- Êpa, essa viagem foi muito rápida! - Tô com muito calor! Essa roupa laranja é um inferno. - C viu? Quase morreu. Foi um grande estouro. - Os portões da escolha foi aberto. Saiu um monte de gente de uma vez. Encavalou. - Frita pastel e coxinha Rute. - Vô leva esse pilantra no pau! Zé subiu no andaime. Maria chegou na casa de Andreia para cuidar do Pedrinho. Raimundo acabou desistindo de faltar ao trabalho. Laura faltou e comprou um atestado na praça 7. Ninguém aqui é vítima. Ninguém aqui sou eu.

terça-feira, 1 de julho de 2014

A mão que não pensa


Cláudio H. Pessoa Brandão – claudiohpb@gmail.com

Há 43 anos aconteceu o maior acidente da construção civil brasileira, que ficou conhecido como Tragédia da Gameleira. 69 operários que trabalhavam na construção do parque de exposições de Belo Horizonte, o Expominas, foram soterrados na queda de um dos pavilhões. De acordo com historiadores que se debruçaram sobre o caso, os operários tinham plena consciência da possibilidade de um desabamento, pois tinham notado várias rachaduras pelas paredes e colunas e frequentemente ouviam estalos emitidos pelas estruturas. Os peões tentaram avisar aos engenheiros sobre os perigos, mas quem ousaria criticar o desenho de Oscar Niemeyer ou colocar em dúvida os conhecimentos científicos do engenheiro-chefe? Os trabalhadores que questionavam a obra eram ameaçados de demissão sumária e até prisão; eram os anos de chumbo do regime militar. Os cálculos matemáticos dos engenheiros garantiam a continuidade da obra à revelia da experiência prática dos operários. Os homens de ciência autorizavam o ritmo frenético das obras organizadas pelo autoritarismo hierárquico. Mais um episódio em que o “intelectual” se sobrepõe ao “manual”.

A polarização trabalho intelectual versus trabalho manual é imemorial, mas são conhecidas as interpretações que lançam suas raízes na antiguidade ocidental. O ócio seria o lugar dos filósofos ou daqueles que se dedicavam à política, consideradas “atividades intelectuais”; o negócio (negação do ócio) seria o lugar do trabalhador, do artesão, do escravo, ou seja, o lugar daqueles dedicados às “atividades manuais”. A Igreja Católica, salvo as exceções de algumas correntes teológicas no interior da instituição, comumente via o trabalho manual como condição de penitência, de castigo. A dimensão material, o mundano ou profano, se contrapõe ao sagrado, alcançável por meio do esforço espiritual. A revelação divina se daria no interior do ser, que deveria resistir às tentações do corpo. O corporal e, por consequência, a atividade manual ficam em segundo plano nos termos da espiritualidade. A cultura que se convencionou chamar de modernidade passa a difundir o ideal do domínio do ser humano sobre o meio material não somente por meio da fé, mas também por meio da razão. A natureza vista como templo passa a ser também laboratório. As atividades mais voltadas para o especulativo, tal como a filosofia e o direito, passam a competir com as escolas de engenharia. Os engenheiros passam a ser formados em um sistema de ensino laico com vistas a desenvolver meios garantidores da ordem moral e do progresso material da sociedade. A medicina se torna mais prática nesse mesmo movimento, o médico passa também a ser cirurgião, atividade antes considerada como degradante por causa do contato direto com as secreções corporais e com as vísceras. Aos poucos a atividade intelectual desinteressada, considerada “filosófica demais”, vai perdendo espaço para uma atividade intelectual cada vez mais pragmática, que responderia com mais eficiência para a modernização e desenvolvimento econômico das sociedades.

Vários cientistas sociais sustentam a ideia de que a desvalorização dos trabalhos manuais no Brasil, tal como pode ter ocorrido na Tragédia da Gameleira, é atenuada pela herança dos quase 400 anos de escravidão. De fato, o país se organizou como uma sociedade de corte e o status era fator de diferenciação social. Como as atividades manuais traziam o estigma de coisa de escravo, dedicar-se as ditas atividades intelectuais seria fator de enobrecimento. Os artesãos que se organizavam em corporações até poderiam galgar cargos de relevância para a comunidade, mas sempre ocupariam lugares menores em relação aos bacharéis. A sua origem social, a sua educação e a cor da sua pele eram fatores dificultadores da expressão de suas opiniões em uma sociedade de doutores brancos.

Quero com o dito até aqui encaminhar minhas reflexões para dois aspectos: (1) o desvalor para com a atividade tida como meramente intelectual, por não dedicar-se a resolução de situações práticas voltadas para o mundo da produção mercadológica; (2) a falsa dicotomia trabalho intelectual-manual que deslegitima o trabalhador não escolarizado ou não acadêmico. Para isso, refletirei a partir um episódio ocorrido comigo recentemente.

