modelo de
desenvolvimento, intrínseco na nossa visão de mundo, não nos permite admitir a
fuga dos valores impregnados pela lógica da dominação, acabamos por reproduzir
o caminho empreendido pelos nobres e racionais conquistadores, custe o que
custar.
terça-feira, 1 de julho de 2014
Somos todos um só: você, a FIFA, a UPP e a miséria
Tiago
No país do futebol, em tempos de Copa no país
da Copa, é dolorosamente difícil ser do contra, sobretudo contra a Copa. Não é
fácil não querer ir a algum lugar para assistir ao jogo do Brasil, não querer
torcer pelo Brasil e, pior ainda, afirmar não torcer pelo Brasil. E aí, onde é que você assistiu ao jogo? E a
Savassi, tá um festão lá, né...tem passado por lá? O que, você torceu para o
Chile, como assim!?
Sinceramente, nem foi para o Chile que torci,
mas contra o Brasil, contra o que significa este Brasil, contra o que significa
uma festa na Savassi neste momento, contra o que esta festa celebra, e a favor
daquilo que é preciso esquecer para se celebrar por lá neste momento,
principalmente por lá. (Na verdade, a Savassi em si, e em qualquer época do
ano, é a própria celebração de diversos motivos que me fazem ser contra a Copa
– como a desigualdade, a condição necessária de sua existência. A Copa apenas potencializa
essa representação nefasta, aliás, a Copa lhe cai muito bem).
Mas o fato é que depois de tudo que li, vi,
e assisti nos últimos anos não dá para torcer. Não sei vocês, mas para mim não dá
para participar. E olha – e quem me conhece sabe – eu gosto de futebol.
A questão é que isto não é só futebol. Como
eu já disse, de futebol eu gosto, e muito. Mas esta Copa é mais que isso, e não
é preciso muito esforço para notar. As propagandas e toda a avalanche
publicitária mostram claramente o que de fato ela é: um negócio. Aliás, um
negócio extremamente lucrativo. Mas qual problema há em lucrar? Afinal, o mundo
é assim, você pode pensar. Para mim, há vários, sobretudo se pensarmos na
mentalidade que sustenta a ideia do lucro: o pressuposto de que tudo é capital,
ou seja, uma riqueza que serve para produzir mais riqueza. Se a coisa não serve
a isso ela não tem valor, seja um objeto, um evento esportivo, um trabalho, um
direito etc. Porém, e para falar somente contra um tipo específico de lucro, os
lucros exorbitantes como os que a FIFA, os empreiteiros e anunciantes ganharão
com a Copa, dirijo minha reflexão (e minha ojeriza) para a relação direta – insofismável e que fica ainda mais clara nestes
casos – entre riqueza e miséria, entre concentração de renda e produção
da indignidade, entre concentração do poder econômico e fragilização da
democracia, de direitos, da liberdade de expressão, da diversidade, do dissenso,
do direito de pensar diferente. Todos os anunciantes, esse clima, todo o
aparato policial repressor é para nos fazer – e nos obrigar –crer que somos todos um só, que a Copa é do Mundo, de todo mundo, que sua realização é a festa de todos os brasileiros, a festa da nação.
Não acho. E sabemos – você e eu – ela não
é. Existem festas que não merecem comemoração.
Eventos como a Copa do Mundo, organizados
da forma como são organizados, são máquinas de produzir miséria. Seu efeito é
concentrar ainda mais a renda, a capacidade de decisão e de influência nas mãos
de algumas poucas pessoas. Em outras palavras, seu efeito é concentrar ainda
mais a oportunidade de acesso a diversos recursos, materiais ou simbólicos;
aumentar a distância e a diferença social e espacial entre as pessoas; é minar a
capacidade de autonomia, diminuindo ainda mais o poder de alguns sujeitos de
influenciar decisões sobre a vida pública. Alguém soube de alguma obra que
deixou de ser feita por que durante a consulta à comunidade afetada a mesma
decidiu por sua não realização? A realização da Copa é um golpe na construção
da democracia e uma afronta covarde ao combate à desigualdade social.
É este o ponto. Não é de futebol, é disto
que não gosto, é com isto que não compactuo, é com isto que decidi não
contribuir. Estas coisas estão juntas, interligadas, unidas, inter-relacionadas,
uma é a condição necessária da outra:
o processo que produz yellow blocks é
exatamente o mesmo processo que produz Ocupações. Não é só uma festa, não é só
um jogo, não são apenas duas – e inocentes – cores.
E aqui, você sabe disso! Isso, você mesmo,
é para você que eu escrevo.
Porém, se quer se fazer de desentendido e,
apesar de saber disso tudo, prefere unir-se à turma do “já que vai ter Copa, não me resta senão torcer pela seleção”; ou
ainda, se é daqueles que não gosta de futebol, mas a desculpa de que a festa é
boa justifica sua ida à Savassi, vão aí algumas dicas para que sua consciência
não pese – tanto:
1.
Esqueça a indignação com que no
ano passado você, na mesa do Maleta, falava do assassinato do Amarildo. Afinal,
o aumento da repressão policial nas favelas e periferias, cujas UPPS cariocas
são a melhor representação, são uma necessidade deste tipo de evento em que você festeja.
2.
Esqueça o apoio que, de casa,
das ruas ou do Facebook, você ofereceu às manifestações de junho do ano
passado, muitas vezes comprando brigas e discussões complicadas com seus
familiares apenas para explicar-lhes que manifestar é um direito, hoje cassado
por ações como a estratégia do cerco, praticada pela Polícia Militar de Minas
Gerais sob o argumento de que as manifestações não podem atrapalhar a (sua) festa
– a da Savassi.
3.
Para vestir verde e amarelo,
esqueça quanto medo lhe causou a fase Coxinha das manifestações de junho do ano
passado. Evite se lembrar que, nesta fase, você que desde o início foi para as
ruas quase deixou de ir por receio de estar engrossando um coro parecido com o
das vésperas de 1° de abril de 1964.
4.
Pare de ler sobre Ocupações.
Acredito que não seja muito aconchegante relembrar que as diversas obras de
infraestrutura realizadas para a Copa promoveram o deslocamento e o
desalojamento compulsório de milhares de pessoas. Não tire os olhos da TV,
algumas destas pessoas podem estar catando latinhas ao seu lado, acredito que
vê-las pode lhe causar algum desconforto. Dica: guardadores de carro – negros
principalmente – podem te remeter à lembranças semelhantes. Evite-os, procure
um estacionamento.
5.
Não olhe para a TV durante o
“Show do intervalo”, já que você pode se deparar com Ronaldo, agora como
comentarista, e daí se dar conta de que foi ele quem disse “que não se faz Copa do Mundo com hospitais”. Talvez assim, não o
vendo, seja mais difícil se lembrar de que no dia que ouviu esta frase, não sei se no maleta ou fumando maconha na
casa de um amigo, depois de chamá-lo de babaca, você disse ou pensou: “que não se faça então a maldita Copa, ora”.
Dica para este dia: pensar que, já que tá tendo, e já que estou aqui mesmo, vamos festejar, o segundo tempo vem aí! Haja
coração!
6.
Esqueça o acesso de raiva de
que você era tomado(a) quando lia alguma notícia sobre estrangeiros que, aproveitando
o ensejo, planejavam vir ao Brasil em busca de turismo sexual. Dica: ao final
dos jogos de sábado, desligue a TV rapidamente, pois alguma promoção do
programa Caldeirão do Hulk pode sutilmente
remeter a este assunto perverso.
7.
Se você teve a sorte, digo, a
oportunidade, de conseguir comprar ingresso para assistir a algum jogo no
Mineirão, quando estiver dentro do estádio evite pensamentos do tipo “nossa, como algo tão grande pode ser
construído”. Há o risco de que, após este tipo de reflexão, a imagem de
haitianos, presidiários, e outros tipos (negros) de subempregados venha à sua retina,
azedando o tropeiro que é lhe servido pela senhora (negra) que recebe, no
máximo, o dobro do valor do seu ingresso. Dica: para não se constranger evite
comer no estádio.