O programa de mestrado ao qual faço parte como estudante esteve pleiteando a abertura do curso de doutorado, para isso uma comissão nomeada pelo Conselho de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES) fez uma avaliação presencial da instituição, o que incluía um bate-papo com os mestrandos. As professoras avaliadoras nos deixaram muito à vontade para fazer quaisquer tipos de perguntas sobre a pós-graduação no Brasil. Tão logo tive chance perguntei para as mesmas o motivo pelo qual bolsistas de iniciação científica, de mestrado e doutorado não tem direitos trabalhistas, tal como licença maternidade e os demais benefícios do INSS; a resposta: “Por que vocês são estudantes”. Ora, ser estudante é entendido como uma atividade intelectual desinteressada, não voltada para o mundo da produção de bens consumíveis; ser estudante não gera riqueza. Por isso, não são enquadrados como categoria profissional, não são trabalhadores. Basta receber uma bolsa-auxílio para sobreviver, e aqui está subjacente o entendimento de que é necessário somente um “auxílio financeiro”, como se todos aqueles que se dedicam às pesquisas científicas fosse oriundos de famílias ricas que tivessem condições de bancar as suas elucubrações. Ademais, o que acontece em um grande número de instituições de ensino é que esse auxílio, uma vez que você é selecionado para recebê-lo, impede que você tenha qualquer vínculo empregatício com carteira assinada. Você recebe um auxílio para dedicar-se exclusivamente à pesquisa. Me parece uma permanência da cultura bacharelesca da sociedade de corte, cujas instituições de ensino eram voltadas tão somente para os mais abastados, e aqueles "sem meios" recebiam somente um filantrópico auxílio financeiro. Parece que se formar cientista no Brasil ainda não é coisa para o pobre.

O estudante de mestrado ou doutorado não é regulado necessariamente pelo tempo do trabalho da indústria. Não são poucas as dificuldades para explicar para as pessoas o que “eu faço da vida”. Ciência é uma atividade morosa, difícil e extremamente cansativa. Raramente encontramos estudantes que conseguem ter disciplina para não passar fins de semanas inteiros na frente do computador num verdadeiro "artesanato intelectual", sem falar das prospecções para coletas de dados que se dão nos lugares mais diversos e adversos. Parece que também por não se guiar pela racionalização temporal do mundo do trabalho, por não necessariamente bater ponto, o estudante não é considerado trabalhador. Não estou aqui defendendo que o pesquisador deverá ser enquadrado nos indicadores de produção tal como ocorrem nas indústrias aos moldes da gestão da qualidade; é perigoso cair no erro de querer a ciência regulada por valores análogos aos do mercado. Da mesma forma, um pedreiro que não necessariamente se enquadra no tempo do relógio de ponto comumente é tachado de preguiçoso. Também não estou aqui defendendo aqueles que por ventura não arquem com os prazos combinados, mas quero chamar atenção para a naturalização de um certo tempo do trabalho. É como se as 8 horas (no mínimo) de trabalho fossem tão naturais quanto o nascer do sol. O cumprimento do tempo artificial da indústria hoje parece ser a condição básica para considerar os sujeitos como trabalhadores. Seriam trabalhadores somente aqueles que se submetem as insalubres, longas e pesadas jornadas de trabalho? É uma irracionalidade querer um tempo de trabalho que me permita viver com saúde e com tempo pra me dedicar a outras atividades que não somente aquelas que visam produções voltadas para o lucro? Por não objetivar a produção imediata de bens consumíveis o estudante-cientista vinculado formalmente às instituições de produção de conhecimento não é visto como trabalhador, a ponto de não ter qualquer tipo de seguridade social.

O fato da atividade estudantil ser chamada de intelectual polariza essa com as ditas atividades manuais, como se um marceneiro, uma costureira ou um pedreiro não utilizassem do intelecto para trabalhar. E aqui há o enaltecimento do conhecimento escolar, como se ele fosse o único legítimo. O estatuto das ciências se sobrepõe aos saberes das experiências daqueles que raciocinam por meio de parâmetros não escolares, muitas vezes elaborados de forma autodidata ou transmitidos via oralidade e demonstrações práticas. Cotidianamente os doutores utilizam do status dos seus diplomas para se sobreporem aos trabalhadores não escolarizados ou não acadêmicos. Ao mesmo tempo em que ainda parece existir essa hierarquia entre “intelectuais” e “trabalhadores”, sempre em desfavor do segundo, há o reconhecimento de sua importância. Todos precisam de pedreiros, isso é um fato cabal, mas é comum a seguinte comparação: “É um absurdo um pedreiro ganhar o dobro que um professor...” É claro que os professores brasileiros merecem um salário com um mínimo de dignidade, mas isso não permite desqualificar um saber-fazer que não é diplomado academicamente. Os pedreiros são essenciais para a sociedade e devem ser tratados tal e qual. Mas somente os pedreiros deveriam falar por eles mesmos, há aqui o risco dos "intelectuais" se sentirem no direito de falar pelos "trabalhadores", em um claro vanguardismo. É preciso que todos reconheçam os seus lugares singulares de trabalhadores, todas as categorias, ombro a ombro.

Enquanto isso, vários operários se acidentaram, foram mutilados e morreram durante as construções dos estádios brasileiros que estão servindo à FIFA, mas sem problemas, os engenheiros deram todas as desculpas argumentadas por meio da sua matemática. Enquanto isso, milhares de pessoas ultimamente  se dirigem para a Funfest, a festa da Copa do Mundo, realizada no Expominas em Belo Horizonte, o mesmo da Tragédia da Gameleira. Não há ali um memorial dedicado a lembrança daqueles 69 operários mutilados e mortos. Enquanto isso, eu, um intelectualzinho romântico e idealista, me dirijo para as manifestações Anti-Copa, tendo o trabalho de sonhar. E todos aqueles estudantes que se dão ao trabalho de protestar, de se envolverem em movimentos políticos ao lado de trabalhadores e de fazer de suas atividades intelectuais meios para repensar a sociedade, comumente são tachados de vagabundos por não estarem trabalhando

terça-feira, 24 de junho de 2014

Se o cabelo é meu, deixa eu cachear, deixa eu...