Portanto, fique tranquilo. Chame os amigos,
assista ao jogo, vá ao campo, vá para a Savassi. Afinal, é só mais um jogo do
Brasil. Tire sua selfe, compartilhe-a
no Facebook e, no dia seguinte, leia a Nova Democracia, o Pragmatismo Político,
a Revista Fórum ou a Caros Amigos, o Sakamoto ou a Eliane Brum com a plena sensação, convicção e certeza de que aquilo
tudo de que falam estas pessoas e jornais não tem absolutamente nada a ver
contigo. Você não faz parte daquilo. Aliás, se faz, é só um pouquinho, e que
mal há gostar de futebol ou de festa!? Todo futebol é futebol, toda festa é
festa, apenas, e nada mais que isso.
Não sei vocês, eu vou continuar
manifestando na rua, na chuva ou na fazenda; torcendo pelo Chile, para a Colômbia,
para a Argentina ou para qualquer coisa que atrapalhe a celebração deles e a de
vocês, que desta festa participam. Desse um só, eu não quero fazer parte.
A mão que não pensa
Cláudio H. Pessoa
Brandão – claudiohpb@gmail.com
Há 43 anos aconteceu
o maior acidente da construção civil brasileira, que ficou conhecido como
Tragédia da Gameleira. 69 operários que trabalhavam na construção do parque de
exposições de Belo Horizonte, o Expominas, foram soterrados na queda de um dos
pavilhões. De acordo com historiadores que se debruçaram sobre o caso, os operários
tinham plena consciência da possibilidade de um desabamento, pois tinham notado
várias rachaduras pelas paredes e colunas e frequentemente ouviam estalos
emitidos pelas estruturas. Os peões tentaram avisar aos engenheiros sobre os
perigos, mas quem ousaria criticar o desenho de Oscar Niemeyer ou colocar em
dúvida os conhecimentos científicos do engenheiro-chefe? Os trabalhadores que
questionavam a obra eram ameaçados de demissão sumária e até prisão; eram os
anos de chumbo do regime militar. Os cálculos matemáticos dos engenheiros
garantiam a continuidade da obra à revelia da experiência prática dos
operários. Os homens de ciência autorizavam o ritmo frenético das obras
organizadas pelo autoritarismo hierárquico. Mais um episódio em que o
“intelectual” se sobrepõe ao “manual”.
A polarização
trabalho intelectual versus trabalho manual é imemorial, mas
são conhecidas as interpretações que lançam suas raízes na antiguidade
ocidental. O ócio seria o lugar dos filósofos ou daqueles que se dedicavam à
política, consideradas “atividades intelectuais”; o negócio (negação do ócio)
seria o lugar do trabalhador, do artesão, do escravo, ou seja, o lugar daqueles
dedicados às “atividades manuais”. A Igreja Católica, salvo as exceções de
algumas correntes teológicas no interior da instituição, comumente via o
trabalho manual como condição de penitência, de castigo. A dimensão material, o
mundano ou profano, se contrapõe ao sagrado, alcançável por meio do esforço
espiritual. A revelação divina se daria no interior do ser, que deveria
resistir às tentações do corpo. O corporal e, por consequência, a atividade
manual ficam em segundo plano nos termos da espiritualidade. A cultura que se
convencionou chamar de modernidade passa a difundir o ideal do domínio do ser
humano sobre o meio material não somente por meio da fé, mas também por meio da
razão. A natureza vista como templo passa a ser também laboratório. As
atividades mais voltadas para o especulativo, tal como a filosofia e o direito,
passam a competir com as escolas de engenharia. Os engenheiros passam a ser
formados em um sistema de ensino laico com vistas a desenvolver meios
garantidores da ordem moral e do progresso material da sociedade. A medicina se
torna mais prática nesse mesmo movimento, o médico passa também a ser
cirurgião, atividade antes considerada como degradante por causa do contato
direto com as secreções corporais e com as vísceras. Aos poucos a atividade
intelectual desinteressada, considerada “filosófica demais”, vai perdendo
espaço para uma atividade intelectual cada vez mais pragmática, que responderia
com mais eficiência para a modernização e desenvolvimento econômico das
sociedades.
Vários cientistas
sociais sustentam a ideia de que a desvalorização dos trabalhos manuais no
Brasil, tal como pode ter ocorrido na Tragédia da Gameleira, é atenuada pela
herança dos quase 400 anos de escravidão. De fato, o país se organizou como uma
sociedade de corte e o status era fator de diferenciação
social. Como as atividades manuais traziam o estigma de coisa de escravo,
dedicar-se as ditas atividades intelectuais seria fator de enobrecimento. Os
artesãos que se organizavam em corporações até poderiam galgar cargos de
relevância para a comunidade, mas sempre ocupariam lugares menores em relação
aos bacharéis. A sua origem social, a sua educação e a cor da sua pele eram
fatores dificultadores da expressão de suas opiniões em uma sociedade de
doutores brancos.