Caroline Louise



Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida...”Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo

O modo de me relacionar com as pessoas e comigo mesma sempre esteve de alguma maneira ligado à forma como eu enxergava e desejava que o meu cabelo fosse. Alisei o cabelo pela primeira vez aos 7 anos e minha mãe conta que fiquei tão feliz que até disse que aquele era o dia mais feliz da minha vida, desde então nunca mais parei de alisá-lo e sempre queria que ficasse o mais liso possível. Curiosamente foi também mais ou menos nessa época que no jardim de infância disse a uma coleguinha que ela não poderia brincar comigo porque ela era preta. Lembro exatamente da carinha dela e das trancinhas que ela usava no cabelo crespo. O ocorrido não foi uma inocente maldade infantil, eu provavelmente estava reproduzindo algo que havia vivenciado em outro lugar, e ali na escola talvez tenha me sentido superior a ela por ser “mais clarinha” e não ter o cabelo tão crespo. E mais do que isso, não havia identificação, não conseguia ver naquela menina negra do cabelo crespo alguém igual a mim; eu me via diferente e melhor do que ela.

Passei mais de 20 anos acreditando que minha vida seria mais fácil se meu cabelo fosse liso, sempre imaginei que a vida poderia ser diferente por causa disso, eu seria mais feliz, mais amada, mais desejada, seria bonita, e principalmente, seria livre! A verdade é que nunca me enxerguei como negra, não era uma negação consciente e explícita, era muito mais perverso do que isso, porque eu não fazia parte do “padrão” hegemônico e também não aceitava minha verdadeira condição, e vivia nessa fronteira, nesse lugar nenhum que só me trouxe esvaziamento e angústia.

Desde 2012 que venho desejando diminuir o uso da química, mas não levava a idéia a diante e tinha também a minha formatura no curso de Direito, e, claro, meu cabelo deveria estar o mais comprido e liso possível para a data. Me formei, e no stress de recém-formada tinha receio de que o cabelo natural pudesse ser uma dificuldade a mais no exercício da profissão, e com isso ia construído vários argumentos que me impediam de iniciar a famosa transição capilar.

Ao completar 26 anos iniciei um processo de (des)construção, me vi quase que obrigada a condição de encarar a mim mesma e minha identidade seja ela qual fosse. Muito se fala da crise dos 30 anos, mas a minha começou mesmo foi aos 26. E como qualquer crise, essa não se deu da noite pro dia, foi construída e recalcada durante longos anos nos quais por falta de coragem, eu nunca ousei encarar e assumir as conseqüências do que eu poderia me tornar ao experimentar ser o que realmente sou. Era chegado o tempo de travessia, movimento necessário para que não acomodasse à margem de mim mesma.

Só agora, aos 26 anos, me dei conta de que sou negra e da responsabilidade política que isso me traz. Cheguei a um ponto em que a vida havia tomado um rumo que não era meu, nada fazia sentido e não sabia o que fazer. Eu precisava mudar, e para que isso ocorresse de modo profundo deveria se dar naquilo que me era mais caro e que mais me incomodava: meu cabelo.

Não cortei o cabelo inicialmente, mas passei a usá-lo cacheado, o que era difícil não somente pelo processo mas porque depois de tanta química o cabelo já não sabia a sua constituição natural, e também porque não estava acostumada a sair de casa daquele jeito. Antes de sair ficava me olhando no espelho e tentando me convencer de que eu estava bonita. Foram uns três meses saindo de casa me achando horrorosa, todos os olhares em minha direção me fazia pensar que eram olhares de reprovação e a minha vontade era voltar pra casa correndo ou me fazer de invisível ali mesmo no meio da rua. Mas mesmo com esses sentimentos eu estava disposta a ir até o final na minha decisão, aquilo era não só necessário na reconstrução da minha identidade e auto-estima como também uma necessidade política.

No dia em que resolvi cortar de vez a parte lisa do cabelo e deixá-lo todo natural acho que foi o meu maior ato de coragem na vida, estava dando adeus ao cabelo alisado e me entregando ao desconhecido. Um desconhecido que me era assustador, não queria usar o cabelo black e nunca havia usado o cabelo tão curto, mas era necessário passar por isso. Nesse dia, cheguei em casa e fiquei horas me olhando no espelho e tentando entender quem era aquela pessoa ali refletida. Havia em mim uma sensação nunca antes experimentada, era eu mas não era eu, era como se pela primeira vez eu me visse verdadeiramente, sem projeções e sem o desejo de ser diferente, queria apenas ser aquilo que eu era e me aceitar assim.

Desde então tem sido um esforço diário de aceitação e de descoberta. Apesar dos elogios, ainda me sinto insegura em relação à minha imagem, mas não é uma insegurança com desejo de mudança, é uma insegurança de quem está aprendendo algo novo e precisa de um tempo para assimilar as coisas. Ainda tenho momentos em que me acho horrorosa, mas duram cada vez menos, assim como cada dia mais me importo menos com os olhares na rua. Acho bacana quando meninas me param para perguntar sobre o meu cabelo e de como fiz a transição, sinto que meu objetivo político está fazendo efeito.