Quero com o dito até
aqui encaminhar minhas reflexões para dois aspectos: (1) o desvalor para com a
atividade tida como meramente intelectual, por não dedicar-se a resolução de
situações práticas voltadas para o mundo da produção mercadológica; (2) a falsa
dicotomia trabalho intelectual-manual que deslegitima o trabalhador não
escolarizado ou não acadêmico. Para isso, refletirei a partir um episódio
ocorrido comigo recentemente.
O programa de
mestrado ao qual faço parte como estudante esteve pleiteando a abertura do
curso de doutorado, para isso uma comissão nomeada pelo Conselho de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES) fez uma avaliação
presencial da instituição, o que incluía um bate-papo com os mestrandos. As
professoras avaliadoras nos deixaram muito à vontade para fazer quaisquer tipos
de perguntas sobre a pós-graduação no Brasil. Tão logo tive chance perguntei
para as mesmas o motivo pelo qual bolsistas de iniciação científica, de
mestrado e doutorado não tem direitos trabalhistas, tal como licença
maternidade e os demais benefícios do INSS; a resposta: “Por que vocês são
estudantes”. Ora, ser estudante é entendido como uma atividade intelectual
desinteressada, não voltada para o mundo da produção de bens consumíveis; ser
estudante não gera riqueza. Por isso, não são enquadrados como categoria
profissional, não são trabalhadores. Basta receber uma bolsa-auxílio para
sobreviver, e aqui está subjacente o entendimento de que é necessário somente
um “auxílio financeiro”, como se todos aqueles que se dedicam às pesquisas
científicas fosse oriundos de famílias ricas que tivessem condições de bancar as
suas elucubrações. Ademais, o que acontece em um grande número de instituições
de ensino é que esse auxílio, uma vez que você é selecionado para recebê-lo,
impede que você tenha qualquer vínculo empregatício com carteira assinada. Você
recebe um auxílio para dedicar-se exclusivamente à pesquisa. Me parece uma
permanência da cultura bacharelesca da sociedade de corte, cujas instituições
de ensino eram voltadas tão somente para os mais abastados, e aqueles "sem
meios" recebiam somente um filantrópico auxílio financeiro. Parece que se
formar cientista no Brasil ainda não é coisa para o pobre.
O estudante de
mestrado ou doutorado não é regulado necessariamente pelo tempo do trabalho da
indústria. Não são poucas as dificuldades para explicar para as pessoas o que
“eu faço da vida”. Ciência é uma atividade morosa, difícil e extremamente
cansativa. Raramente encontramos estudantes que conseguem ter disciplina para
não passar fins de semanas inteiros na frente do computador num verdadeiro
"artesanato intelectual", sem falar das prospecções para coletas de
dados que se dão nos lugares mais diversos e adversos. Parece que também por
não se guiar pela racionalização temporal do mundo do trabalho, por não
necessariamente bater ponto, o estudante não é considerado trabalhador. Não
estou aqui defendendo que o pesquisador deverá ser enquadrado nos indicadores
de produção tal como ocorrem nas indústrias aos moldes da gestão da qualidade;
é perigoso cair no erro de querer a ciência regulada por valores análogos aos
do mercado. Da mesma forma, um pedreiro que não necessariamente se enquadra no
tempo do relógio de ponto comumente é tachado de preguiçoso. Também não estou
aqui defendendo aqueles que por ventura não arquem com os prazos combinados,
mas quero chamar atenção para a naturalização de um certo tempo do trabalho. É
como se as 8 horas (no mínimo) de trabalho fossem tão naturais quanto o nascer
do sol. O cumprimento do tempo artificial da indústria hoje parece ser a
condição básica para considerar os sujeitos como trabalhadores. Seriam
trabalhadores somente aqueles que se submetem as insalubres, longas e pesadas
jornadas de trabalho? É uma irracionalidade querer um tempo de trabalho que me
permita viver com saúde e com tempo pra me dedicar a outras atividades que não
somente aquelas que visam produções voltadas para o lucro? Por não objetivar a
produção imediata de bens consumíveis o estudante-cientista vinculado
formalmente às instituições de produção de conhecimento não é visto como
trabalhador, a ponto de não ter qualquer tipo de seguridade social.