A vida ainda não tomou o rumo que eu quero, não me sinto tão dona de mim o quanto gostaria, mas (a vida) ficou mais leve quando passei a buscar por um “eu” que estava perdido e sufocado pelo medo e por padrões que nós são impostos socialmente. “O que a vida quer da gente é coragem”, e isso me soa como um mantra desde que decidi mudar o meu cabelo e a mim mesma. É um caminho sem volta, não sei se continuarei caminhando por ele, mas sei que não voltarei a ser o que era antes.

Se o caminho é meu, deixa eu caminhar, deixa eu

Se o cabelo é meu, deixa eu cachear.



Caroline Louise 
e-mail: carolinelouise3@gmail.com





terça-feira, 17 de junho de 2014

Dois pesos e duas medidas!

Kelli Oliveira

Ao visitar a página do Diário de Pernambuco, no mês de fevereiro deste ano, algo me chamou a atenção. Ao publicar certa matéria nas redes sociais, a repercussão negativa tomou proporção tão estrondosa que o próprio veículo precisou criar uma campanha contra o preconceito. A matéria abordava o hábito que alguns adolescentes e crianças de periferia têm de pintar o cabelo durante o carnaval para participar das festividades. Já que os mesmos não têm condições de comprar fantasias para a época, utilizam produtos de baixo custo, como papel crepom, água oxigenada e pó de madeira, a ideia é ficar o mais diferente possível para se destacar em meio à multidão. Destaque que aconteceu de forma controvérsia, pois apesar de intencionados em apenas se divertir, esses jovens ganharam rótulos discriminatórios.

Os cabelos coloridos de meninos negros, pobres e favelados incomodaram, e muito, à algumas pessoas. Surgiram vários comentários preconceituosos após a publicação da matéria nas redes sociais, descobrindo e escancarando situações que muitos desses meninos vivem no dia a dia, rótulos e adjetivos que tristemente já se acostumaram a receber.  Ao perceber a euforia desses seres, que do conforto de suas casas sentem-se superiores e seguros para expor o que realmente pensam e sentem sobre os cabelos coloridos dos favelados, me senti imensamente incomodada e ao mesmo tempo intrigada com a repercussão negativa da reportagem. Na mesma semana em que li essa matéria, uma senhora sentada em um ponto de ônibus na Savassi (bairro nobre de BH), ao avistar um menino branco, bem vestido e de cabelo azul, balbuciou: Nossa! Esses jovens de hoje em dia são tão “estilosos” (isso em tom de elogio). Logo me veio à memória aquela matéria que tanto repercutiu e gerou comentários maliciosos, uns diziam que eram marginais, outros que era falta de serviço e, em resumo, quase todos os comentários eram negativos, nenhum mencionava que os meninos tinham estilo ou que aquilo era algo legal de se copiar.

Sei que não podemos generalizar nenhuma das duas reações, nem os comentários maldosos na rede social e nem da senhorinha que achou lindo o menino branco de cabelo azul, mas o que me veio à mente, comparando as duas situações, foi a seguinte frase, e que ilustra bem a situação: “Somos todos iguais, alguns mais iguais que os outros.” De um lado meninos negros, pobres e favelados com cabelos amarelos, vermelhos, roxos, quase sendo crucificados por não ter vergonha do seu estilo ou por tentar ter um estilo próprio. Do outro um menino branco de cabelo azul que ao passar na rua conquista admiração e apoio até dos mais conservadores. Minha indignação ascende nesse ponto: porque os cabelos coloridos dos meninos negros foram tão discriminados, ou, seria apenas o cabelo que incomodava?

Essa atitude se estende para além de comentários preconceituosos em redes sociais. Jovens negros, de periferia e com cabelos coloridos, não conseguem arrumar emprego, tomam geral da polícia todos os dias e são sempre considerados suspeitos. A vontade da sociedade é manter ou colocar todos nos padrões brancos. Eles nos engolem todos os dias, riem da nossa cara, é como se dissessem para um menino negro: já que você não pode ser branco, pelo menos se comporte como um, corte esse cabelo duro, se vista como tal, fale como tal, enfim, seja um preto transvestido de branco, assim poderemos nos incomodar menos com sua presença.

Aos mais incrédulos, que pensam que estamos vendo chifre na cabeça de cavalo, eu peço que se atenham e percebam os olhares sobre os negros ao seu redor, e não me diga que isso é coisa da minha cabeça! Parece até que estou chovendo no molhado, né, minha gente, pois presenciamos situações desse tipo todos os dias, nos jornais, nas novelas e ao vivo e à cores, mas parece que não dão a mínima para o que acontece a nossa volta. Até hoje vivemos um regime de soberania branca, e o pior de tudo é que está tão naturalizado que as pessoas acham comum certos tipos de discriminação. É isso mesmo, senhoras e senhores, os pensamentos preconceituosos de nossa sociedade proíbem que negros e pobres possam se quer pensar em ser autônomos e donos dos seus próprios narizes ou cabelos, se acharem melhor.

Ah, quem dirá que estou sendo radical demais e que muita coisa tem mudado!? Sim, tem mudado e é sabido que os negros têm conquistado muitos diretos e oportunidades, mas ainda é pouco diante do buraco que deixaram na vida de nossos ancestrais.  Precisamos ter ciência de que esse fato não foi e não será um fato isolado, enquanto um grupo tentar impor seu modo de viver nós nunca poderemos ser nós mesmos.

Como diria Chico César: Se eu quero colorir, deixa!


Fiquem atentos, as portas das percepções estão abertas!

terça-feira, 10 de junho de 2014

Incômodos Virtuais

Felipe Lena


Que vida estamos levando? Quais tipos de relações estamos construindo? Num mundo com as redes sociais cada vez mais presentes na nossa vida cotidiana, o ser humano continua a expressar sua podridão de maneira contundente. Fico me perguntando, tentando observar como as pessoas se portam no ambiente público e no ambiente privado. Na rede social (ambiente público) a pessoa fala para centenas de pessoas (amigos, família, conhecidos, colegas de trabalho, etc.). Nesse aspecto, a rede social funciona como um palco e um microfone diante de uma plateia amorfa e heterogênea. Um traço que me salta aos olhos diante do comportamento das pessoas nas redes sociais é que de alguma maneira elas não veem nenhum problema em desabafarem, fazerem confissões, esbravejarem suas verdades, falarem dos seus sentimentos mais íntimos para sua plateia pessoal. Na verdade, parece que existe uma necessidade crônica das pessoas afirmarem quem elas são e o quanto o estilo de vida delas é superior, dentre outras coisas do tipo. Não sei se isso vem de um narcisismo crônico da nossa geração ou se é simplesmente a podridão humana sendo explicitada. O curioso é que não encontro esses mesmos comportamentos no ambiente privado. Quando encontramos as pessoas na vida real, elas parecem não se expressarem da mesma maneira que no ambiente virtual. Existe um descompasso aí.  Ao mesmo tempo as redes sociais me fazem sentir o tempo pesar... Entra ano e sai ano e as pessoas, de forma quase hipnótica, festejam e celebram as mesmas datas comemorativas que o calendário virtual avisa. Me lembra Sísifo empurrando a rocha morro acima e depois rolando-a morro abaixo. Qual o propósito disso tudo? Lembro-me de quando era mais novo, quando via pessoas sentadas na porta de casa, jogando conversa fora, descansando ao ar livre depois de um dia cansativo de trabalho. Via crianças na rua jogando bola, soltando papagaio, brincando de polícia e ladrão. Hoje em dia só vejo carros nas ruas. E as pessoas parecem zumbis com o celular o tempo inteiro na mão. Fico me perguntando: quais serão os reflexos desses comportamentos virtuais e reais nas próximas gerações. Qual futuro nos aguarda? Sou pessimista nesse aspecto. Não vejo o mundo melhorando. Acho que o mundo como está precisa entrar em colapso. Reformas não mudam muita coisa, rupturas sim. Porém, infelizmente, acho que estamos completamente imersos neste modo de vida, e não vejo como rupturas acontecerem no meu tempo de vida. É engraçado pois o nosso tempo de vida é muito curto, e mesmo assim não saímos do nosso caminho para transformar as coisas, estamos conformados. Continuamos vivendo nossas vidas patéticas, vivendo a ilusão de que estamos mudando as coisas. Talvez, no fim das contas, o ser humano só precise de ilusões.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Histórias de colonização e povos indígenas

Gustavo Jardel Coelho




Do genocídio. "Que culpa tem Cabral?", perguntou Raul, ironicamente. Doenças, estupros, assassinatos, no mínimo. Ou exploração, com a ambiguidade que cabe à palavra, dos povos "sem fé, sem lei, sem rei". Quaisquer coincidências do passado no presente são meras semelhanças? O "descobrimento" do "novo" mundo pela Europa pode ser compreendido como um marco para a modernidade ocidental, assim como a invasão consequente deve ser compreendida como uma marca da colonialidade moderna por aqui. Não apenas no corpo, mas na mente também. Por exemplo, a nomeação do espaço como projeção do futuro de uns, de Américo a "América", e a nomeação do tempo como negação do passado de outros, de Colombo a "pré-colombiano", de Cabral a "pré-cabralino". A linguagem dos colonizadores parte de si, "os vencedores", para criar um mundo "novo", ainda que velho, e ignorante, ainda que conveniente. E, como se uma ditadura colonial de mais de quinhentos anos não bastasse, espectros de outra ditadura, mais explícita e mais nacional, vêm emergindo, recentemente: notícias de tal Relatório Figueiredo denunciam certo genocídio generalizado, entre os anos de 1940 e 1970, realizado graças aos empreendimentos de colonização das fronteiras nacionais, como a construção de rodovias, entre outras, durante a ditadura civil e militar brasileira instalada pelo golpe de 1964. Relatos de matanças, torturas, escravizações, violências naturalizadas nas frentes civilizatórias dos postos indígenas do SPI (Serviço de Proteção aos Índios), antigo órgão oficial de indigenismo, anterior à FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Reflexos do colonialismo imperialista de outrora, cujo fim era a "evolução", no neocolonialismo nacionalista contemporâneo, cujo fim é o "desenvolvimento". E rastros de ditaduras que acusam que jamais fomos democráticos, como a usina hidrelétrica de Belo Monte, por exemplo: um projeto dos anos de chumbo, o anúncio de uma catástrofe socioambiental e, atualmente, reativado pelo governo federal, a pretensão de um dos maiores projetos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), ou, como o anarcofunk carioca critica bem, "Processo de Aceleração de Chacinas".