O fato da atividade
estudantil ser chamada de intelectual polariza essa com as ditas atividades
manuais, como se um marceneiro, uma costureira ou um pedreiro não utilizassem
do intelecto para trabalhar. E aqui há o enaltecimento do conhecimento escolar,
como se ele fosse o único legítimo. O estatuto das ciências se sobrepõe aos
saberes das experiências daqueles que raciocinam por meio de parâmetros não
escolares, muitas vezes elaborados de forma autodidata ou transmitidos via oralidade
e demonstrações práticas. Cotidianamente os doutores utilizam do status dos
seus diplomas para se sobreporem aos trabalhadores não escolarizados ou não
acadêmicos. Ao mesmo tempo em que ainda parece existir essa hierarquia entre
“intelectuais” e “trabalhadores”, sempre em desfavor do segundo, há o
reconhecimento de sua importância. Todos precisam de pedreiros, isso é um fato
cabal, mas é comum a seguinte comparação: “É um absurdo um pedreiro ganhar o
dobro que um professor...” É claro que os professores brasileiros merecem um
salário com um mínimo de dignidade, mas isso não permite desqualificar um
saber-fazer que não é diplomado academicamente. Os pedreiros são essenciais
para a sociedade e devem ser tratados tal e qual. Mas somente os pedreiros deveriam
falar por eles mesmos, há aqui o risco dos "intelectuais" se sentirem
no direito de falar pelos "trabalhadores", em um claro vanguardismo.
É preciso que todos reconheçam os seus lugares singulares de trabalhadores,
todas as categorias, ombro a ombro.
Enquanto isso, vários
operários se acidentaram, foram mutilados e morreram durante as construções dos
estádios brasileiros que estão servindo à FIFA, mas sem problemas, os
engenheiros deram todas as desculpas argumentadas por meio da sua matemática.
Enquanto isso, milhares de pessoas ultimamente se dirigem para a Funfest, a
festa da Copa do Mundo, realizada no Expominas em Belo Horizonte, o mesmo da
Tragédia da Gameleira. Não há ali um memorial dedicado a lembrança daqueles 69
operários mutilados e mortos. Enquanto isso, eu, um intelectualzinho romântico
e idealista, me dirijo para as manifestações Anti-Copa, tendo o trabalho de
sonhar. E todos aqueles estudantes que se dão ao trabalho de
protestar, de se envolverem em movimentos políticos ao lado de trabalhadores
e de fazer de suas atividades intelectuais meios para repensar
a sociedade, comumente são tachados de vagabundos por não estarem
trabalhando
terça-feira, 24 de junho de 2014
Se o cabelo é meu, deixa eu cachear, deixa eu...
Caroline Louise
Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de
início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de
ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li
biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam
inteiramente de vida...”Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo
de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de
que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim
a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do
mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos
por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso
adivinhar. Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo
O modo de me relacionar com as
pessoas e comigo mesma sempre esteve de alguma maneira ligado à forma como eu
enxergava e desejava que o meu cabelo fosse. Alisei o cabelo pela primeira vez
aos 7 anos e minha mãe conta que fiquei tão feliz que até disse que aquele era
o dia mais feliz da minha vida, desde então nunca mais parei de alisá-lo e
sempre queria que ficasse o mais liso possível. Curiosamente foi também mais ou
menos nessa época que no jardim de infância disse a uma coleguinha que ela não
poderia brincar comigo porque ela era preta. Lembro exatamente da carinha dela
e das trancinhas que ela usava no cabelo crespo. O ocorrido não foi uma
inocente maldade infantil, eu provavelmente estava reproduzindo algo que havia
vivenciado em outro lugar, e ali na escola talvez tenha me sentido superior a
ela por ser “mais clarinha” e não ter o cabelo tão crespo. E mais do que isso,
não havia identificação, não conseguia ver naquela menina negra do cabelo
crespo alguém igual a mim; eu me via diferente e melhor do que ela.
Passei mais de 20 anos acreditando
que minha vida seria mais fácil se meu cabelo fosse liso, sempre imaginei que a
vida poderia ser diferente por causa disso, eu seria mais feliz, mais amada,
mais desejada, seria bonita, e principalmente, seria livre! A verdade é que
nunca me enxerguei como negra, não era uma negação consciente e explícita, era
muito mais perverso do que isso, porque eu não fazia parte do “padrão”
hegemônico e também não aceitava minha verdadeira condição, e vivia nessa
fronteira, nesse lugar nenhum que só me trouxe esvaziamento e angústia.
Desde 2012 que venho desejando
diminuir o uso da química, mas não levava a idéia a diante e tinha também a minha
formatura no curso de Direito, e, claro, meu cabelo deveria estar o mais
comprido e liso possível para a data. Me formei, e no stress de recém-formada
tinha receio de que o cabelo natural pudesse ser uma dificuldade a mais no
exercício da profissão, e com isso ia construído vários argumentos que me
impediam de iniciar a famosa transição capilar.
Ao completar 26 anos iniciei um
processo de (des)construção, me vi quase que obrigada a condição de encarar a
mim mesma e minha identidade seja ela qual fosse. Muito se fala da crise dos 30
anos, mas a minha começou mesmo foi aos 26. E como qualquer crise, essa não se
deu da noite pro dia, foi construída e recalcada durante longos anos nos quais
por falta de coragem, eu nunca ousei encarar e assumir as conseqüências do que
eu poderia me tornar ao experimentar ser o que realmente sou. Era chegado o
tempo de travessia, movimento necessário para que não acomodasse à margem de
mim mesma.
Só agora, aos 26 anos, me dei conta
de que sou negra e da responsabilidade política que isso me traz. Cheguei a um
ponto em que a vida havia tomado um rumo que não era meu, nada fazia sentido e não sabia o que fazer. Eu precisava mudar,
e para que isso ocorresse de modo profundo deveria se dar naquilo que me era
mais caro e que mais me incomodava: meu cabelo.
Não cortei o cabelo inicialmente,
mas passei a usá-lo cacheado, o que era difícil não somente pelo processo mas porque
depois de tanta química o cabelo já não sabia a sua constituição natural, e
também porque não estava acostumada a sair de casa daquele jeito. Antes de sair
ficava me olhando no espelho e tentando me convencer de que eu estava bonita. Foram
uns três meses saindo de casa me achando horrorosa, todos os olhares em minha
direção me fazia pensar que eram olhares de reprovação e a minha vontade era
voltar pra casa correndo ou me fazer de invisível ali mesmo no meio da rua. Mas
mesmo com esses sentimentos eu estava disposta a ir até o final na minha
decisão, aquilo era não só necessário na reconstrução da minha identidade e
auto-estima como também uma necessidade política.
No dia em que resolvi cortar de vez
a parte lisa do cabelo e deixá-lo todo natural acho que foi o meu maior ato de
coragem na vida, estava dando adeus ao cabelo alisado e me entregando ao
desconhecido. Um desconhecido que me era assustador, não queria usar o cabelo
black e nunca havia usado o cabelo tão curto, mas era necessário passar por
isso. Nesse dia, cheguei em casa e fiquei
horas me olhando no espelho e tentando entender quem era aquela pessoa ali
refletida. Havia em mim uma sensação nunca antes experimentada, era eu mas não
era eu, era como se pela primeira vez eu me visse verdadeiramente, sem
projeções e sem o desejo de ser diferente, queria apenas ser aquilo que eu era
e me aceitar assim.
Desde então tem sido um esforço
diário de aceitação e de descoberta. Apesar dos elogios, ainda me sinto
insegura em relação à minha imagem, mas não é uma insegurança com desejo de
mudança, é uma insegurança de quem está aprendendo algo novo e precisa de um
tempo para assimilar as coisas. Ainda tenho momentos em que me acho horrorosa,
mas duram cada vez menos, assim como cada dia mais me importo menos com os
olhares na rua. Acho bacana quando meninas me param para perguntar sobre o meu
cabelo e de como fiz a transição, sinto que meu objetivo político está fazendo
efeito.