Do suicídio. Se "o ato de colonizar está na mente", o fato ("feito") de ser colonizado também. O estabelecimento de desigualdades e o exercício de discriminação não violentam apenas de forma física, mas também simbólica: a hierarquização e a inferiorização das diferenças é sentida e pensada no corpo, na mente e na alma. Desde Oriximiná, no Pará, até São João das Missões, em Minas, e alhures, há inúmeros casos de suicídio de pessoas indígenas. As motivações são diversas, mas, em geral, atreladas às pressões externas em relação às questões identitárias, étnicas e raciais, territoriais, fundiárias, entre outras, que tornam a morte uma alternativa à vida de carência e sofrimento material e espiritual impostos aos povos indígenas. A propriedade (privada), racionalizada pelo capitalismo, institucionalizada pelo Estado, foi e ainda é um instrumento de expropriação e negação do direito a uma das possessões mais fundamentais dos povos indígenas: a terra. Desterritorializados, os povos indígenas são alheados de seus meios de reprodução física e simbólica e, assim, são desafiados ao limite da resistência. O que houve (e ainda há) com o povo Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, pode ser compreendido como um exemplo crítico disso: invadidos e privados, historicamente, de seus territórios, cercados e pressionados por fazendeiros, surpreendidos por ataques de pistoleiros, estigmatizados pela população envolvente, o povo indígena se encontrou numa situação colonial de suicídio induzido, ele foi "suicidado" pela promiscuidade entre o capitalismo e o Estado, que emitiu uma ordem de reintegração de posse da terra aos fazendeiros em 2012. O povo Guarani Kaiowá, em meio a homicídios e estupros por pistoleiros e suicídios de jovens indígenas, endereçou, finalmente, uma carta ao governo do Estado e à Justiça Federal, solicitando que sua morte coletiva fosse decretada. Uma vez que sua terra era seu território ancestral, onde seus antepassados foram enterrados, o povo Guarani Kaiowá, desacreditado da justiça do governo, preferiu se suicidar, coletivamente, e ser enterrado ali, ao invés de ser expulso de seu lugar. Como um parente quilombola já falou: "Nós não somos tradicionais, parados no tempo, atrasados como os brancos falam, não. Mas se ser moderno é morar em lugar nenhum e em todo lugar ao mesmo tempo, tirando os outros do lugar, então, nós não somos modernos também, não!".


Do etnocídio. "Não fosse Cabral", para continuar com Raul, talvez o Brasil nem existisse. Nem o Pará, nem as Minas, nem o Mato Grosso do Sul, nem o Rio de Janeiro. E se não há espaço para os povos indígenas na floresta, nem no campo, há muito menos na cidade, lar da civilização do Ocidente moderno, centro do poder do Estado, sede das empresas do Mercado. Se não fosse Cabral, não haveria desocupação da Aldeia Maracanã do antigo Museu do Índio. Pedro, Sérgio e a estrutura histórica por trás e por cima dos Cabrais. Filho da mesma ilustração humanista que pariu a Ciência e seus pactos de verdade, o direito (democrático), burocratizado pelo Estado, é hesitante entre a verdade de uns e de outros. A política do Patrimônio, embasada na ideia de propriedade, vem se tratando de um colonialismo institucionalizado, assim como outros, e fez da Aldeia Maracanã um jogo assimétrico de poder entre o Estado-Mercado, detentor de um braço armado, militarizado, e as pessoas indígenas que reivindicavam e ainda reivindicam o prédio como seu lugar na cidade carioca. Graças a mais uma intervenção europeia na história (neo)colonial do Brasil, a FIFA e sua Copa do Mundo, o governo do estado do Rio de Janeiro desocupou, violentamente, com auxílio da Polícia Militar, o prédio do antigo Museu do Índio, ocupado por indígenas da Aldeia Maracanã. O prédio seria demolido para fins de modernização do entorno do estádio do Maracanã. Com a reação de indígenas, indigenistas, ativistas, entre outros, o governo do Rio voltou atrás, mas com a proposta de criar ali um Museu do Futebol. Descaso com a apropriação indígena do prédio, negação de sua diferente possessão da cidade, etnocídio. Apenas depois de muito debate, embate e combate, o prédio foi assegurado para a Aldeia Maracanã. No entanto, sob condições tutelares: o novo projeto de ocupação indígena do prédio deve ser e vem sendo feito em cooperação com o Estado. Ao fim e ao cabo, parafraseando, livremente, Awamirim Tupinambá, do Santuário dos Pajés, em Brasília, "empreendimento econômico é eufemismo para invasão, colonização e violência". A tradição do Ocidente moderno é marcada por uma colonialidade: uma negação e uma dizimação das diferenças, um processo violento de etnocídio e genocídio. Em tempos de ataques diretos aos direitos indígenas, se "abrir mão da palavra é entregá-la ao inimigo", então, que estigma se torne emblema e que nos juntemos ao coro da Mobilização Nacional Indígena porque "a gente vira indígena ou vira indigente".




segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sobre bananas e macaquices