A vida ainda não tomou o rumo que eu
quero, não me sinto tão dona de mim o quanto gostaria, mas (a vida) ficou mais
leve quando passei a buscar por um “eu” que estava perdido e sufocado pelo medo
e por padrões que nós são impostos socialmente. “O que a vida quer da gente é
coragem”, e isso me soa como um mantra desde que decidi mudar o meu cabelo e a
mim mesma. É um caminho sem volta, não sei se continuarei caminhando por ele,
mas sei que não voltarei a ser o que era antes.
Se o caminho é meu, deixa eu
caminhar, deixa eu
Se o cabelo é meu, deixa eu cachear.
Caroline Louise
e-mail: carolinelouise3@gmail.com
terça-feira, 17 de junho de 2014
Dois pesos e duas medidas!
Kelli Oliveira
Ao visitar a página do
Diário de Pernambuco, no mês de fevereiro deste ano, algo me chamou a atenção. Ao
publicar certa matéria nas redes sociais, a repercussão negativa tomou proporção
tão estrondosa que o próprio veículo precisou criar uma campanha contra o
preconceito. A matéria abordava o hábito que alguns adolescentes e crianças de
periferia têm de pintar o cabelo durante o carnaval para participar das
festividades. Já que os mesmos não têm condições de comprar fantasias para a
época, utilizam produtos de baixo custo, como papel crepom, água oxigenada e pó
de madeira, a ideia é ficar o mais diferente possível para se destacar em meio à
multidão. Destaque que aconteceu de forma controvérsia, pois apesar
de intencionados em apenas se divertir, esses jovens ganharam rótulos discriminatórios.
Os cabelos coloridos de
meninos negros, pobres e favelados incomodaram, e muito, à algumas pessoas.
Surgiram vários comentários preconceituosos após a publicação da matéria nas
redes sociais, descobrindo e escancarando situações que muitos desses meninos
vivem no dia a dia, rótulos e adjetivos que tristemente já se acostumaram a
receber. Ao perceber a euforia desses
seres, que do conforto de suas casas sentem-se superiores e seguros para expor
o que realmente pensam e sentem sobre os cabelos coloridos dos favelados, me
senti imensamente incomodada e ao mesmo tempo intrigada com a repercussão
negativa da reportagem. Na mesma semana em que
li essa matéria, uma senhora sentada em um ponto de ônibus na Savassi (bairro
nobre de BH), ao avistar um menino branco, bem vestido e de cabelo azul,
balbuciou: Nossa! Esses jovens de hoje em dia são tão “estilosos” (isso em tom
de elogio). Logo me veio à memória aquela matéria que tanto repercutiu e gerou
comentários maliciosos, uns diziam que eram marginais, outros que era falta de
serviço e, em resumo, quase todos os comentários eram negativos, nenhum
mencionava que os meninos tinham estilo ou que aquilo era algo legal de se
copiar.
Sei que não podemos
generalizar nenhuma das duas reações, nem os comentários maldosos na rede
social e nem da senhorinha que achou lindo o menino branco de cabelo azul, mas
o que me veio à mente, comparando as duas situações, foi a seguinte frase, e que
ilustra bem a situação: “Somos todos iguais, alguns mais iguais que
os outros.” De um lado meninos negros, pobres e favelados com cabelos
amarelos, vermelhos, roxos, quase sendo crucificados por não ter vergonha do
seu estilo ou por tentar ter um estilo próprio. Do outro um menino branco de
cabelo azul que ao passar na rua conquista admiração e apoio até dos mais
conservadores. Minha indignação ascende nesse ponto: porque os cabelos coloridos
dos meninos negros foram tão discriminados, ou, seria apenas o cabelo que
incomodava?
Essa atitude se estende
para além de comentários preconceituosos em redes sociais. Jovens negros, de
periferia e com cabelos coloridos, não conseguem arrumar emprego, tomam geral
da polícia todos os dias e são sempre considerados suspeitos. A vontade da
sociedade é manter ou colocar todos nos padrões brancos. Eles nos engolem
todos os dias, riem da nossa cara, é como se dissessem para um menino negro: já
que você não pode ser branco, pelo menos se comporte como um, corte esse cabelo
duro, se vista como tal, fale como tal, enfim, seja um preto transvestido de
branco, assim poderemos nos incomodar menos com sua presença.