Jotapê

Olha, faz algum tempo que venho observando o comportamento de certas pessoas, gosto muito de assistir a bela “comédia da vida privada”, ver o ser humano no seu íntimo, observar como ele é dotado de razão, liberdade para ser o que bem entender e fazer o que quiser. Porém, com o tempo descobrimos que necessitamos um do outro se quisermos sobreviver, a começar pelos seus pais que dedicaram tempo e afeto a você sem esperar nada em troca, com algumas “raras” exceções, para depois começar a perceber que cada um tem o seu papel e sua função em uma sociedade. Descobrimos que infelizmente, ou felizmente se você preferir, nós não somos eternos, um belo dia teremos de acertar as nossas contas com a morte, e só então percebemos o quanto somos limitados, e, na tentativa de superar esta nossa deficiência, buscamos nos organizar através de um sistema de signos, facilitando assim a comunicação, fazendo com que o nosso conhecimento não se perca no tempo e possa ser acessado por outros que compreendam estes dados, o repliquem e deem continuidade. Portanto, o ideal seria que as pessoas aprendessem com os erros passados e quisessem levar uma vida interessante para que a sua trajetória no planeta não seja simplesmente mera passagem, mas sim servir de exemplo para que as próximas gerações possam dar continuidade nas suas ações e a todo este conhecimento vivo que não é ensinado nas escolas.

É certo que nem tudo são flores, este livre arbítrio do qual fomos contemplados faz com que alguns tomem posicionamentos diferentes do que é convencionado pelo “senso comum”. Esse tal “bom senso”, como é popularmente conhecido, é algo muito pessoal e gera diferentes sentenças de acordo com cada cabeça. Afinal, se cada pessoa possui um gosto diferente, pensa diferente, são diferentes entre si com cores diferentes, traços diferentes, pertencem a classes diferentes, de orientações sexuais diferentes, vivências em diferentes lugares e estruturas familiares diversas, para mim é óbvio que isso daria em uma enorme confusão na busca da verdade absoluta. Enquanto os deuses se divertem com toda essa “humanidade”, somos tolos querendo nos entender, presos dentro de si mesmo, que na tentativa de encontrar o próprio Eu nos frustramos com a figura do próximo que nem sempre é, ou, faz parte daquilo que acreditamos ser o ideal. A sua defesa é honesta, é sincera, mas ela é só a sua certeza, a minha eu é que sei e ela pode ser bem diferente da sua!

O que fazer para resolver?

Como seres políticos que somos, ditamos regras, inventamos leis, e vendemos o nosso direito de existir plenamente em função dos nossos acordos de convivência. Assumimos papéis e posturas por status, afirmamos estereótipos, nos enquadramos em gráficos que registram uma sociedade doente, com um genocídio ascendente, nos fazendo vítimas do consumismo exagerado, da propaganda enganosa que incentiva o egoísmo criando “paraísos artificiais”, mostrando um mundo que nem sempre condiz com a nossa realidade, nem sempre representa nossos verdadeiros sentimentos, nossa verdadeira face, nos expomos sem a mínima preocupação e acabamos sempre taxados de forma negativa.

Eu prefiro acreditar no RESPEITO e na HUMILDADE. Pois, onde existe respeito não há espaço para injustiças e intolerância. “Respeito é pra quem tem...” já dizia o grande mestre Sabotagem, palavras sábias de alguém que viveu do outro lado e sabia muito bem como funcionava o sistema, como ele é cruel, um homem que sabia que se eu te trato com respeito e você me trata com respeito não haverá motivos para atritos, cada um na sua individualidade respeitando os limites do próximo. Agora, humildade não é abaixar a cabeça, não é pobreza e nada tem a ver com a timidez. Humildade é reconhecer que estamos sujeitos ao erro, é dar valor ao que é realmente de valor, tais como a família, amigos e trabalho. Estar aberto para novos conhecimentos, novas oportunidades, outras culturas e aprender com as diferenças. É reconhecer que o seu Eu faz parte de algo muito maior do que você imagina, de que somos um só, e a guerra não pode ser entre nós, mas sim contra o Mal que se espalha na sociedade, que insiste em nos rotular, nos classificar, segregar, nos fazendo acreditar que nossas diferenças são intoleráveis, que precisamos nos enquadrar em um sistema que só visa o lucro, padroniza a beleza, nos separa em classes e incentiva o consumo desenfreado de equipamentos que são rapidamente descartados, roubados e substituídos sem a menor necessidade porque a constante evolução tecnológica nos força a obter sempre o mais atualizado, pois o que temos entra em defasagem com uma velocidade cada vez maior.

Imagine se ao invés de julgarmos o outro com o que não nos agrada, o avaliássemos pelo que ele tem de melhor, não seria bem melhor? O caráter então, o que acha?

Pense em quantos exemplos de superação você conheceu ao longo da sua vida? Quanto você subestimou? Não é sua culpa, somos todos assim, julgamos através do nosso ponto de vista, é justo? Nem sempre, mas somos racionais e temos direito de escolha, porém você não sabe a minha história, não sabe por onde andei e nem o que tenho passado, é muito fácil avaliar superficialmente ou dizer que não lhe diz respeito, fingir não ver, enquanto você não sofre com as consequências dos seus atos.

Reflita sobre as minhas palavras, se coloque no lugar do outro e verá pontos de vista bem diferentes dos que habitam o seu intelecto. Em meio a toda essa guerra de bananas e macaquices não foi preciso citar a palavra NEGRO para dizer onde quero chegar.


Afinal, isso é preconceito ou é palhaçada?

terça-feira, 6 de maio de 2014

Nem só de opiniões e batatas vive o homem

Mariana –  marianantunes@gmail.com


“Não sei, não sei. Não devia de estar relembrando isto, contando assim o sombrio das coisas. Lenga-lenga! O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas, talvez por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo”. 


Escrever não é tarefa fácil. Sempre que me proponho a colocar palavras que façam minimamente algum sentido juntas num espaço em branco sofro com inúmeros pensamentos. Um verdadeiro bombardeio! Posto isto, é preciso dizer: tenho (hoje) certa fé na vida e nos seus agenciamentos. Todas as vezes que busquei sintetizar alguma vivencia no papel, me coloquei a observar. Observar para apreender algo de novo. Algo qualitativamente diferente da minha habitual maneira de ser, pensar e vivenciar a vida. Talvez por isso seja tão difícil. Exige-me um novo olhar.
Não se espantem se vez ou outra, quando bem dispostos (por que é preciso estar disposto de verdade), ao olhar à vida com desejo de novos desdobramentos ela te surpreenda com inúmeras situações inquietantes, vivas de possibilidades e colocadas com muito carinho à sua frente. É, de fato, o que acontece.
Por inúmeros motivos estou hoje escrevendo sobre o olhar, pois mesmo que a vida colabore, é preciso ter olhos de ver: capazes de captar o diferente e o potente em cada recomeço. Mas como escrever sobre tema tão sutil? Recorro a Guimarães Rosa para justificar a simplicidade desta fala. Ponderações! É disso que se trata este texto. Questões sobre o olhar, a percepção do mundo, de si mesmo e do outro que venho me fazendo. Este texto é também um convite: conversa comigo?
Eu me revoltava com frequência. Pessoa inquieta, cheia de verdades sobre o mundo e sobre o outro, sobre como as coisas deveriam ser, sobre como todos juntos poderíamos mudar o mundo. Verdades relacionadas a discursos que defendiam a humanidade de suas atrocidades. Em cada menor situação, eu já possuía logo uma opinião (formulada não necessariamente por mim) sobre isso ou aquilo. Falácias...
A vida tem suas rasteiras. Há enganos por todos os lados, mas é pior quando o enganado se considera o dono da bola. Vivi essas rasteiras até me dar conta (perceber!) que tenho uma esfera muito limitada de influencia (o que não significa menos importante!): eu mesma. Há atrocidades no mundo e a questão que me coloco atualmente é: o que fazer com elas? Sinceramente tento não perder a esperança, pois é preciso acreditar minimamente em algo, e escolho acreditar na possibilidade que hoje vejo ao meu alcance ao invés de tentar resolver tudo de maneira despótica e autoritária. Quem sou eu para saber sobre o que é melhor para o mundo? Preciso, ao contrário, ao me deparar com esse mesmo mundo tão heteromorfo, me posicionar. Quão potente pode ser um posicionamento? Como um posicionamento verdadeiramente pensado e vivido pode reverberar? É preciso sensibilizar, e estou inclinada a dizer: tanto o outro como a si mesmo.
Há cerca de quinze dias tive o prazer de vivenciar uma situação curiosa. Dessas que a vida coloca com carinho à nossa frente. Estava com uma amiga em um belo café de Belo Horizonte esperando o inicio de uma entrevista. Não importa agora, em que café ou qual foi esta entrevista. Meu olhar foi desviado para o lugar ao lado do meu. Fomos, eu e esta minha amiga, convidadas por uma solitária senhora a dividir a mesa. Consentimos com um meneio de cabeça e um sorriso: ela poderia sentar-se à nossa mesa. Feito este consentimento continuamos conversando... Sobre a vida! Falávamos sobre a vida. Surgiram argumentos, opiniões, histórias... Pensávamos sobre como anda o mundo e o que andam fazendo do mundo algumas pessoas, amigas ou não. Comemos uma porção de batatas fritas absorvidas pela conversa. Sobre a vida há sempre muita coisa a ser dita... Como fomos distraídas!
Poucos minutos após o fim da porção de batatas aquela mesma solitária senhora se vira para as duas moças que dividiam A MESA com ela e diz: “Vocês se importam de dividir uma porção comigo? Eu pago. Não aguentaria comer tudo sozinha.” Fiquei sem reação. Nossa cara foi ao chão. Que vergonha! Estávamos dividindo a mesa... De que adianta ter ‘uma opinião formada sobre tudo’? Não é disso que se trata. De que vale o meu saber se ele não for importante para fazer com que eu perceba esse outro (qualquer outro) que está ali ao meu lado me convidando: seja menos exclusivista, menos segregacionista, menos... menos... menos... Bem menos!  
Nem só de opiniões e batatas vive o homem. E aí então, as batatas e as opiniões que até então ocuparam aquela mesa se desintegraram do meu campo de visão e eu só pude pensar: quanta incoerência podemos comportar em nossas ações mesmo quando bem intencionados!? Falar é fácil e opinar corrobora para a configuração de uma imagem pessoal plausível de admiração. Mas o quanto estamos de fato implicados naquilo que defendemos?
Enfim... Urgente, é se sensibilizar. Ser preciso é saber o que se está dizendo. Melhor dizendo, é ser capaz, minimamente, de exercer certa coerência na (própria) vida. Terceiro: há uma posição. Posição que implica, necessariamente, sob qual perspectiva você, eu, cada um que compõe qualquer espécie de ‘nós’, percebe o todo e o relativo. Posição, necessariamente, que funda atitudes engendradas e reverberadas socialmente.