Aos mais incrédulos,
que pensam que estamos vendo chifre na cabeça de cavalo, eu peço que se atenham
e percebam os olhares sobre os negros ao seu redor, e não me diga que isso é
coisa da minha cabeça! Parece até que estou chovendo no molhado, né, minha
gente, pois presenciamos situações desse tipo todos os dias, nos jornais, nas
novelas e ao vivo e à cores, mas parece que não dão a mínima para o que acontece a nossa volta. Até hoje vivemos um regime de soberania branca, e o
pior de tudo é que está tão naturalizado que as pessoas acham comum certos
tipos de discriminação. É isso mesmo, senhoras e senhores, os pensamentos
preconceituosos de nossa sociedade proíbem que negros e pobres possam se quer
pensar em ser autônomos e donos dos seus próprios narizes ou cabelos, se acharem
melhor.
Ah, quem dirá que estou
sendo radical demais e que muita coisa tem mudado!? Sim, tem mudado e é sabido
que os negros têm conquistado muitos diretos e oportunidades, mas ainda é pouco
diante do buraco que deixaram na vida de nossos ancestrais. Precisamos ter ciência de que esse fato não
foi e não será um fato isolado, enquanto um grupo tentar impor seu modo de
viver nós nunca poderemos ser nós mesmos.
Como diria Chico César:
Se eu quero colorir, deixa!
terça-feira, 10 de junho de 2014
Incômodos Virtuais
Felipe Lena
Que vida estamos levando?
Quais tipos de relações estamos construindo? Num mundo com as redes sociais
cada vez mais presentes na nossa vida cotidiana, o ser humano continua a
expressar sua podridão de maneira contundente. Fico me perguntando, tentando
observar como as pessoas se portam no ambiente público e no ambiente privado.
Na rede social (ambiente público) a pessoa fala para centenas de pessoas
(amigos, família, conhecidos, colegas de trabalho, etc.). Nesse aspecto, a rede
social funciona como um palco e um microfone diante de uma plateia amorfa e
heterogênea. Um traço que me salta aos olhos diante do comportamento das
pessoas nas redes sociais é que de alguma maneira elas não veem nenhum problema
em desabafarem, fazerem confissões, esbravejarem suas verdades, falarem dos
seus sentimentos mais íntimos para sua plateia pessoal. Na verdade, parece que
existe uma necessidade crônica das pessoas afirmarem quem elas são e o quanto o
estilo de vida delas é superior, dentre outras coisas do tipo. Não sei se isso
vem de um narcisismo crônico da nossa geração ou se é simplesmente a podridão
humana sendo explicitada. O curioso é que não encontro esses mesmos
comportamentos no ambiente privado. Quando encontramos as pessoas na vida real,
elas parecem não se expressarem da mesma maneira que no ambiente virtual.
Existe um descompasso aí. Ao mesmo tempo as redes sociais me fazem
sentir o tempo pesar... Entra ano e sai ano e as pessoas, de forma quase
hipnótica, festejam e celebram as mesmas datas comemorativas que o calendário
virtual avisa. Me lembra Sísifo empurrando a rocha morro acima e depois
rolando-a morro abaixo. Qual o propósito disso tudo? Lembro-me de quando era
mais novo, quando via pessoas sentadas na porta de casa, jogando conversa fora,
descansando ao ar livre depois de um dia cansativo de trabalho. Via crianças na
rua jogando bola, soltando papagaio, brincando de polícia e ladrão. Hoje em dia
só vejo carros nas ruas. E as pessoas parecem zumbis com o celular o tempo
inteiro na mão. Fico me perguntando: quais serão os reflexos desses
comportamentos virtuais e reais nas próximas gerações. Qual futuro nos aguarda?
Sou pessimista nesse aspecto. Não vejo o mundo melhorando. Acho que o mundo
como está precisa entrar em colapso. Reformas não mudam muita coisa, rupturas
sim. Porém, infelizmente, acho que estamos completamente imersos neste modo de
vida, e não vejo como rupturas acontecerem no meu tempo de vida. É engraçado
pois o nosso tempo de vida é muito curto, e mesmo assim não saímos do nosso
caminho para transformar as coisas, estamos conformados. Continuamos vivendo
nossas vidas patéticas, vivendo a ilusão de que estamos mudando as coisas.
Talvez, no fim das contas, o ser humano só precise de ilusões.
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